Escola Algodão Doce promove feira

O livro infantil "Hikôki e a mensageira do Sol" foi destaque na feira da escola - Foto: Divulgação

27/4/2012 – 20:22h

A escola infantil Algodão Doce, que funciona em Santa Efigênia, promoveu a Feira de Livros 2012 e, além de oferecer aos pais dos alunos e visitantes, a oportunidade de conhecer e adquirir vários livros infantis, que foram expostos durante os dias de realização do evento, também presenteou as crianças com a contação de muitas histórias.

A turma do 1° ano, da tarde, da professora Andrea, vivenciou a obra de Monteiro Lobato e encenou “O sítio do Picapau Amarelo”. Os autores Vera Pinheiro e Eide conversaram com os alunos sobre seus livros.

Fui convidada para falar do meu livro “Hikôki e a mensageira do Sol”, ilustrado por Maurízio Manzo, editora Miguilim. Contei a história para os alunos do turno da tarde sob a orientação da coordenadora da escola e da feira, professora Cláudia Morais. Fui surpreendida pelo interesse das crianças em conhecer detalhadamente sobre a criação da história e a produção de um livro.

Para quem quiser saber mais: “Hikôki e a mensageira do Sol” foi lançado em 2011 e está à venda no site da editora Miguilim e nas livrarias de Belo Horizonte.

Os brasileiros e o papel da leitura

22/4/2012 – 20:20h

A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, em sua terceira versão, divulgada na semana passada pelo Instituto Pró-Livro, é o resultado de uma evolução desse tipo de trabalho em nosso país. Desde a primeira versão, no ano 2000, passando pela de 2007, os objetivos têm se mantido idênticos. Mas existem mudanças significativas entre cada uma delas, o que torna a comparação uma tarefa difícil e que deve ser empreendida com cuidados. Em primeiro lugar destaquemos as diferenças entre a pesquisa de 2007 e a atual. São duas diferenças importantes.
A primeira é a alteração da ordem das perguntas. Na Retratos da Leitura de 2007, depois das perguntas de qualificação de renda, classe, escolaridade etc, o questionário começava pela percepção que o entrevistado tinha sobre a importância da leitura, o “valor” da leitura, a posição da leitura em relação ao uso do tempo livre e coisas do estilo. Só mais adiante é que se faziam perguntas objetivas relacionadas aos hábitos de leitura e consumo de livros, como quantos e de que modo haviam sido lidos. Na versão de 2011 – com 5.012 entrevistas realizadas em 315 municípios brasileiros – se inverteu a ordem.
Isso certamente teve um impacto no resultado das pesquisas. Existe uma percepção social da importância da leitura que é muito forte. Quando o pesquisado já sabia sobre o que tratava a pesquisa, podia tender a aumentar o número de livros lidos, ou mesmo mentir sobre se leu ou não. A valorização da leitura pode ter pesado na pesquisa anterior, inflando o resultado. A inversão da ordem das perguntas certamente melhorou a qualidade das respostas.
Outra modificação significativa foi a da redução do período em que se exigia a lembrança do pesquisado sobre seus hábitos de leitura, de um ano para três meses. Desse modo não se exigia um “puxar da memória” que podia induzir a distorções. Isso certamente aperfeiçoou a pesquisa, mas trouxe um problema: dificultou as comparações. Em 2011 estamos tratando de dados mais precisos, enquanto em 2007 pode ter havido certo “ofuscamento” involuntário nas respostas. As comparações, portanto, devem ser feitas a partir do conjunto de dados, e não simplesmente tabela a tabela, ou gráfico a gráfico.
Acredito que a esses fatores se deve a aparente diminuição dos índices de leitura entre as duas pesquisas. Jamais poderemos ter certeza absoluta de que essa diferença se deve a isso, ou somente a isso, mas essa é uma boa pista.
Retratos da Leitura no Brasil é uma pesquisa de opinião. O que se quantifica são opiniões e essas podem se modificar por vários fatores. Mas o conjunto apresenta indicações preciosas para a formulação de políticas públicas que contribuam para que esse ideal de valorização da leitura se torne uma realidade. O importante é fazer perguntas à pesquisa, lê-la com atenção em função do que se deseja saber, procurando articular o conjunto das respostas. O que se apresenta aqui é um exercício de resposta a algumas questões apresentadas pelos dados da pesquisa. Cada leitor pode ter um conjunto de perguntas diferentes, e precisa se dedicar à busca de suas respostas.

Aumentou ou não o número de leitores no país?

Se considerarmos os dados brutos das duas pesquisas, o número de leitores e os índices de leitura diminuíram entre 2007 e 2011. Alguns outros indicadores permitem matizar essa observação: o número de compradores de livros aumentou e, principalmente, o número de leitores e compradores com idade de quem já saiu do sistema Escolar. As mudanças na aplicação do questionário, como já se disse, podem colocar em dúvida essa diminuição dos índices. No entanto, o conjunto dos dados, por sua vez, permite que se afirme que as políticas de promoção da leitura e de facilitação do acesso ao livro ainda não estão amadurecidas e produzindo efeitos.

Os autores preferidos: como vêm e vão

A lista dos autores mais admirados revela claramente três grupos de influência: escola, religião e imprensa (escrita e televisão). O autor mais citado, Monteiro Lobato, já aparecia em outras pesquisas quando os livros de sua autoria estavam praticamente fora do mercado. Evidentemente por causa da exibição de “O Sítio do Picapau Amarelo” na TV e de subprodutos com a marca Monteiro Lobato e seus personagens. Os best-sellers mais recentes, principalmente os com foco no público juvenil, constituem a categoria de autores com maior mobilidade, mudando de acordo com os modismos.
O bloco dos autores ligados à religião também tem mobilidade, com alguns entrando (“A cabana”, de William P. Young e “Ágape”, do padre Marcelo Rossi, estão entre os mais lidos), outros saindo e outros mais permanecendo. O bloco de autores “canônicos” revela a presença das exigências escolares. Mesmo depois de sair da escola, muitos vão se lembrar de Machado de Assis e José de Alencar porque “eram importantes”, mesmo que sua leitura não fosse encarada com prazer quando estudavam.
O mesmo vale para os poetas: os que aparecem (como Drummond) são basicamente os adotados, e apenas esses. O brasileiro “lê poesia” na Escola por obrigação ou pelo romantismo adolescente. As listas de best-sellers divulgadas pela imprensa são as mais voláteis, enquanto escola e influências religiosas têm uma “cauda longa” na memória dos leitores.

Como as pessoas têm acesso aos livros que leem?

Esse quadro apresenta vários elementos de reflexão. Em primeiro lugar, o fato de a maioria dos livros lidos ser comprada, o que significa um forte componente do fator “renda” no acesso ao livro. Mas é notável que o empréstimo entre as pessoas seja o segundo modo de acesso. Isso indica duas coisas:  a) um nível muito significativo de intercâmbios interpessoais entre os leitores – uma parte do “boca a boca” dos livros se resolve com empréstimos entre amigos; b) o empréstimo está suprindo parte das deficiências das bibliotecas, demonstrando iniciativa dos leitores e uma “demanda silenciosa” por melhores bibliotecas. Essas relações interpessoais se revelam também no fato de muitas pessoas ganharem livros de presente: 88% das pessoas afirmam que ganhar livros de presente foi importante. Em contraposição aos empréstimos, 5% dos livros lidos foram “xerocados”: é outro evidente sintoma das deficiências das bibliotecas. O componente “renda” deixa claro: os livros estão caros e se fossem mais baratos, haveria mais compradores. Campanhas para presentear também deveriam estar na pauta de editores e livreiros.

O livro no imaginário e a realidade da leitura

Quando se pergunta sobre a importância da leitura, há uma quase unanimidade acerca de sua importância. Em nossa sociedade, o valor da leitura é apreendido como fundamental, e 88% dos entrevistados dizem isso. Mas entre essa afirmação genérica e a prática há uma grande distância. Quando perguntados se conhecem alguém que “venceu na vida” por ler, 47% dos entrevistados dizem que não, e mais 8% não sabem. Há uma percepção social da importância da leitura e uma prática não leitora, que se deve a muitos fatores: escolaridade (tempo na escola e qualidade do ensino), renda, acesso, deficiências físicas (visuais) etc. A “ponte” entre formação profissional, sucesso, “vencer na vida” e leitura se perde na prática. Tudo indica que, neste caso, os entrevistados igualam leitura apenas com “leitura literária” e não consideram as leituras técnicas e científicas, por exemplo.

O papel da renda e da escolaridade nos índices de leitura

Renda e escolaridade são os dois fatores que têm maior influência nos índices de leitura. Essa tabela evidencia esse fenômeno de forma claríssima: quanto maior o nível de renda e de escolaridade, maior o índice de leitura. A escolaridade é o fator mais importante dos dois. A quantidade de pessoas com renda de mais de dez salários mínimos é menor que a quantidade de pessoas com educação superior. A chamada classe A corresponde a apenas 2% da população total do país, enquanto os de nível superior de educação correspondem a 11% da população (Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílios). Os leitores classe A são apenas 1% do total, e os com ensino superior são 16%. Entretanto, em números absolutos, são as classes B e C e os que completaram o Ensino Médio que constituem o segmento com mais leitores: 56% entre os que têm Ensino Médio e 81% nos que estão nas classes B e C.

Existem diferenças regionais significativas nos resultados?

Não se constatam diferenças nos índices de leitura e na compra de livros que possam ser atribuídas exclusivamente a fatores regionais. As diferenças que existem e aparecem entre as regiões se devem a fatores específicos de renda e escolaridade. Por exemplo, o aumento dos índices de escolaridade no Nordeste, nos últimos anos, reflete-se na pesquisa. Não por ser Nordeste, mas por conta do investimento mais intenso no sistema educacional da região, que recupera atrasos. O fato de as regiões Sudeste e Sul lerem e comprarem mais livros se deve a um fator de concentração de renda mais do que qualquer outro. Ou seja, a homogeneidade cultural do Brasil se revela também nesse aspecto, ao contrário de outros países onde fatores como línguas diferentes e tensões autonomistas eventualmente têm um papel relevante.

O número de compradores de livros cresceu?

Aumentou o número de compradores de livros. Eram 45% dos que liam em 2007 e passaram a ser 48% em 2011. O mais notável foi o aumento do número de compradores com idade acima dos 18 anos. Todas as faixas etárias aumentaram significativamente. O que isso quer dizer? As políticas de leitura nas escolas, vagarosamente, mas de forma consistente, aumentam o interesse (e a compra) de livros fora da idade escolar, apesar de o maior número de leitores ainda ser de estudantes. A renda, entretanto, ainda é um fator limitador para a compra de livros. Mas os números são impressionantes: são 1,978 milhões de compradores na classe A; 15,616 milhões na B; 20,79 milhões na C e 4,089 nas classes D e E. São 42,3 milhões de compradores no total, contra 36,35 milhões em 2007. Ou seja, a massa de leitores diminuiu, mas entre esses leitores o número de compradores de livros aumentou. De qualquer maneira, 85% dos entrevistados não compraram nenhum livro nos últimos três meses.

Por que as pessoas dizem que conhecem as bibliotecas e não as frequentam?

O Censo Nacional das Bibliotecas Públicas Municipais, de 2009, nos dá indicações. Apesar de existirem em 99% dos municípios, as bibliotecas são reconhecidamente mal equipadas. Apenas 25% delas têm mais de dez mil títulos no acervo; em 88% delas o acervo só aumenta por doações; apenas 12% abrem aos sábados, e só 1% abre aos domingos. As pessoas sabem que existe a biblioteca, mas não encontram nela o que buscam. O conjunto dos dados mostra que 70% dos que usam bibliotecas são estudantes. Resultado: 67% dos entrevistados sabem que existe biblioteca, mas apenas 7% as usam frequentemente, e 17%, ocasionalmente. Apenas 26% dos entrevistados têm acesso a livros por meio das bibliotecas. A faixa dos 5 aos 24 anos é a que mais usa as bibliotecas. O esforço para o equipamento das bibliotecas públicas e a instalação de bibliotecas escolares deve ser intensificado. A população não usa mais as bibliotecas porque essas estão muito abaixo do mínimo de qualidade e quantidade de acervo e serviços desejáveis, e isso se reflete nos índices de leitura.

Os livros digitais

As informações sobre leitura de livros em formato digital são importantes para futuras comparações. Os leitores de e-books não são mencionados, registrando-se apenas a leitura em computadores. Já há uma base de tablets e e-readers no Brasil, mas ainda é pequena. O Programa Nacional do Livro Didático 2014 incluirá materiais digitais, com possível distribuição de tablets pelo MEC. Isso e a redução do preço dos e-readers podem aumentar a presença do livro digital.

O papel da escola, imprensa e religião nas escolhas de leitura

Ao se falar de gêneros “lidos” é necessário tomar algumas precauções. A Bíblia não apenas é o livro mais vendido na maior parte do mundo (exceção do Oriente), mas também o mais citado como “leitura”. Sabemos, entretanto, que a leitura da Bíblia se reveste de circunstâncias e formalismos: são versículos lidos aleatoriamente ou em função de cerimônias religiosas, às vezes seguindo um calendário próprio. O mesmo acontece com os livros didáticos, lidos em função de uma situação particular da vida das pessoas.
A presença de livros religiosos em terceiro lugar, autoajuda em nono e esoterismo em 19º revela uma forte necessidade de buscas espirituais/filosóficas por parte dos leitores. A influência da escola se revela em vários gêneros: didáticos, literatura infantil, literatura juvenil, poesia e dicionários e enciclopédias, assim como livros técnicos, todos fortemente vinculados às atividades escolares e às leituras determinadas por professores. Culinária/artesanato/assuntos práticos e viagens revelam um interesse utilitário dos leitores. Finalmente, romances e as categorias restantes é que denotam o interesse pela leitura desvinculada de interesses extraliterários.
A julgar pelos gêneros, a leitura da maioria das pessoas está muito vinculada a aspectos práticos de variados tipos, apesar da declaração de que a leitura “por prazer” seja feita por 75% dos entrevistados, contra 25% dos que leem “por obrigação”. Mais uma incongruência entre o discurso e a prática.

(Fonte: O Globo – 9/4/2012)

Brasileiro respeita o livro, mas não lê

22/4/2012  – 20:14h

23 de abril é o Dia Mundial do Livro. Há poucos dias atrás, tivemos a confirmação que o brasileiro continua lendo muito pouco, através dos resultados da 3ª Pesquisa Retratos da Leitura no Brasil realizada pelo Instituto Pró-Livro. Sendo assim, precisamos saber: qual a forma mais adequada de celebrarmos esta data?

O brasileiro não gosta do livro? Gosta, sim. A pesquisa revelou que o livro é muito respeitado, que o número de compradores de livros vem aumentando e o valor da leitura é inquestionável pelos brasileiros de um modo geral. Mas, embora respeite, o brasileiro lê apenas 4 livros por ano e, mesmo assim, só 2.1 até o final.

Como a Bíblia é o livro mais lido e as obras que tratam de religiosidade, esoterismo e autoajuda também estão entre as mais procuradas, conclui-se que o brasileiro mais reza e busca por apoio espiritual do que propriamente lê. Ou, então, abre apenas os livros didáticos. A pesquisa, entretanto, afirma que a maior parte dos brasileiros lê por prazer.

Talvez, esse seja o ponto a se destacar. É preciso educar os brasileiros para a leitura e ensiná-lo a ler simplesmente por gosto ou hábito e não por necessidade ou imposição. Como estamos comemorando o Dia Mundial do Livro, claro, precisamos encarar a realidade, mas não podemos ser pessimistas.

Os resultados da pesquisa podem não ser tão bons, mas muitas políticas públicas foram plantadas e continuam sendo semeadas pelo Brasil. Com o passar do tempo, essas ações vão amadurecer e, então, veremos mais brasileiros de livros nas mãos.

A começar pelas crianças, que já podem ter acesso a livros de qualidade, vamos torcer para que a próxima geração de brasileiros seja mais íntima dos livros do que a atual.

Leia uma análise completa da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, publicada no jornal O Globo de 9/4/2012, clicando na categoria Pesquisa e dicas deste blog. A análise vai ajudar para uma boa reflexão sobre o Dia Mundial do Livro.

Retratos da leitura no Brasil

15/4/2012 – 21:57h

O resultado da pesquisa “Retratos da leitura no Brasil” (3ª edição), divulgada em 28/3, ponta que a média de leitura do brasileiro é de quatro livros por ano, sendo apenas 2,1 livros até o fim. Triste notícia se não fosse uma pesquisa, pois, como toda pesquisa, é apontamento para análise e repercussão.

Certo é que o governo iniciou discussões e levantamentos de novos projetos para tentar sanar esse problema, porque, como afirmou a ministra da Cultura, Ana de Hollanda, presente na abertura do seminário com o mesmo título da pesquisa, “a leitura quando vai além do livro didático, vai permitir a formação do cidadão, vai dar ao cidadão as ferramentas do conhecimento, permitir a ele desenvolver a capacidade de reflexão e análise, de questionar e desenvolver seu pensamento e sua opinião. A literatura tem essa capacidade”.

A leitura é um hábito e como tal deve ser cultivado. O problema vem do berço, da formação do leitor, das ações e interferências para que ele leia e se habitue a ler. Para a educação infantil, neste sentido, percebe-se diversos esforços, programas com a utilização de livros em diversas atividades, a fomentação da curiosidade, relacionando-os às disciplinas escolares.

Mas, para mudar esse álbum de retratos opacos sobre a leitura, o desafio não está apenas na falta de hábito, na deficiência do acesso ao livro, que começa na infância e que se dá por uma série de motivos, atingindo outras questões como a escolaridade. Está na falta de empenho de toda a sociedade.

Questões que envolvem a educação são muitas, como a do controle do livro didático, a atual polêmica do consumo da merenda escolar pelos professores, enfim, são desafios que necessitam do envolvimento da sociedade nas políticas públicas voltadas para enfrentar esse quadro.

A exemplo do que sugeriu a deputada Fátima Bezerra (PT-RN), que iniciou o debate sobre o resultado da pesquisa no Parlamento, acredita-se que, para mudar a situação, a sociedade civil também precisa cobrar resultados dos ministérios da Cultura e da Educação, de seus dirigentes e de seus eleitos.

O que impede o brasileiro de ler mais é a falta de conhecimento do prazer da leitura. “Quando a pessoa diz que não tem tempo para ler, na verdade, ela tem tempo para outras coisas como ver televisão”, afirmou Karine Pansa, presidente do Instituto Pró-Livro, que encomendou a pesquisa.

A conclusão, citada por Amanda Cieglinski, é demonstrada no resultado de que o maior impedimento é a falta de tempo, citada por 53%, seguida pelo desinteresse, admitido por 30%. Apenas 4% dizem que não leem porque o livro é caro e 6% porque não há bibliotecas perto de casa.

O presidente da Fundação Biblioteca Nacional, Galeno Amorim, afirma que o Brasil está chegando perto da meta de ter pelo menos uma biblioteca por município, mas um dos problemas apontados pela pesquisa é que três em cada quatro brasileiros nunca foram a uma biblioteca. Se quase todos os 5,5mil municípios brasileiros já têm uma biblioteca, qual é o fator que impede as pessoas de frequentá-las? É o horário de funcionamento? É a sua atuação? Como são as atividades durante as férias?

Abril abriga duas datas pertinentes: o Dia Internacional do Livro Infantil (2), em homenagem a Andersen, e o Dia Nacional do Livro Infantil (18), em homenagem a Monteiro Lobato. Relembramos que precisa-se urgentemente conquistar o leitor, chama-lo a participar, encantá-lo. Precisa-se incentivar através da própria televisão, em suas novelas, desenhos animados e até reality shows, o hábito da leitura.

Precisa-se mobilizar a sociedade em prol dessa prática. Em Belo Horizonte, por meio da Agência de Sistemas de Informação (Agesin), com o projeto “Seu Livro”, pratica-se o BookCrossing, um movimento que, em alguns países, prega o ato de doar livros, deixa-los em um local público para que sejam encontrados e lidos por outros leitores.

São de práticas semelhantes a essas iniciativas, aquelas dos textos pendurados nos bancos de ônibus. E por que não termos livros nas cadeiras nos serviços de atendimento ao público (bancos, laboratórios e até nas barracas de praia)? Que se comece por textos, redes sociais, por autoajuda, pois o que importa é desenvolver o hábito da leitura e formar cidadãos críticos e participativos.

(Artigo de Ana Paula de Rezende, especialista em Gestão Estratégica da Informação e bibliotecária, publicado no Estado de Minas, Opinião, 9/4/2012)

O mais lido e o mais admirado

5/4/2012 – 20:21h

A Bíblia continua sendo o livro mais lido pelos brasileiros e ganha dos livros didáticos e dos romances. Foi o que apontou a 3ª Pesquisa Retratos da Leitura no Brasil divulgada no fim do mês passado pelo Instituto Pró-Livro sobre os hábitos de leitura da população.

Ao questionar os cerca de 5 mil participantes sobre os gêneros que costumam ler, a Bíblia foi citada por 42% e manteve-se no primeiro lugar da lista, mesma posição ocupada na edição anterior da pesquisa, em 2007. Os livros didáticos foram citados por 32%, os romances por 31%, os livros religiosos por 30% e os contos por 23%. Cada entrevistado selecionou em média três gêneros.

Os títulos religiosos ganharam espaço na estante dos brasileiros. Na lista dos 25 livros mais marcantes indicados pelos entrevistados, o livro Ágape, do padre Marcelo Rossi, aparece em segundo lugar na lista. Perde apenas para a própria Bíblia e para A Cabana, do canadense William Young.

Em seguida na lista das obras mais marcantes aparecem O Sítio do Picapau Amarelo, O Pequeno Príncipe, Dom Casmurro e as coleções Crepúsculo e Harry Potter. Mesmo depois de mais de 60 anos da sua morte, Monteiro Lobato continua no imaginário da população. O escritor paulista permaneceu no topo da lista dos autores brasileiros mais admirados. Na sequência aparecem Machado de Assis, Paulo Coelho, Ariano Suassuna e outros autores de best sellers recentes como o pastor Silas Malafaia e o padre Marcelo Rossi.

**********

O Instituto Pró-Livro já disponibilizou no endereço eletrônico http://www.prolivro.org.br/ipl/publier4.0/dados/anexos/2834.pdf a apresentação desta pesquisa conduzida em 2011.

A entidade também apresentou outro documento que compara alguns resultados apurados no Brasil com números pesquisados em alguns outros países, em diferentes anos.

Em relação ao número de livros lidos ao ano, por exemplo, a Espanha aparece em primeiro lugar (10,3), seguida de Portugal (8,5), Chile (5,4), Argentina (4,6), Brasil (4,0), México (2,9) e Colômbia (2,2). Na Espanha, 58% da população lê no tempo livre, número que se compara a 66%, no caso da Argentina, a 28%, no Brasil, e a 5%, no Chile.

Toda idade é idade de poesia

3/4/2012 – 19:55h

Entrevista

José Hélder

Professor de literatura brasileira e literatura infanto-juvenil

Segundo o professor, há experiências significativas de trabalho com a poesia na escola - Foto: Portal do Professor

Jornal do Professor: Qual é a importância que a poesia pode ter na sala de aula? Por quê?

Hélder Pinheiro: Primeiro é preciso dizer que a poesia é uma arte milenarmente cultivada em todas as culturas. É uma arte que nos acompanha desde os tempos ágrafos e cuja transmissão era feita pela memória. Desde criança somos estimulados por sons, por canções, por jogos de palavra, por trava-línguas, por quadras sobre os mais diversos temas. A poesia, portanto, é uma arte de fundamental importância para ser trabalhada em todas as séries do ensino fundamental e médio porque ela estimula a fantasia, a imaginação, ela nos acorda para a música da língua (Eliot nos lembra isto), ela nos “protege contra a automatização, contra a ferrugem que ameaça a nossa fórmula do amor e do ódio, da revolta e da reconciliação, da fé e da negação”, conforme as palavras de Jakobson*. Mas também ela nos faz pensar, ela tem o poder de se alojar em nossa memória e nos levar para momentos de encantamento, de alegria. A questão que fica é: se ela é algo tão fundamental, por que é utilizada de modo tão medíocre na maioria das vezes?

JP: A utilização de poesia na sala de aula pode servir para estimular a criatividade dos alunos e despertar o gosto pela leitura?

Hélder: Num sentido amplo sim, pois a boa poesia oferece paradigmas de alta criatividade, de diferentes modos de trabalhar a linguagem, de explorar imagens e sons diferenciados e significativos. Também, à medida que é levada, sistematicamente, ela pode criar o desejo de conhecer mais um ou outro poeta ou poetisa, um ou outro tema – ou como determinado tema foi poetizado em diferentes momentos da história. Mas para formar o gosto pela leitura há que se trabalhar de modo constante, jamais aleatoriamente. É do conhecimento de vários estilos, de vários temas, de várias possibilidades de trabalho com a linguagem que se vai formando o gosto. Se a escola faz um trabalho de leitura de poesia desde as séries iniciais com certeza tem boas chances de despertar interesse pela poesia e formar o gosto pela leitura.

JP: Quais as principais formas de utilização da poesia na sala de aula?

Hélder: Partindo inicialmente de minha experiência, uma questão fundamental é a leitura oral. Poesia pede voz – várias vozes, leituras repetidas e discutidas. É pela leitura oral que o leitor vai perceber as nuanças sonoras e semânticas, vai descobrir imagens que passam desapercebidas numa primeira leitura. A leitura oral é um procedimento que funciona bem em todos os níveis de ensino. Com crianças menores, além de leitura e releitura, improvisações a partir do poema sempre têm um papel importante – aproximam a criança da materialidade do poema, permitem que recriem situações, que fixem versos, imagens, etc. Em níveis mais altos – séries finais do fundamental e ensino médio _ pode-se trabalhar a partir de temas. Discutir como um mesmo tema é tratado em diferentes épocas aguça a curiosidade do leitor e possibilita bons debates sobre diferentes modos de ver e expressar os sentimentos, os desejos humanos. Por exemplo: a leitura de “Subversiva” de Ferreira Gullar (Na vertigem do dia), “Os poemas” de Mário Quintana (Esconderijos do tempo) e “A palavra” de Lenilde Freitas (Grãos na eira) levam a uma concepção mais ampla do que vem a ser a poesia para cada poeta. Isto pode ser ampliado com introdução de inúmeros poemas de poetas contemporâneos ou não. Trata-se de uma espécie de literatura comparada sem a preocupação de aplicar métodos; antes, a partir da leitura dos poemas vai-se formulando questões e discutindo. Assim é possível favorecer não um conhecimento sobre a poesia, mas a partir da vivência e do conhecimento da poesia. No ensino médio já é possível se deter mais sobre um poeta ou poetisa e ler vários poemas procurando observar peculiaridades daquele (a) autor (a). Jamais a partir dos modelos dos livros didáticos, que tentam enquadrar os autores em escolas, num procedimento limitador que não favorece a formação mais ampla de leitores.

JP: Em sua opinião, a poesia está sendo bem utilizada nas escolas ou isso pode melhorar?

Hélder: É difícil responder de modo taxativo. Acho que há experiências significativas de trabalho com a poesia na escola. Mas, infelizmente, a maioria das experiências é limitada. A começar pelos livros didáticos que, mesmo com avaliações constantes do MEC, ainda reproduzem esquemas bastante pragmáticos para o trabalho com a poesia. Portanto, há muito ainda que ser feito. A começar pelo fato de a maioria de professores e pedagogos não serem leitores de poesia. Sem que se seja um leitor, dificilmente pode-se acordar no outro o gosto pela poesia. Exercícios mecânicos que não exploram, oralmente, as sutilezas e encantamentos da poesia não formam leitores. A poesia precisa ser trabalhada cotidianamente. Lembremos aqui aquele poeminha de Oswald de Andrade: “No Pão de Açúcar/De Cada Dia/ Dai-nos Senhor/ A Poesia/ De Cada Dia.” Todo dia é dia de poesia. Todos os dias nossos alunos deveriam ser brindados com um poema, uma estrofe, um verso. Aqui, entra-se num problema central de nossa escola: o problema da formação de professores. A formação literária, que interessa mais particularmente, é fragilíssima, inclusive nos cursos de letras. Basta lembrar que a maioria de nossos cursos de letras não tem uma cadeira de literatura infanto-juvenil como obrigatória. Esta disciplina ofereceria, em tese, um repertório mínimo para o profissional que vai atuar no ensino fundamental.

JP: A utilização de poesias na sala de aula pode ser feita a partir de que idade ou nível de ensino?

Hélder: A partir de qualquer idade. Toda idade é idade de poesia. Logo cedo, quando chega à escola (as crianças estão chegando cada vez mais cedo à escola…), a criança já revela interesse pela música das palavras, pelas diferentes sonoridades, mesmo que não entenda, pelas rimas. Há uma diversidade enorme de poemas sobre bichos, temática que tem forte apelo sobre as crianças. Também os poemas que tematizam brincadeiras e que brincam com as próprias palavras. Digo mais uma vez: a partir de qualquer idade e mais: com constância. Um projeto sobre poesia no início do ano e o resto do ano sem poesia não vai ajudar a formar leitores.

JP: Qualquer pessoa pode aprender a fazer poesia?

Hélder: Esse tema é mais complicado. Em tese, sim. Do mesmo modo que qualquer pessoa pode aprender a tocar violão. Acho que a preocupação da escola não deveria ser com “fazer poesia”, mas com ler poesia. Todos os poetas, pelo menos num bom tempo de sua vida, de sua formação, foram leitores assíduos da tradição poética de sua língua e até de outras línguas. Aprender a fazer poesia no sentido de aprender uma técnica nem é tão difícil assim. No entanto, fazer Poesia, digamos assim, com P maiúsculo é mais complexo. Por outro lado, acho que os professores devem estimular aqueles (as) jovens que revelam talento ou interesse em escrever. Expressar suas angústias, seus sentimentos, seus desejos ainda não é necessariamente poesia, mas é uma necessidade de todo ser humano e pode se constituir num bom exercício com as palavras. Essa pergunta demandaria muito mais reflexão – para a qual não acho que sou a pessoa mais qualificada. O que me parece é que não ajuda muito chamar alguém de poeta por um ou dois poemas criados. É preciso um certo domínio da língua que não nasce de uma vez, de uma mera inspiração.

JP: O senhor teria alguns conselhos ou sugestões para os professores que quiserem aproveitar melhor o uso da poesia na sala de aula?

Hélder: Talvez eu vá me repetir, mas insisto que se deve ler em voz alta. E o professor deve treinar antes a leitura oral. Ler várias vezes para ele próprio pode contribuir para ter mais confiança na hora de levar o poema para sala de aula. Se não tem esta experiência, há inúmeros CDs com bons atores lendo poemas _ Paulo Autran é um dos melhores. Lançar mão desse material ajudou-me bastante quando iniciei no magistério há cerca de 30 anos. Outra dica: ler cotidianamente, nem sempre dentro de um planejamento detalhado. Ler por ler, antes de uma aula, ou no final. E não só com crianças, com os jovens também. Fazer com que a poesia compareça em diferentes momentos da sala de aula. Estimular os alunos a trazerem poemas de que gostam, que viram ou ouviram nalgum lugar. E no nível pessoal, sempre estar lendo poesia: um livro novo, um livro antigo, uma antologia de novos poetas para descobrir novos talentos. Estar aberto ao novo – não propriamente achar bom ou ruim tudo que aparece. Estar aberto, deixar-se tocar pelo que atualmente se faz no âmbito da poesia. Sem esta disposição para apreender cada vez mais poesia fica difícil contribuir com a formação de leitores. E por último, não se prender apenas aos esquemas dos livros didáticos. Lá os poetas e poetisas ficam engessados às escolas literárias, aos movimentos. Uma obra literária quase sempre não cabe num esquema desses.