Os brasileiros e o papel da leitura

22/4/2012 – 20:20h

A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, em sua terceira versão, divulgada na semana passada pelo Instituto Pró-Livro, é o resultado de uma evolução desse tipo de trabalho em nosso país. Desde a primeira versão, no ano 2000, passando pela de 2007, os objetivos têm se mantido idênticos. Mas existem mudanças significativas entre cada uma delas, o que torna a comparação uma tarefa difícil e que deve ser empreendida com cuidados. Em primeiro lugar destaquemos as diferenças entre a pesquisa de 2007 e a atual. São duas diferenças importantes.
A primeira é a alteração da ordem das perguntas. Na Retratos da Leitura de 2007, depois das perguntas de qualificação de renda, classe, escolaridade etc, o questionário começava pela percepção que o entrevistado tinha sobre a importância da leitura, o “valor” da leitura, a posição da leitura em relação ao uso do tempo livre e coisas do estilo. Só mais adiante é que se faziam perguntas objetivas relacionadas aos hábitos de leitura e consumo de livros, como quantos e de que modo haviam sido lidos. Na versão de 2011 – com 5.012 entrevistas realizadas em 315 municípios brasileiros – se inverteu a ordem.
Isso certamente teve um impacto no resultado das pesquisas. Existe uma percepção social da importância da leitura que é muito forte. Quando o pesquisado já sabia sobre o que tratava a pesquisa, podia tender a aumentar o número de livros lidos, ou mesmo mentir sobre se leu ou não. A valorização da leitura pode ter pesado na pesquisa anterior, inflando o resultado. A inversão da ordem das perguntas certamente melhorou a qualidade das respostas.
Outra modificação significativa foi a da redução do período em que se exigia a lembrança do pesquisado sobre seus hábitos de leitura, de um ano para três meses. Desse modo não se exigia um “puxar da memória” que podia induzir a distorções. Isso certamente aperfeiçoou a pesquisa, mas trouxe um problema: dificultou as comparações. Em 2011 estamos tratando de dados mais precisos, enquanto em 2007 pode ter havido certo “ofuscamento” involuntário nas respostas. As comparações, portanto, devem ser feitas a partir do conjunto de dados, e não simplesmente tabela a tabela, ou gráfico a gráfico.
Acredito que a esses fatores se deve a aparente diminuição dos índices de leitura entre as duas pesquisas. Jamais poderemos ter certeza absoluta de que essa diferença se deve a isso, ou somente a isso, mas essa é uma boa pista.
Retratos da Leitura no Brasil é uma pesquisa de opinião. O que se quantifica são opiniões e essas podem se modificar por vários fatores. Mas o conjunto apresenta indicações preciosas para a formulação de políticas públicas que contribuam para que esse ideal de valorização da leitura se torne uma realidade. O importante é fazer perguntas à pesquisa, lê-la com atenção em função do que se deseja saber, procurando articular o conjunto das respostas. O que se apresenta aqui é um exercício de resposta a algumas questões apresentadas pelos dados da pesquisa. Cada leitor pode ter um conjunto de perguntas diferentes, e precisa se dedicar à busca de suas respostas.

Aumentou ou não o número de leitores no país?

Se considerarmos os dados brutos das duas pesquisas, o número de leitores e os índices de leitura diminuíram entre 2007 e 2011. Alguns outros indicadores permitem matizar essa observação: o número de compradores de livros aumentou e, principalmente, o número de leitores e compradores com idade de quem já saiu do sistema Escolar. As mudanças na aplicação do questionário, como já se disse, podem colocar em dúvida essa diminuição dos índices. No entanto, o conjunto dos dados, por sua vez, permite que se afirme que as políticas de promoção da leitura e de facilitação do acesso ao livro ainda não estão amadurecidas e produzindo efeitos.

Os autores preferidos: como vêm e vão

A lista dos autores mais admirados revela claramente três grupos de influência: escola, religião e imprensa (escrita e televisão). O autor mais citado, Monteiro Lobato, já aparecia em outras pesquisas quando os livros de sua autoria estavam praticamente fora do mercado. Evidentemente por causa da exibição de “O Sítio do Picapau Amarelo” na TV e de subprodutos com a marca Monteiro Lobato e seus personagens. Os best-sellers mais recentes, principalmente os com foco no público juvenil, constituem a categoria de autores com maior mobilidade, mudando de acordo com os modismos.
O bloco dos autores ligados à religião também tem mobilidade, com alguns entrando (“A cabana”, de William P. Young e “Ágape”, do padre Marcelo Rossi, estão entre os mais lidos), outros saindo e outros mais permanecendo. O bloco de autores “canônicos” revela a presença das exigências escolares. Mesmo depois de sair da escola, muitos vão se lembrar de Machado de Assis e José de Alencar porque “eram importantes”, mesmo que sua leitura não fosse encarada com prazer quando estudavam.
O mesmo vale para os poetas: os que aparecem (como Drummond) são basicamente os adotados, e apenas esses. O brasileiro “lê poesia” na Escola por obrigação ou pelo romantismo adolescente. As listas de best-sellers divulgadas pela imprensa são as mais voláteis, enquanto escola e influências religiosas têm uma “cauda longa” na memória dos leitores.

Como as pessoas têm acesso aos livros que leem?

Esse quadro apresenta vários elementos de reflexão. Em primeiro lugar, o fato de a maioria dos livros lidos ser comprada, o que significa um forte componente do fator “renda” no acesso ao livro. Mas é notável que o empréstimo entre as pessoas seja o segundo modo de acesso. Isso indica duas coisas:  a) um nível muito significativo de intercâmbios interpessoais entre os leitores – uma parte do “boca a boca” dos livros se resolve com empréstimos entre amigos; b) o empréstimo está suprindo parte das deficiências das bibliotecas, demonstrando iniciativa dos leitores e uma “demanda silenciosa” por melhores bibliotecas. Essas relações interpessoais se revelam também no fato de muitas pessoas ganharem livros de presente: 88% das pessoas afirmam que ganhar livros de presente foi importante. Em contraposição aos empréstimos, 5% dos livros lidos foram “xerocados”: é outro evidente sintoma das deficiências das bibliotecas. O componente “renda” deixa claro: os livros estão caros e se fossem mais baratos, haveria mais compradores. Campanhas para presentear também deveriam estar na pauta de editores e livreiros.

O livro no imaginário e a realidade da leitura

Quando se pergunta sobre a importância da leitura, há uma quase unanimidade acerca de sua importância. Em nossa sociedade, o valor da leitura é apreendido como fundamental, e 88% dos entrevistados dizem isso. Mas entre essa afirmação genérica e a prática há uma grande distância. Quando perguntados se conhecem alguém que “venceu na vida” por ler, 47% dos entrevistados dizem que não, e mais 8% não sabem. Há uma percepção social da importância da leitura e uma prática não leitora, que se deve a muitos fatores: escolaridade (tempo na escola e qualidade do ensino), renda, acesso, deficiências físicas (visuais) etc. A “ponte” entre formação profissional, sucesso, “vencer na vida” e leitura se perde na prática. Tudo indica que, neste caso, os entrevistados igualam leitura apenas com “leitura literária” e não consideram as leituras técnicas e científicas, por exemplo.

O papel da renda e da escolaridade nos índices de leitura

Renda e escolaridade são os dois fatores que têm maior influência nos índices de leitura. Essa tabela evidencia esse fenômeno de forma claríssima: quanto maior o nível de renda e de escolaridade, maior o índice de leitura. A escolaridade é o fator mais importante dos dois. A quantidade de pessoas com renda de mais de dez salários mínimos é menor que a quantidade de pessoas com educação superior. A chamada classe A corresponde a apenas 2% da população total do país, enquanto os de nível superior de educação correspondem a 11% da população (Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílios). Os leitores classe A são apenas 1% do total, e os com ensino superior são 16%. Entretanto, em números absolutos, são as classes B e C e os que completaram o Ensino Médio que constituem o segmento com mais leitores: 56% entre os que têm Ensino Médio e 81% nos que estão nas classes B e C.

Existem diferenças regionais significativas nos resultados?

Não se constatam diferenças nos índices de leitura e na compra de livros que possam ser atribuídas exclusivamente a fatores regionais. As diferenças que existem e aparecem entre as regiões se devem a fatores específicos de renda e escolaridade. Por exemplo, o aumento dos índices de escolaridade no Nordeste, nos últimos anos, reflete-se na pesquisa. Não por ser Nordeste, mas por conta do investimento mais intenso no sistema educacional da região, que recupera atrasos. O fato de as regiões Sudeste e Sul lerem e comprarem mais livros se deve a um fator de concentração de renda mais do que qualquer outro. Ou seja, a homogeneidade cultural do Brasil se revela também nesse aspecto, ao contrário de outros países onde fatores como línguas diferentes e tensões autonomistas eventualmente têm um papel relevante.

O número de compradores de livros cresceu?

Aumentou o número de compradores de livros. Eram 45% dos que liam em 2007 e passaram a ser 48% em 2011. O mais notável foi o aumento do número de compradores com idade acima dos 18 anos. Todas as faixas etárias aumentaram significativamente. O que isso quer dizer? As políticas de leitura nas escolas, vagarosamente, mas de forma consistente, aumentam o interesse (e a compra) de livros fora da idade escolar, apesar de o maior número de leitores ainda ser de estudantes. A renda, entretanto, ainda é um fator limitador para a compra de livros. Mas os números são impressionantes: são 1,978 milhões de compradores na classe A; 15,616 milhões na B; 20,79 milhões na C e 4,089 nas classes D e E. São 42,3 milhões de compradores no total, contra 36,35 milhões em 2007. Ou seja, a massa de leitores diminuiu, mas entre esses leitores o número de compradores de livros aumentou. De qualquer maneira, 85% dos entrevistados não compraram nenhum livro nos últimos três meses.

Por que as pessoas dizem que conhecem as bibliotecas e não as frequentam?

O Censo Nacional das Bibliotecas Públicas Municipais, de 2009, nos dá indicações. Apesar de existirem em 99% dos municípios, as bibliotecas são reconhecidamente mal equipadas. Apenas 25% delas têm mais de dez mil títulos no acervo; em 88% delas o acervo só aumenta por doações; apenas 12% abrem aos sábados, e só 1% abre aos domingos. As pessoas sabem que existe a biblioteca, mas não encontram nela o que buscam. O conjunto dos dados mostra que 70% dos que usam bibliotecas são estudantes. Resultado: 67% dos entrevistados sabem que existe biblioteca, mas apenas 7% as usam frequentemente, e 17%, ocasionalmente. Apenas 26% dos entrevistados têm acesso a livros por meio das bibliotecas. A faixa dos 5 aos 24 anos é a que mais usa as bibliotecas. O esforço para o equipamento das bibliotecas públicas e a instalação de bibliotecas escolares deve ser intensificado. A população não usa mais as bibliotecas porque essas estão muito abaixo do mínimo de qualidade e quantidade de acervo e serviços desejáveis, e isso se reflete nos índices de leitura.

Os livros digitais

As informações sobre leitura de livros em formato digital são importantes para futuras comparações. Os leitores de e-books não são mencionados, registrando-se apenas a leitura em computadores. Já há uma base de tablets e e-readers no Brasil, mas ainda é pequena. O Programa Nacional do Livro Didático 2014 incluirá materiais digitais, com possível distribuição de tablets pelo MEC. Isso e a redução do preço dos e-readers podem aumentar a presença do livro digital.

O papel da escola, imprensa e religião nas escolhas de leitura

Ao se falar de gêneros “lidos” é necessário tomar algumas precauções. A Bíblia não apenas é o livro mais vendido na maior parte do mundo (exceção do Oriente), mas também o mais citado como “leitura”. Sabemos, entretanto, que a leitura da Bíblia se reveste de circunstâncias e formalismos: são versículos lidos aleatoriamente ou em função de cerimônias religiosas, às vezes seguindo um calendário próprio. O mesmo acontece com os livros didáticos, lidos em função de uma situação particular da vida das pessoas.
A presença de livros religiosos em terceiro lugar, autoajuda em nono e esoterismo em 19º revela uma forte necessidade de buscas espirituais/filosóficas por parte dos leitores. A influência da escola se revela em vários gêneros: didáticos, literatura infantil, literatura juvenil, poesia e dicionários e enciclopédias, assim como livros técnicos, todos fortemente vinculados às atividades escolares e às leituras determinadas por professores. Culinária/artesanato/assuntos práticos e viagens revelam um interesse utilitário dos leitores. Finalmente, romances e as categorias restantes é que denotam o interesse pela leitura desvinculada de interesses extraliterários.
A julgar pelos gêneros, a leitura da maioria das pessoas está muito vinculada a aspectos práticos de variados tipos, apesar da declaração de que a leitura “por prazer” seja feita por 75% dos entrevistados, contra 25% dos que leem “por obrigação”. Mais uma incongruência entre o discurso e a prática.

(Fonte: O Globo – 9/4/2012)