Retratos da leitura no Brasil

15/4/2012 – 21:57h

O resultado da pesquisa “Retratos da leitura no Brasil” (3ª edição), divulgada em 28/3, ponta que a média de leitura do brasileiro é de quatro livros por ano, sendo apenas 2,1 livros até o fim. Triste notícia se não fosse uma pesquisa, pois, como toda pesquisa, é apontamento para análise e repercussão.

Certo é que o governo iniciou discussões e levantamentos de novos projetos para tentar sanar esse problema, porque, como afirmou a ministra da Cultura, Ana de Hollanda, presente na abertura do seminário com o mesmo título da pesquisa, “a leitura quando vai além do livro didático, vai permitir a formação do cidadão, vai dar ao cidadão as ferramentas do conhecimento, permitir a ele desenvolver a capacidade de reflexão e análise, de questionar e desenvolver seu pensamento e sua opinião. A literatura tem essa capacidade”.

A leitura é um hábito e como tal deve ser cultivado. O problema vem do berço, da formação do leitor, das ações e interferências para que ele leia e se habitue a ler. Para a educação infantil, neste sentido, percebe-se diversos esforços, programas com a utilização de livros em diversas atividades, a fomentação da curiosidade, relacionando-os às disciplinas escolares.

Mas, para mudar esse álbum de retratos opacos sobre a leitura, o desafio não está apenas na falta de hábito, na deficiência do acesso ao livro, que começa na infância e que se dá por uma série de motivos, atingindo outras questões como a escolaridade. Está na falta de empenho de toda a sociedade.

Questões que envolvem a educação são muitas, como a do controle do livro didático, a atual polêmica do consumo da merenda escolar pelos professores, enfim, são desafios que necessitam do envolvimento da sociedade nas políticas públicas voltadas para enfrentar esse quadro.

A exemplo do que sugeriu a deputada Fátima Bezerra (PT-RN), que iniciou o debate sobre o resultado da pesquisa no Parlamento, acredita-se que, para mudar a situação, a sociedade civil também precisa cobrar resultados dos ministérios da Cultura e da Educação, de seus dirigentes e de seus eleitos.

O que impede o brasileiro de ler mais é a falta de conhecimento do prazer da leitura. “Quando a pessoa diz que não tem tempo para ler, na verdade, ela tem tempo para outras coisas como ver televisão”, afirmou Karine Pansa, presidente do Instituto Pró-Livro, que encomendou a pesquisa.

A conclusão, citada por Amanda Cieglinski, é demonstrada no resultado de que o maior impedimento é a falta de tempo, citada por 53%, seguida pelo desinteresse, admitido por 30%. Apenas 4% dizem que não leem porque o livro é caro e 6% porque não há bibliotecas perto de casa.

O presidente da Fundação Biblioteca Nacional, Galeno Amorim, afirma que o Brasil está chegando perto da meta de ter pelo menos uma biblioteca por município, mas um dos problemas apontados pela pesquisa é que três em cada quatro brasileiros nunca foram a uma biblioteca. Se quase todos os 5,5mil municípios brasileiros já têm uma biblioteca, qual é o fator que impede as pessoas de frequentá-las? É o horário de funcionamento? É a sua atuação? Como são as atividades durante as férias?

Abril abriga duas datas pertinentes: o Dia Internacional do Livro Infantil (2), em homenagem a Andersen, e o Dia Nacional do Livro Infantil (18), em homenagem a Monteiro Lobato. Relembramos que precisa-se urgentemente conquistar o leitor, chama-lo a participar, encantá-lo. Precisa-se incentivar através da própria televisão, em suas novelas, desenhos animados e até reality shows, o hábito da leitura.

Precisa-se mobilizar a sociedade em prol dessa prática. Em Belo Horizonte, por meio da Agência de Sistemas de Informação (Agesin), com o projeto “Seu Livro”, pratica-se o BookCrossing, um movimento que, em alguns países, prega o ato de doar livros, deixa-los em um local público para que sejam encontrados e lidos por outros leitores.

São de práticas semelhantes a essas iniciativas, aquelas dos textos pendurados nos bancos de ônibus. E por que não termos livros nas cadeiras nos serviços de atendimento ao público (bancos, laboratórios e até nas barracas de praia)? Que se comece por textos, redes sociais, por autoajuda, pois o que importa é desenvolver o hábito da leitura e formar cidadãos críticos e participativos.

(Artigo de Ana Paula de Rezende, especialista em Gestão Estratégica da Informação e bibliotecária, publicado no Estado de Minas, Opinião, 9/4/2012)