“Hábito de ler está além dos livros”

29/6/2012 – 20:10h

Entrevista

Roger Chartier

Historiador francês

Chartier: "Pesquisas que peguntam às pessoas se elas leem livros ignoram que leitura é muito mais do que ler livros" - Foto: Internet

Agência Brasil: Uma pesquisa divulgada recentemente indicou que o brasileiro lê em média quatro livros por ano (a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, divulgada pelo Instituto Pró-Livro em abril). Podemos considerar essa quantidade grande ou pequena em relação a outros países?

Roger Chartier: Em primeiro lugar, me parece que o ato de ler não se trata necessariamente de ler livros. Essas pesquisas que peguntam às pessoas se elas leem livros estão sempre ignorando que a leitura é muito mais do que ler livros. Basta ver em todos os comportamentos da sociedade que a leitura é uma prática fundamental e disseminada. Isso inclui a leitura dos livros, mas muita gente diz que não lê livros e de fato está lendo objetos impressos que poderiam ser considerados (jornais, revistas, revistas em quadrinhos, entre outras publicações). Não devemos ser pessimistas, o que se deve pensar é que a prática da leitura é mais frequente, importante e necessária do que poderia indicar uma pesquisa sobre o número de livros lidos.

AB: Hoje, a leitura está em diferentes plataformas?

RC: Absolutamente, quando há a entrada no mundo digital abre-se uma possibilidade de leitura mais importante que antes. Não posso comparar imediatamente, mas nos últimos anos houve um recuo do número de livros lidos, mas não necessariamente porque as pessoas estão lendo pouco. É mais uma transformação das práticas culturais. É gente que tinha o costume de comprar e ler muitos livros e agora talvez gaste o mesmo dinheiro com outras formas de diversão.

AB: A mesma pesquisa que trouxe a média de livros lidos pelos brasileiros aponta que a população prefere outras atividades à leitura, como ver televisão ou acessar a internet.

RC: Isso não seria próprio do brasileiro. Penso que em qualquer sociedade do mundo (a pesquisa) teria o mesmo resultado. Talvez com porcentagens diferentes. Uma pesquisa francesa do Ministério da Cultura mostrou que houve uma redistribuição dos gastos culturais para o teatro, o turismo, a viagem e o próprio meio digital.

AB: Na sua avaliação, essa evolução tecnológica da leitura do impresso para os meios digitais tem o papel de ampliar ou reduzir o número de leitores?

RC: Representa uma possibilidade de leitura mais forte do que antes. Quantas vezes nós somos obrigados a preencher formulários para comprar algo, ler e-mails. Tudo isso está num mundo digital que é construído pela leitura e a escrita. Mas também há fronteiras, não se pode pensar que cada um tem um acesso imediato (ao meio digital). É totalmente um mundo que impõe mais leitura e escrita. Por outro lado, é um mundo onde a leitura tradicional dos textos que são considerados livros, de ver uma obra que tem uma coerência, uma singularidade, aqui (nos meios digitais) se confronta com uma prática de leitura que é mais descontínua. A percepção da obra intelectual ou estética no mundo digital é um processo muito mais complicado, porque há fragmentos e trechos de textos aparecendo na tela.

AB: Na sua opinião, a responsabilidade de promover o hábito da leitura em uma sociedade é da escola?

RC: Os sociólogos mostram que, evidentemente, a escola pode corrigir desigualdades que nascem na sociedade mesmo (para o acesso à leitura). Mas ao mesmo tempo a escola reflete as desigualdades de uma sociedade. Então, me parece que, também, é um desafio fundamental que as crianças possam ter incorporados instrumentos de relação com a cultura escrita e que essa desigualdade social deveria ser considerada e corrigida pela escola que normalmente pode dar aos que estão desprovidos os instrumento de conhecimento ou de compreensão da cultura escrita. É uma relação complexa entre a escola e o mundo social. E é claro que a escola não pode fazer tudo.

AB: Esse é um papel também dos governos?

RC: Os governos têm um papel múltiplo. Ele pode ajudar por meio de campanhas de incentivo à leitura, de recursos às famílias mais desprovidas de capital cultural e pode ajudar pela atenção ao sistema escolar. São três maneiras de interação que me parecem fundamentais.

AB: No Brasil ainda temos quase 14 milhões de analfabetos e boa parte da população tem pouco domínio da leitura e escrita – são as pessoas consideradas analfabetas funcionais. Isso não é um entrave ao estímulo da leitura?

RC: É preciso diferenciar o analfabetismo radical, que é quando a pessoa está realmente fora da possibilidade de ler e escrever da outra forma que seria uma dificuldade para uma leitura. Há ainda outra forma de analfabetismo que seria a do mundo digital, uma nova fronteira entre os que estão dentro desse mundo e outros que, por razões econômicas e culturais ficam de fora. O conceito de analfabetismo pode ser o radical, o funcional ou o digital. Cada um precisa de uma forma de aculturação, de pedagogia e didática diferente, mas os três também são tarefas importantes não só para os governos, mas para a sociedade inteira.

AB: Na sua avaliação, a exclusão dos meios digitais poderia ser considerada uma nova forma de analfabetismo?

RC: Isso é importante e há uma ilusão que vem de quem escreve sobre o mundo digital, porque já está nele e pensa que a sociedade inteira está digitalizada, mas não é o caso. Evidente há muitos obstáculos e fronteiras para entrar nesse mundo. Começando pela própria compra dos instrumentos e terminando com a capacidade de fazer um bom uso dessas novas técnicas. Essa é outra tarefa dada à escola de permitir a aprendizagem dessa nova técnica, mas não somente de aprender a ler e escrever, mas como fazer isso na tela do computador.

(Fonte: Amanda Cieglinski – Agência Brasil / Blog do Galeno)

Dois livros de Jorge Fernando

22/6/2012 – 18:46h

Jorge Fernando dos Santos começou a escrever cedo ainda no tempo que estudava no colégio - Foto: Divulgação

Duas obras com temas aparentemente diferentes, mas que em comum têm o foco na infância e suas descobertas são as novidades de Jorge Fernando dos Santos pela Editora Positivo: “O menino e a rolinha” e “O menino que perdeu a sombra”.

“O menino e a rolinha”, já em sua 4ª edição, marcou a estreia de Jorge Fernando como autor para crianças e jovens. A obra foi bastante aclamada por importantes nomes da literatura e conquistou elogios, em edições anteriores, do falecido escritor Jorge Amado, que a descreveu como “um doce conto de liberdade”.

O enredo começa mostrando um menino que prende a rolinha no viveiro, onde estão outros pássaros. Ele a alimenta com ração e algumas folhas verdes, mas a rolinha sente falta de voar. Um dia, no entanto, algo inesperado acontece…

Com a história, Jorge Fernando propõe às crianças um mergulho na boa literatura, e, dentre outras questões, aborda como lidar com a natureza. “Escrevi este livro pensando em coisas que sempre prezei e que para mim andam sempre juntas: liberdade e pássaros”, ressalta o autor. “Afinal, quem tem asas quer voar, não é mesmo?”, completa. A ilustradora, Elma, também conta que foi um grande prazer trabalhar com o tema. “Gosto, quando o texto fala de sentimentos, emoções, conquistas… Tentar colocar tudo isso em traços e cores muitas vezes é um grande desafio”.

Em “O menino que perdeu a sombra”, livro ilustrado por Alê Abreu, o escritor Jorge Fernando exibe seu potencial criativo. Ele explica que a história nasceu “de uma ideia maluca, que seria justamente alguém se dar conta de que a própria sombra desapareceu sem nenhum motivo aparente”.

Samuel leva um grande susto quando percebe o que se passa. O que deve fazer? Contar para a mãe? Ligar para o pai e pedir ajuda? Procurar, quem sabe, um sombrologista? Como enfrentar os colegas da escola? O certo é que está em apuros e precisa encontrar uma solução.

“Isso certamente seria um transtorno na vida de qualquer pessoa, que teria de buscar uma saída para o problema sem saber direito a quem recorrer. Afinal, a sombra faz parte da nossa identidade e sem ela seria impossível viver”, ressalta o autor.

Enquanto busca superar seu inusitado problema, Samuel preocupa-se com a opinião dos amigos, relembra de experiências marcantes da infância, encontra pessoas em situações semelhantes e, no fim das contas, descobre que a solução está em si mesmo.

Jorge Fernando dos Santos possui mais de 40 livros publicados em diversos gêneros, mas assumiu um gosto especial pela literatura infantojuvenil.

Amiga de Drummond

12/6/2012 – 22:19h

Desta vez, o blog vai destacar a escritora das Minas Gerais Joana d’Arc Torres de Assis. Provavelmente, depois de conhecê-la, você vai sentir vontade de conhecer também suas obras e, então, se sentir inspirado para contar belas histórias ou simplesmente declamar versos.

Joana d´Arc é poetisa e autora de livros infantojuvenis. Seu trabalho, portanto, corre entre a poesia e a prosa (novela, conto, crônica). Suas obras infanto-juvenis publicadas são: “Guerras Malvindas”, novela, Ed. Miguilim, depois reeditada pela Dimensão com novo título “Com quantos trouxas se faz uma guerra”; “Namorico(poemas) eConto de um Natal”, pela Miguilim; “Nó Cego”, reconto do folclore, pela Antares, esgotado; “O Muito e o Pouco”, Ed. Mazza; “De Presente”, Ed Dimensão, além de dezenas de poemas sob encomenda dessa mesma editora para abrir capítulos de livros didáticos.

“O Muito e o Pouco”, vale lembrar,  recebeu o Prêmio Nacional 30 Anos da Câmara Mineira do Livro e o selo Altamente Recomendável da FNLIJ. “De Presente” tem o Prêmio “Adolfo Aizen”, da União Brasileira de Escritores, e alguns contos e poemas de Joana d´Arc, dirigidos aos adultos, foram agraciados com a láurea “Guimarães Rosa”.

Na área juvenil, tem “Belas Macieiras e um Paraíso”, poemas, Editora Alis, e na infantil três contos: “Juca Dodode”, “Sapo Popote” e “Girafita tira foto”, pela Cedic do Brasil.

O trabalho de Joana d´Arc, muitas vezes, extrapola a literatura, porém, quando isto acontece, torna-se uma experiência que lhe ajuda a escrever e a inspira, tornando-a mais criativa. Por exemplo: no ano do centenário de Carlos Drummond, pela Secretaria de Estado da Cultura MG e Biblioteca Central do Sesc-MG, Joana ministrou a conferência “O informal: a outra face de Drummond”, a partir de pesquisa da história de Itabira e de sua correspondência pessoal com o poeta durante dez anos. No Festival de Inverno de Itabira daquele ano, deu a oficina “Drummond: a oficina do sensível”, que buscava na poética “drummondiana” uma matriz para o cotidiano prático.

Como educadora, desde 1984, ela trabalha a reorientação da mente e da imaginação com ênfase para a expansão da criatividade. Integrou a Equipe Multidisciplinar do Dr. Eduardo Aquino, neurocientista/educador, com oficinas de “Criatividade, Emoção e Relaxamento”. Coordenou três edições do “Seminário do Brincar”, do Laces/ Biblioteca Central do Sesc-MG e participou de sua montagem.

Ainda diplomou-se em cursos e seminários como: Cibernética Social, Expansão do Potencial Pessoal, Liderança e Estratégia Motivacional, Contação de histórias, Criatividade, Qualidade Total, Bio-Dança, Introdução à Hipnose Ericssoniana, à Programação Neurolinguística e outros _ diversidade que permite à autora uma abordagem holística, um diferencial do seu trabalho.

O papel da Bienal e do Salão do Livro

4/6/2012 – 19:10h

Leo Cunha *

O final desastroso e melancólico da 3ª Bienal do Livro de Minas Gerais, na semana passada, não deve esconder os pontos positivos do evento e os avanços alcançados por essa edição.

Acompanho feiras do livro em Belo Horizonte desde os anos 1980. Nesse período tivemos eventos de porte pequeno e médio, realizadas em lugares como a Biblioteca Pública, o Palácio das Artes, os estacionamentos de dois shopping-centers da cidade, a Serraria Souza Pinto. Algumas tiveram um bom público, outras ficaram mais vazias. Algumas foram bem divulgadas, outras nem tanto. Algumas trouxeram grandes nomes da literatura brasileira e internacional, outras ficaram mais focadas nos autores mineiros.

Num balanço, podemos dizer que as feiras realizadas ao longo da década de 2000, na Serraria Souza Pinto – com o nome de “Salão do Livro de Belo Horizonte” – tinham conseguido um bom equilíbrio entre o aspecto mercadológico (a venda de livros, os lançamentos, as tardes de autógrafo, os shows que atraíam público) e o aspecto formador (os cursos, oficinas, mesas-redondas e outros eventos de reflexão e debate). Porém, as queixas eram frequentes principalmente em dois aspectos:

– embora belíssima, a Serraria tem um tamanho limitado que, num certo momento, começava a “engessar” o evento e dificultar sua ampliação;

– embora central, a Serraria está situada num local de estacionamento quase impossível e com problemas de segurança, sobretudo nos fins de semana e à noite, e ainda dificultando o acesso aos ônibus escolares.

Assim, quando a Bienal entrou no jogo, com o peso e a experiência da Fagga e o deslocamento para o Expominas, as perspectivas eram boas, particularmente no que se refere aos problemas citados acima (tamanho do evento, segurança, estacionamento, acesso dos ônibus).

No entanto, outros problemas se evidenciaram. Não me refiro ao preço do ingresso e do estacionamento. Estou falando do afastamento do caráter formador que a cidade tinha conseguido consolidar nos Salões do Livro da década passada.

A cada edição, é visível, a Bienal parece estar recuperando um pouco desse espaço (reflexivo) perdido, ao abrigar debates, seminários, bate-papos variados, além das apresentações de contadores de história, músicos e atores. Esse ano, um dos pontos altos, em minha opinião, foi a série “Livro Encenado”, que trouxe atores do porte de Milton Gonçalves e Arlete Salles para leituras dramatizadas de textos literários.  Outro ponto alto, já existente também nas versões anteriores e na Bienal do Rio, também organizada pela Fagga, foi o Café Literário, com temas instigantes e acessíveis ao público leitor em geral.

Continuo sentindo falta, porém, daquela oportunidade  tão íntima e tão importante que o Salão do Livro propiciava para qualquer um – adolescente, adulto, professor, bibliotecário, leitor, escritor, ilustrador – participar, ao longo de dois ou três dias, de um curso ou oficina com um profissional gabaritado. Torço para a Prefeitura, por meio da Fundação Municipal de Cultura, manter em pleno vapor, nos anos ímpares, o Salão do Livro Infantil, na Serraria Souza Pinto. De certa forma, os dois eventos, de naturezas tão opostas, são também complementares.

* Escritor mineiro com mais de 40 livros infanto-juvenis publicados, tradutor, jornalista e professor. Foi mediador de debates da Bienal do Livro de Minas 2012.


O novo formador de leitores

3/6/2012 – 20:40h

O portal “Todos pela educação” publicou matéria reveladora, assinada por Carmen Guerreiro, mês passado, sobre a influência dos professores na formação das crianças-leitoras. Editamos esta matéria e publicamos logo abaixo: 

Foto: Acervo Trupe Maria Farinha

…Uma das conclusões da pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, recém-divulgada pelo Instituto Pró-Livro e pelo Ibope Inteligência, é que, pela primeira vez, a figura que mais influencia os leitores (considerados pessoas que leram ao menos um livro nos três meses precedentes ao questionário da pesquisa) são os professores, logo acima das mães, que sempre lideraram a função.

A investigação dos motivos pelos quais essa mudança aconteceu será tema de um próximo estudo do Instituto Pró-Livro, mas a gerente de projetos da instituição, Zoara Failla, já faz suposições. Para ela, uma das coordenadoras da pesquisa, o resultado se explica pelo investimento dos governos na melhoria das bibliotecas escolares e em formação de professores como mediadores de leitura. “Espero que estejamos conseguindo resultados nesse sentido”, diz.

Já Ezequiel Theodoro da Silva, da Faculdade de Educação da Universidade Estadual da Campinhas (Unicamp), e autor do site Leituracritica.com.br, faz uma análise menos otimista. “Há um movimento de conscientização maior dentro da classe do magistério e uma sensibilidade melhor dos governos para a importância de ler, mas nada disso melhorou o desempenho em leitura até agora. Todas as pesquisas mostram que os avanços em leitura são diminutos”, observa.

Para o pesquisador, se o suposto investimento fosse o motivo dessa mudança na função do professor como incentivador, o retrato da leitura no Brasil hoje seria completamente diferente. A própria pesquisa da Pró-livro mostra que os brasileiros leem cada vez menos – a amostra de leitores caiu de 55% em 2007 para 50% em 2011. O dado, somado aos resultados catastróficos do Brasil no Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa) em relação à leitura, já revela um cenário negativo. Silva responsabiliza parte desse panorama justamente à má formação de professores. “Um fenômeno terrível no Brasil é o enfraquecimento da formação de professores em função da privatização das faculdades. Ainda mais na questão da leitura, que fica debilitada porque é tratada nessas escolas em termos de didática em geral”, critica.

Transposição de responsabilidade

O real motivo para o professor ter assumido a função de fazer os jovens pegarem gosto por livros, ainda de acordo com o pesquisador, é decorrente de um fenômeno preocupante. Essa transferência de papéis viria junto com o movimento dos pais, especialmente das mães, de trabalhar fora de casa e não ter tempo de acompanhar os estudos e incentivar a leitura com os filhos. Com isso, a responsabilidade é repassada para a escola.

“Muitas coisas que eu aprendi com os meus pais, como escovar os dentes e me alimentar corretamente são hoje esperadas da escola. A descoberta da pesquisa remete a esse enfraquecimento de responsabilidades familiares e o fortalecimento das responsabilidades da escola”, afirma Silva. Ele enxerga os professores como “super-homens” e “mulheres-maravilha”, no sentido que é esperado que eles assumam a responsabilidade da família, ao mesmo tempo que não são dadas as condições ideais de trabalho para que eles façam isso, logo, a expectativa é sobre-humana.

Além da questão do trabalho e da falta de tempo dos pais, Zoara, do Pró-Livro, explica que a melhora da condição econômica média do brasileiro só se refletiu na questão de bens materiais e não culturais. Isso quer dizer que mesmo quem hoje faz parte da classe média não se identifica com a leitura. “Só ganharam poder aquisitivo, mas não podemos dizer que deram um salto na questão da leitura. E se esse é o perfil da mãe, a escola precisa suprir essa lacuna”, explica. Segundo ela, a maior parte das famílias não tem livros em casa e um percentual grande de chefes de família só possui o ensino fundamental e/ou são analfabetos, o que se reflete em como a criança cria seu conceito sobre o livro. “É mais fácil a família criar esse gosto pela leitura a partir do exemplo, lendo em casa ou presenteando com livros.”

A afirmação de Zoara se baseia na conclusão da pesquisa de que 49% dos leitores veem ou viam suas mães lendo sempre ou de vez em quando, enquanto 63% de quem não lê relatou que nunca viram a mãe ler. Quando a mesma pergunta é feita em relação ao pai, então, os resultados são bem piores: apenas 32% viram seus pais lendo sempre ou eventualmente, enquanto 68% dos não leitores nunca tiveram essa experiência. Além disso, o estudo mostra que quem ganhou livros ao longo da vida com mais frequência tende a ser leitor. Entre os que não leem, 87% nunca foram presenteados com um livro.

Apoio ao professor leitor

Apesar de a família não cumprir seu papel na maioria das vezes, a responsabilidade pelo crescimento do papel do professor como influenciador não pode ser totalmente desvinculada da figura docente. Aos poucos, o professor tem assumido a função de estimular a leitura conforme ele próprio toma gosto pelos livros. “Ele não mudou seu papel, só  está assumindo mais plenamente e eficientemente sua função de mediação de leitura”, aponta Zoara.

E que tipo de apoio os professores precisam na hora de assumir a responsabilidade de incentivadores da leitura? O primeiro suporte, defende Zoara, do Pró-Livro, é a formação inicial e continuada. Segundo ela, não só os professores de português, mas de todas as disciplinas, precisam envolver os livros em suas aulas, pois a leitura é fundamental na absorção do conhecimento e hoje está desvalorizada na universidade. “É fundamental que se perceba a leitura como uma das principais ferramentas para a aprendizagem, o que não acontece nos cursos de formação”, alerta.

Um segundo aspecto de apoio ao educador seria, dentro das escolas, melhorar o atendimento e infraestrutura das bibliotecas. A pesquisa do Pró-Livro revela que esse espaço só é utilizado pelos estudantes, e isso não apenas nas escolas, mas também nas bibliotecas públicas. “A população em geral diz que esse é um lugar para desenvolver tarefas escolares, que não é visto como instrumento de cultura”, afirma Zoara.

Ela comenta que o modelo de biblioteca pública brasileiro contribui para essa visão, porque os horários não são propícios para quem trabalha longas horas – como muitos pais e a maioria dos professores – e que não há bibliotecários que cativem ou que sejam mediadores de leitura, ou seja, não interagem com quem vai ao espaço nem tentam estimular o interesse pela leitura. No caso das bibliotecas escolares, o cenário é pior, de acordo com Ezequiel Teodoro da Silva, da Unicamp. “São raras as que têm um bibliotecário. Mesmo assim, há uma série de outras carências como o espaço da biblioteca e o abastecimento pobre de livros”, diz. Com esses problemas, é difícil para o professor encontrar o suporte  de que precisa para o seu trabalho.

Soluções para aproximar o jovem do livro

Mesmo com as falhas na sua formação e a deficiência das bibliotecas, a responsabilidade pela leitura passou às mãos do educador. É possível encontrar soluções criativas para aproximar os jovens do mundo dos livros, de forma a fazer com que eles se identifiquem e estabeleçam um paralelo entre sua realidade e o conteúdo lido. Isso ainda não ocorre com frequência, segundo Zoara, da Pró-Livro. “O professor ainda não é um mediador de leitura. Ela continua sendo desenvolvida como uma tarefa, uma obrigação”, observa.

A pesquisa mostra que a maior parte dos leitores brasileiros é formada por estudantes. Ou seja: uma vez que concluem seus estudos e, por isso, não têm leituras obrigatórias, param de ler. Segundo Zoara, repetir por todo o país a mesma lista de “clássicos da literatura” é um “massacre, não um despertar”. “O professor, além de não ter essa competência como mediador, também não é um leitor. Como ele não tem esse hábito, é difícil ter um grande repertório e conhecer o que está na prateleira para poder indicar um livro adequado à realidade dos alunos.”


A respeito do espírito da palavra

1/6/2012 – 22:49h

Meishu-Sama *

Na Bíblia está escrito: “No princípio era o Verbo. Todas as coisas foram feitas por ele”.

Isso se refere à ação do espírito da palavra. Começarei explicando o significado fundamental dessa expressão.

A palavra, naturalmente, é constituída e emitida pela ação da voz, da língua, dos lábios e do maxilar, mas a origem dessa emissão, não resta dúvida, é o pensamento que se manifesta em forma de palavras. O pensamento é a manifestação da vontade.

Suponhamos que surja no homem alguma vontade. Para manifestá-la através de palavras, o pensamento entra em ação. Naturalmente, na ação do pensamento ocorre o discernimento do correto e do incorreto, do bem e do mal, do sucesso e do insucesso etc. O conjunto disso é a inteligência e sua manifestação é o espírito da palavra. A manifestação do espírito da palavra é a ação.

Baseados nesse princípio, não estaremos equivocados se dissermos que existem três níveis: pensamento, espírito da palavra e ação. Assim, o pensamento está ligado ao mundo espiritual; o espírito da palavra, ao mundo do espírito da palavra; a ação, ao mundo material. Isto é, o espírito da palavra fica entre o oculto e o manifesto. Pode-se dizer que ele é mediador entre o pensamento e a ação. Através disso, poderão compreender quão importante é o seu papel.

O espírito da palavra é semelhante a uma marionete: a manifestação da alma ou do espírito fica à sua mercê. Irritar as pessoas ou fazê-las rir, preocupá-las ou tranquilizá-las, entristecê-las ou alegrá-las, provocar conflitos ou paz, obter sucesso ou insucesso, tudo depende do espírito da palavra. Usá-lo de forma leviana é muito perigoso.

Por outro lado, apenas manejar habilmente o espírito da palavra, não passaria de uma simples técnica. A pessoa se assemelharia a um humorista, comediante ou comentarista. Se na base do espírito da palavra não houver força para a manifestação de um grande poder, não há qualquer sentido.

Mas, tratando-se de força, existe a benigna e a maligna. Ou seja. O espírito das palavras malignas constitui pecado e o espírito das palavras benignas constitui virtude. Assim, o homem deve se esforçar para usar o espírito das palavras benignas. Nestas, evidentemente, o fundamental é o “makoto”, que se origina de Deus.

Portanto, não há outro recurso senão reconhecer a existência de Deus. Se a pessoa não for religiosa, não conseguirá manifestar o verdadeiro “makoto” e, por isso, não se manifestará a força benigna do espírito da palavra.

* Meishu-Sama é fundador da Igreja Messiânica