O papel da Bienal e do Salão do Livro

4/6/2012 – 19:10h

Leo Cunha *

O final desastroso e melancólico da 3ª Bienal do Livro de Minas Gerais, na semana passada, não deve esconder os pontos positivos do evento e os avanços alcançados por essa edição.

Acompanho feiras do livro em Belo Horizonte desde os anos 1980. Nesse período tivemos eventos de porte pequeno e médio, realizadas em lugares como a Biblioteca Pública, o Palácio das Artes, os estacionamentos de dois shopping-centers da cidade, a Serraria Souza Pinto. Algumas tiveram um bom público, outras ficaram mais vazias. Algumas foram bem divulgadas, outras nem tanto. Algumas trouxeram grandes nomes da literatura brasileira e internacional, outras ficaram mais focadas nos autores mineiros.

Num balanço, podemos dizer que as feiras realizadas ao longo da década de 2000, na Serraria Souza Pinto – com o nome de “Salão do Livro de Belo Horizonte” – tinham conseguido um bom equilíbrio entre o aspecto mercadológico (a venda de livros, os lançamentos, as tardes de autógrafo, os shows que atraíam público) e o aspecto formador (os cursos, oficinas, mesas-redondas e outros eventos de reflexão e debate). Porém, as queixas eram frequentes principalmente em dois aspectos:

– embora belíssima, a Serraria tem um tamanho limitado que, num certo momento, começava a “engessar” o evento e dificultar sua ampliação;

– embora central, a Serraria está situada num local de estacionamento quase impossível e com problemas de segurança, sobretudo nos fins de semana e à noite, e ainda dificultando o acesso aos ônibus escolares.

Assim, quando a Bienal entrou no jogo, com o peso e a experiência da Fagga e o deslocamento para o Expominas, as perspectivas eram boas, particularmente no que se refere aos problemas citados acima (tamanho do evento, segurança, estacionamento, acesso dos ônibus).

No entanto, outros problemas se evidenciaram. Não me refiro ao preço do ingresso e do estacionamento. Estou falando do afastamento do caráter formador que a cidade tinha conseguido consolidar nos Salões do Livro da década passada.

A cada edição, é visível, a Bienal parece estar recuperando um pouco desse espaço (reflexivo) perdido, ao abrigar debates, seminários, bate-papos variados, além das apresentações de contadores de história, músicos e atores. Esse ano, um dos pontos altos, em minha opinião, foi a série “Livro Encenado”, que trouxe atores do porte de Milton Gonçalves e Arlete Salles para leituras dramatizadas de textos literários.  Outro ponto alto, já existente também nas versões anteriores e na Bienal do Rio, também organizada pela Fagga, foi o Café Literário, com temas instigantes e acessíveis ao público leitor em geral.

Continuo sentindo falta, porém, daquela oportunidade  tão íntima e tão importante que o Salão do Livro propiciava para qualquer um – adolescente, adulto, professor, bibliotecário, leitor, escritor, ilustrador – participar, ao longo de dois ou três dias, de um curso ou oficina com um profissional gabaritado. Torço para a Prefeitura, por meio da Fundação Municipal de Cultura, manter em pleno vapor, nos anos ímpares, o Salão do Livro Infantil, na Serraria Souza Pinto. De certa forma, os dois eventos, de naturezas tão opostas, são também complementares.

* Escritor mineiro com mais de 40 livros infanto-juvenis publicados, tradutor, jornalista e professor. Foi mediador de debates da Bienal do Livro de Minas 2012.