Pedido de mestre

16/9/2012 – 23:39h

Entrevista

Anna Ly

Escritora, compositora, cantora e instrumentista – Autora de “Desenrolando a língua – Orgens e histórias da língua portuguesa falada no Brasil”, ilustrações de Diogo Droschi, Editora Autêntica

Rosa Maria: Como surgiu a ideia para a produção do livro “Desenrolando a língua”?

Anna Ly: Meu mestre espiritual me disse, há muitos anos atrás, para cantar em latim. Peguei umas partituras de coral em latim, cantei uns dois ou três dias e larguei pra lá. Um belo dia, eu estava dando aulas de teclado ao professor Manoel Alves de Mello, que me ofereceu seu curso gratuito de latim. Eu logo aceitei, me lembrando do mestre, mas o professor se assustou, porque, mesmo de graça, ninguém queria.

Começamos. Ele era um entusiasta e me contou a história da família latina e etc e tal. Eu, pra falar a verdade, não tinha ideia do que era o latim e muito menos da história da sua família, mas me entusiasmei, de tal forma, que nós dois fizemos juntos alguns projetos dentro da lei de incentivo à cultura para propor cursos de latim nas escolas entre outras coisas. Enfim, não conseguimos aprovar nenhum e eu parei de fazer as aulas, mas fiquei com aquilo na cabeça. Fiz um show “Explicatrix” no 6º Encontro da Canção Infantil Latino-Americana e Caribenha já cantando versões de músicas infantis em latim feitas pelo professor, que foi o embrião do projeto.

Tempos depois, fui passar as férias na casa dos meus pais e me deparei com um livro incrível sobre o tupi-guarani “Contribuição Indígena ao Brasil”, Irmão José Gregório. Minha mãe sempre gostou de estudar o tupi. Ao mesmo tempo, na biblioteca do meu pai, encontrei o livro “História da Vida Privada no Brasil”, uma coletânea de diversos autores e, no caso, o que me chamou atenção foi o tema: “O que se fala e o que se lê: língua, instrução e leitura”, de Luiz Carlos Villalta.

Daí a ideia já foi tomando um corpo mais brasileiro até chegar com muito custo nas línguas africanas. O Sérgio Pererê me disse que tinha muita influência africana na língua “brasileira”, mas tive a maior dificuldade em encontrar material. Finalmente consegui no “Novo Dicionário Banto do Brasil” do Nei Lopes. Depois arruma daqui, põe acolá, tira lá, prova isto ou aquilo, o projeto foi sendo finalizado.

RM: O livro foi uma motivação para novas composições?

AL: Sim, para a “Língua de Índio”, “Fuzuê”, “Você está falando Grego” e “Lamento dos Animais”. As outras: “Conversa pra Boi Dormir”, “Carango” e “Gato de Botas” faziam sucesso sempre que eu cantava, aí dei um jeitinho para encaixá-las.

RM: É a sua primeira experiência em escrever e, em seguida, compor?

AL: É a primeira experiência em escrever narrativa. Nos poemas e letras de música, eu sempre me aventurei.

RM: Como tem sido a repercussão deste trabalho?

AL: Tem sido muito boa, mas é um processo lento. Assim como a elaboração, que foi um trabalho de cinco anos. Por exemplo: a primeira edição saiu em 2007, através de patrocínio, e, em 2011, a segunda, pela Autêntica. Moro na Espanha há cinco anos e não posso me empenhar na promoção como gostaria. Agora, eu e a Andreia Moroni criamos uma contação de história que gostaria de apresentar mais vezes no Brasil. Veja em http://desenrolandoemcena.blogspot.com.es/

Há também um blog com sugestões de atividades para o livro. Conheça em http://vamosdesenrolar.wordpress.com/

RM: Você tem outros livros publicados? Não, no momento só este.

AL: Escrevi uma espécie de adaptação que vai sair este ano aqui na Espanha: “Desarrollando la lengua, una niña brasileña en España”. Fiz uma canção em espanhol que, além das outras do “Desenrolando…”, em português, sairá neste livro: “Animales Migratorios”, que pode ser assistido no site do Youtube em http://www.youtube.com/watch?v=cwsOE83Tysg .

Há outra versão, em catalão, mas sem previsão de lançamento.

RM: Já pensou em escrever a história ou evolução da música?

AL: Esta ideia é ótima, hein??!!

Eu adoro trabalhar com crianças, mas atuo também como cantora e multi-instrumentista de bossa-nova, jazz e outros estilos, além de trabalhar com educação para todas as idades.