“Vivemos num país que produz e valoriza as imagens”

26/9/2012 – 19:35h

Entrevista

Maurízio Manzo

Ilustrador e designer

Maurízio Manzo fala de sua trajetória profissional - Foto: Divulgação

Rosa Maria: Comente sobre sua trajetória até se tornar um ilustrador de livros infantis.

Maurízio Manzo: Falar sobre trajetória profissional pode ser algo muito arriscado… Vou tentar não me estender. Desde pequeno, sempre gostei mais do que simplesmente desenhar. Interessavam-me as possibilidades de aplicação desses desenhos além do papel. De certa forma, gostava de ver as possibilidades de abrangência das coisas com que eu brincava, por exemplo, fazer desenhos em acetato e depois improvisar uma caixa de sapatos com um monóculo (um furo na frente) e uma lâmpada… Assim, tinha como projetar os desenhos na parede. Acho que foi isso que me fascinou quando optei pelo curso de nível superior em design gráfico, na cidade de Belo Horizonte. Mas obviamente meu envolvimento próximo ao desenho e pintura me ajudou muito na escolha do curso.

RM: Antes da universidade, você já atuava como desenhista?

MM: Aos dezesseis anos, participei pela primeira vez do Salão de Arte Contemporânea de Presidente Prudente, SP, e recebi o prêmio de Menção Honrosa. Logo em seguida, fiz parte de um grupo de artistas da cidade de Franca, SP, onde eu morava, na época. A partir daí, participei de várias exposições coletivas e individuais. Mais tarde, antes de terminar o curso de design gráfico, já estava atuando profissionalmente. Com o passar do tempo, fui me envolvendo cada vez mais com o design editorial e livros ilustrados, o que me parece algo fascinante, uma forma de arte de fácil compreensão. Gosto dessa clareza, dessa objetividade.

RM: Como você está trabalhando atualmente?

MM: No meu caso, existem pelo menos dois possíveis segmentos: um vinculado às artes plásticas ou simplesmente artes visuais e outro ao design gráfico e ainda uma extensão deste para o mercado editorial, onde desenvolvo projetos gráficos de livros e ilustrações. No mercado de design gráfico, em 1986, estava desenvolvendo meus primeiros projetos junto a clientes; nas artes plásticas, nunca tive um mercado além das exposições, nunca quis estar com esses trabalhos em galerias de arte, talvez por medo de perder a liberdade necessária a esse segmento. Assim, prossigo desenvolvendo esse trabalho em silêncio, às vezes com uma exposição coletiva ou individual. Por fim, há o trabalho com a ilustração que, tempos atrás, por muitas vezes direcionei para projetos de design gráfico em que não era o livro o produto em questão, mas, sim, cartazes, embalagens, rótulos, enfim. Desde 2000, gradativamente, fui me envolvendo cada vez mais com o universo dos livros ilustrados. No segmento editorial, estou vinculado a editoras, principalmente de Belo Horizonte, mas também de São Paulo e Rio de Janeiro.

RM: Qual a importância da ilustração na narrativa? Como ela ajuda na formação da criança? Há casos em que a mesma sobrepõe o texto, não é?

MM: Talvez a ilustração possa ser lida como outra forma de mostrar a mesma história. Assim, temos a possibilidade de outro olhar para a mesma narrativa. Ou simplesmente a quebra da expectativa com a utilização de uma estética menos descritiva, o que, de certa maneira, é muito enriquecedor.

Na formação da criança, um dos aspectos seria despertar a atenção para o mundo das imagens, aguçando a percepção visual. Imagino uma situação muito parecida à de uma criança visitando um museu e descobrindo por meio das telas ou esculturas, imagens, cores e formas que comunicam e transmitem emoções e histórias novas.

Se a ilustração sobrepõe o texto? Posso tomar três itens importantes em um livro: o texto, que será diagramado conforme a definição do projeto gráfico; o projeto gráfico, que poderíamos dizer ser o ponto de recepção do texto e imagens, desenvolvido para determinada faixa etária, e que vai definir o formato e o manuseio do livro, os limites da malha e os espaços brancos, a tipografia e sua legibilidade, o papel da capa e miolo, o acabamento, entre tantos outros itens relacionados; por último, as imagens que foram feitas depois do texto e do projeto gráfico definidos, pensadas exclusivamente para aquele livro.

Há vários itens que podem se destacar em um livro: um deles pode ser o desenho da fonte tipográfica, que proporciona uma leitura agradável sem o leitor perceber ou os espaços brancos que geram uma pausa e reflexão na leitura ajudando na composição visual. Assim, o que se destaca pertence muitas vezes a uma questão cultural, vivemos em um país que produz e valoriza, algumas vezes com certo exagero, as imagens e estamos acostumados a ter o olhar voltado para essas imagens, separado do todo que forma um livro.

RM: O que pensa dos livros produzidos apenas com ilustrações?

MM: De certa forma, eles me lembram as primeiras narrativas, desenhadas ou entalhadas nas pedras, ou a tapeçaria medieval que contava belas histórias somente com desenhos. Esse jeito de contar histórias agora em livros de imagens. Eu gosto muito, acho abrangente.

RM: Quais as características de uma boa imagem?

MM: Conheci a coordenadora do curso de ilustração do IED – Istituto Europeo di Design em Milano, Itália. Pude me encontrar com ela para algumas conversas e aprendi a perceber a força vital de uma imagem, o que vem depois são questões de ordem estética e técnica apurada com a prática. Compreendi por meio do olhar dela a perceber o vigor de uma obra.

RM: Você cria personagens para ilustrar histórias. Qual deles mais gosta? Qual criação destaca?

MM: Não crio personagens e, de certa forma, grande parte já vem definida pelo autor, como características físicas, comportamentais, idade, gostos etc. Gosto de alguns que desenhei, mas o mais incrível é quando acabo conhecendo o autor que criou e escreveu e depois ficamos amigos, isso é muito bom.

RM: O que você pensa de ter um trabalho dedicado às crianças? Como analisa este público?

MM: Não é um trabalho exclusivo para crianças, mas é um trabalho que exige muita atenção, quando pensamos que as crianças vivem um tempo diferente do adulto. Elas têm muito tempo para ver e rever as imagens de um livro e, de certa forma, estamos participando da educação da criança para perceber o mundo pelas imagens. E muitas estão mais receptivas a esse encantamento pelas imagens.

RM: Quantos livros já ilustrou? E quais são os planos para o futuro?

MM: Livros de literatura, por volta de 25. O futuro é sempre muito distante para mim, por isso, prossigo nessa viagem da vida, vivendo dia a dia.