13 apontamentos insolentes

16/7/2013 – 22:13h

Leo Cunha *

• “Pouca gente percebe a diferença entre “livro infantil” e “literatura infantil”. Nas livrarias predomina o livro não-literário. Por exemplo: alguém pega 10 imagens congeladas dos episódios dos Backyardigans, descreve sucinta e pobremente cada uma delas e transforma num livro brilhante e de capa dura. Muito fofo, mas a literatura – arte da palavra – passou longe.

• Nada contra os Backyardigans: já assisti muitas vezes com o meu filho, que tem até a fantasia do Pablo (o pinguim azul de gravatinha). Mas os livros…

• Já escrevi cerca de 50 livros de literatura infanto-juvenil. Entro nas livrarias e encontro 2 ou 3, no máximo. O mesmo ocorre com 90% dos escritores. Tenho um livro que está na 20ª edição e nunca flagrei o danado em nenhuma livraria.

• Por que a maioria dos livros de literatura infanto-juvenil não entra nas livrarias? Será que eles não gostam de ler? Infelizmente, o motivo é mais pragmático: não existe uma “demanda natural” pelos livros, que justificaria sua presença no estoque da livraria. A demanda quase sempre resulta de o livro ser “adotado” numa escola.

• O sonho do escritor de literatura infanto-juvenil é ser adotado. Nossos livros não vivem nas livrarias. Vivem num orfanato.

• Quando aparece a tal “demanda natural”, o problema está resolvido? Nem sempre. Esta semana a minha filha ficou alucinada atrás do livro Jogos Vorazes 2. Ela já tinha lido o primeiro, emprestado por uma colega, e agora queria o segundo. Não encontrei em nenhuma livraria da cidade. A editora não percebeu o potencial de vendas da série – motivado pela exibição do filme nos cinemas. Ou, se percebeu, errou os cálculos. Uma vendedora da livraria Leitura, do Pátio Savassi, me deu o triste veredito: “estamos perdendo venda o dia inteiro, todos os Jogos Vorazes foram pras livrarias de São Paulo”.

• Certa vez, em 1994, na livraria do aeroporto de Congonhas, em São Paulo, o Roberto Drumond, sem se identificar, pediu à atendente: “você tem aquele livro Hilda Furacão?” A moça procurou, trouxe, e o Roberto tratou de deixar o livro num lugar de grande destaque. Em seguida me explicou: “Você está começando agora, Leo, mas te dou essa lição: brigue por seus livros!”

• Diante do desencontro logístico entre editoras e livrarias, muita gente conclui que o escritor é quem vende os próprios livros. Vira e mexe as pessoas me pedem: “Leo, traz seu livro amanhã que eu quero comprar. Quanto custa?” E se assustam quando respondo que eu não vendo meus livros (aliás, costumo ter apenas 2 ou 3 exemplares em casa, de cada livro, não tenho vocação pra estoquista nem talento pra vendedor).

• Como resultado da mesma conclusão, muitas pessoas, escolas, ongs, associações cooperativas etc escrevem para os escritores pedindo doações dos livros. Quase sempre a intenção é nobre – criar uma biblioteca, um cantinho de leitura, um projeto de leitura – mas os escritores simplesmente não têm estoque nem selos suficientes.

• Como já escrevi uma vez  no Facebook, os direitos autorais são o salário do escritor. De cada livro vendido, o escritor recebe 8 a 10%, como direito autoral. Se o livro custa 20 reais, o escritor ganha 2 por livro. Parece pouco? Mas é assim no mundo inteiro. É justo. Injustiça é quando alguém xeroca o livro inteiro e sai vendendo. Aí o escritor não recebe seu salário. Ano passado, o escritor Luiz Antonio Aguiar teve um livro adotado para o vestibular e uma gráfica do centro de Belo Horizonte simplesmente fez cópias xerox, na maior cara de pau do mundo, e vendeu  milhares de “exemplares” (com capa colorida e tudo),  roubando o salário do Luiz.

• Idem ibidem: quando o livro é escaneado e disponibilizado para download na internet, o escritor não recebe seu salário. É inevitável? É a lógica do ciberespaço? Como diria o Raul Seixas, agora é tudo “free”? É mesmo? Então por que muitos sites cobram assinatura ou recebem pagamento de anunciantes, para distribuir “de graça” o  salário do escritor?

• A literatura infanto-juvenil, assim como a arte em geral, não está aí para dar lições de moral, cidadania, ecologia, etc. O que é diferente de dizer que ela não está nem aí para a moral, a cidadania e a ecologia. Esses temas podem perfeitamente aparecer nos livros, como aparecem na vida. O perigo é quando o aspecto literário perde a prioridade para o aspecto didático. O bom livro literário é aquele que encanta, que espanta, que assusta, que diverte, que seduz, às vezes tudo isso junto. Aquele que dá vontade de ler de novo e indicar pros amigos.

• A reforma ortográfica eliminou o hífen do simpático termo infanto-juvenil e criou esse monstrengo infantojuvenil. Cada vez que eu leio essa palavra, me lembro de termos médicos compridos como levomepromazina, imunodeficiência, ou a incrível pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiose. Saudades do hífen”.

* O escritor produziu este texto em março de 2012, portanto, há mais de um ano atrás e na época em que se deu o lançamento do filme Jogos Vorazes