O crescimento da literatura para jovens

28/12/2013 – 20:49h

Pesquisa atesta que é cada vez maior, no Brasil, o interesse da juventude pelos livros: balanço de 2013 apontou aumento de 24% de vendas.

Este foi o ano da consolidação da literatura para jovens no Brasil. Se o volume de lançamentos das editoras sedentas por best-sellers vem crescendo a cada ano, agora o mercado editorial vê com clareza os resultados disso: o balanço da pesquisa GfK deste ano apontou um aumento de 24% de vendas em relação a 2012 no País. Foi o setor que mais cresceu no período. O investimento das editoras tem aumentado, com verdadeiros leilões para adquirir o direito de publicação de livros que ocuparam algumas semanas no topo da lista do jornal New York Times, por exemplo.

O fenômeno é mundial. A prestigiada revista literária inglesa McSweeney’s já registrava, em 2011, o fenômeno pelas bandas europeias, em um artigo intitulado Os jovens estão lendo mais do que você. A atenção a eles é tão grande que já existem subdivisões, bem além da ideia de “infantojuvenil”: depois da literatura “young adult” (em tradução literal, “jovens adultos”, para leitores entre 13 e 18 anos), surgiu mais recentemente o “new adult” (“novos adultos”, voltado para pessoas entre 18 e 25 anos).

A designação das faixas etárias vai se atualizando – até para medições de mercado – mas o que realmente muda em ritmo rápido são os gêneros, inventados e revalorizados a cada nova moda. Alguns exemplos recentes são os romances de distopia (estilo clássico de obras como “1984” e “Admirável mundo novo”, com narrativas que se passam em futuros tenebrosos, nos quais a sociedade tem uma estrutura injusta, como em “Jogos vorazes”) e da sick-lit (histórias em que os personagens principais enfrentam alguma doença grave ou terminal, como “A culpa é das estrelas”). Outros são mais estáveis, como a chick-lit, voltada para garotas, e obras de fantasia, como “Guerra dos tronos” e “Harry Potter”.

O melhor exemplo desse crescimento da literatura para jovens no Brasil é o autor norte-americano John Green. Lançado em 2012 por aqui, seu livro “A culpa é das estrelas” gerou uma verdadeira moda de obras com personagens que padecem de doenças graves ou terminais. Mesmo sendo do ano passado, o volume é a segunda obra de ficção mais vendida no Brasil em 2013, segundo a Publish News, da Câmara Brasileira do Livro. O sucesso de Green não para por aí. Ele ainda chegou a ter outros três títulos entre os mais vendidos ao mesmo tempo: “O teorema Katherine”, “Cidades de papel” e “Quem é você, Alasca?”.

Um dos motivos do seu sucesso, ele reitera em entrevistas, é não menosprezar a juventude, tratando os adolescentes e os jovens com respeito. Assim, seus romances – ainda que convencionais na forma narrativa e com uma linguagem relativamente comum – propõem situações sensíveis e escolhas complexas, como a própria vida. “Não há verdades absolutas no quesito formação de leitores, contudo, acredito que a literatura de entretenimento tem uma função social e lúdica específica e, não raras vezes, serve de porta de entrada para leituras mais aprofundadas”, diz André de Sena, professor de letras da UFPE

“Nunca se leu tanto como agora. Ainda que em um tablet, um smartphone ou na tela de um PC, essa geração está lendo e escrevendo o tempo inteiro”, defende o escritor carioca Raphael Draccon, um dos principais autores do cenário nacional. Ele é o criador da série de fantasia “Dragões de éter”, um dos grandes sucessos comerciais por aqui. “O mercado de jovem adulto é um dos que mais cresce a cada dia e de onde estão saindo as novas franquias cinematográficas. Assim como aconteceu com a literatura fantástica, é impossível negar-se hoje o poder literário, comercial e de formação de leitor desse gênero”, argumenta.

Para o biólogo e blogueiro pernambucano Marcos Tavares, de 24 anos, responsável por manter o Capa & Título (capaetitulo.blogspot.com.br), uma das características dos leitores jovens é transitar por vários gêneros. “Os leitores jovens hoje são mais livres, vão atrás do que eles realmente gostam de ler. Não querem saber do que são obrigados”, opina. A estudante de Administração Brenda Lorrainy, de 18 anos, diz não ter um gênero preferido, por exemplo. “Só não leio terror – ainda tenho algum receio – e autoajuda”, diz a também blogueira e leitora voraz, que mantém o Catavento de Ideias (cataventodeideias.com).

Fonte: Jornal do Commercio online