História da ilustração no Brasil

18/2/2014 – 21:08h

A Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ), em janeiro deste ano,  publicou artigo da escritora Laura Sandroni que mostra um pouco da história sobre a ilustração de livros para crianças no Brasil. Aliás, a escritora é fundadora da FNLIJ e tem uma vida dedicada a esta instituição por comprometimento com a literatura infantojuvenil. Laura foi membro do júri do Prêmio Hans Christian Andersen, em 2002 e 2004, além de a primeira especialista da América Latina a receber, em 2006, o título de Membro Honorário do International Board  on Books for Young People  (IBBY), que é representado no Brasil pela FNLIJ.

Laura Sandroni publicou  ensaios nas principais revistas e jornais especializados em literatura infantojuvenil no Brasil e no exterior. Pela Academia Brasileira de Letras produziu  “Acadêmicos autores de literatura  infantil e juvenil”, em 2011. O artigo sobre a ilustração de livros no Brasil é um documento, cujo texto serviu como base para a introdução do Dicionário de Ilustradores Latinoamericano SM, no qual foram citadas histórias e autores de cada país mencionados na publicação.

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No Brasil Colônia – até a chegada do príncipe Dom João acompanhado de sua mãe a Rainha D. Maria 1ª – não havia sequer uma tipografia. Todo o material impresso como livros, jornais ou revistas, era importado da Europa. Mesmo depois quando, nas caravelas que trouxeram a Família Real, chegaram linotipos ou literatura destinada a crianças e jovens, não era sequer considerada e os livros continuaram sendo importados em traduções portuguesas ou diretamente da Inglaterra e da França, na maior parte ilustrados a preto.

Quando finalmente os fundadores de uma literatura infantil brasileira começaram a traduzir ou a escrever numa linguagem a que chamamos “português abrasileirado” nos anos finais do século XIX e início do século XX, os livros tiveram esse tipo de ilustrações feitas por artistas como Calixto Cordeiro, Henrique Cavalleiro e Julião Machado, o mais presente nos livros de Figueiredo Pimentel, um dos fundadores.

Em 1915, quando já está caracterizada a fase de transição, a Weiszflog Irmãos Editora, de São Paulo, lançam uma “Biblioteca Infantil” que se inicia com O patinho feio, de Andersen. O caráter revolucionário dessa Coleção está principalmente em seu aspecto gráfico: ilustrações em cores, de Francisco Richter, da mais alta qualidade, impressão e acabamentos primorosos.

Mas antes ainda, em 1905, uma revista chamada Tico-Tico, um passarinho muito comum no Brasil, cujo objetivo era “encantar e distrair” as crianças, publicava contos, poesias e principalmente histórias em quadrinhos cujos personagens inspirados em figuras bem nossas, viviam divertidas aventuras e seus 10 mil exemplares iniciais esgotavam-se rapidamente.

Nele brilharam, com seus desenhos em cores, nossos primeiros grandes ilustradores como Angelo Agostini, Luiz Sá, Alfredo Storni, Monteiro Filho e Max Yantok entre outros, até o fim da revista em 1958.

Com a publicação de A menina do Narizinho arrebitado, em 1921, José Bento Monteiro Lobato, inaugura-se o que se convencionou chamar de fase literária da produção editorial brasileira destinada a crianças e jovens.

Sua obra foi um salto qualitativo, comparada aos autores que o precederam, expressa em linguagem coloquial, original e criativa, antecipatória do Modernismo. Nela, a ilustração teve importante papel já que ele sabia que a imagem não é apenas um processo narrativo, mas também um modo de influenciar, “fazer a cabeça”, principalmente quando se trata de uma população menos letrada – como era o caso na época – com Voltolino, André Le Blanc, Belmonte, J. U. Campos e Manuel Victor Filho, entre outros que criaram, com seu talento, as figuras marcantes do Sítio do Picapau Amarelo.

Em 1936, o Ministério da Educação, por iniciativa do Ministro Gustavo Capanema, lança um concurso para livros de literatura infantil abrangendo até o que se chamava então “álbum de estampas” para as crianças menores. Dois grandes ilustradores foram premiados, o Santa Rosa, com O Circo, impresso na Bélgica e Paulo Werneck com a Lenda da Carnaubeira.

Já nos anos 60 e 70, a editora Globo, do Rio Grande do Sul, pioneira na tradução de grandes obras de autores famosos, lançou os Contos de Andersen e mais tarde os Contos de Grimm, ambos com suas obras completas ilustradas de forma magistral por Roswita Bitterlich Winger, nascida na Áustria, chegando a Porto Alegre – RS em 1955. Outro grande ilustrador dividiu com ela os volumes dessas obras, além de ter trabalhado em outros títulos: Nelson Boeira Faedrich.

Uma cenógrafa e pintora Marie Louise Nery e uma pintora Anna Letycia Quadros, que trabalhavam com a teatróloga, Maria Clara Machado, no Tablado, no Rio de Janeiro, ilustraram dois livros com peças suas, agora em forma narrativa: O Cavalinho Azul (1969) e Pluft, o fantasminha (1970).

Os anos 80 nos trouxeram novos ilustradores, já que na década de 70 havia surgido grande número de bons autores. Citamos alguns como Flávia Savary, que hoje se dedica ao teatro; Denise Fraifeld e Fernando Azevedo, que abandonaram a ilustração por outras atividades artísticas; assim como Gê Orthof, filho da grande autora Sylvia Orthof, que ilustrou todos os seus primeiros livros e hoje é professor em Universidade de Brasília. O marido de Sylvia, Tato, ilustrou o restante da obra dela até sua morte.

Resta-nos mencionar aqueles autores que também desenharam suas obras como Marina Colasanti e Rubens Matuck. Seguem-se os 96 ilustradores que fizeram e fazem com que os livros brasileiros para crianças e jovens sejam hoje conhecidos e oferecidos em toda a América Latina e em vários outros países do mundo.