Panorama de 1994 a 2013

28/4/2014 – 19:01h

Isis Valéria *

Muito grande foi a expansão da Literatura Infantil e Juvenil nos últimos vinte anos. Selecionamos apenas duas temáticas que representaram uma verdadeira mudança de paradigma na abordagem do imaginário cultural brasileiro: a literatura de afrodescendentes e indígenas.

A partir dos anos 80, a literatura infantil e juvenil brasileira consolidou um acervo que incluiu um imaginário com diversos títulos para a criança pequena, leitores em processo e jovens com a inclusão de uma linguagem nacional. Os escritores não só receberam o reconhecimento da crítica acadêmica, dos pais e professores, como também conquistaram leitores que desenvolveram o hábito de ler desfrutando de uma ampla oferta de gêneros literários, disponíveis através das bibliotecas escolares e nas livrarias. A indústria editorial brasileira investiu no potencial de um país de leitores com uma grande população jovem.

Há uma regularidade de lançamentos de títulos para suprir as necessidades de uma educação de qualidade expressa como um ideal de formação, nem sempre alcançado, mas que inclui a leitura como uma das práticas fundamentais para formar os futuros cidadãos capazes de conduzir um país democrático. A lei de Diretrizes e Bases da Educação recomenda a leitura de autores nacionais, o que também consolida a profissionalização de um grande número de artistas gráficos: os ilustradores, que exercitam sua arte em diversas linhas de trabalho, estilos, traços e uso de diferentes materiais para um mercado cuja demanda é capaz de absorver pessoas de talento.

O resultado é que a produção de livros nacionais alcançou uma qualidade semelhante a dos países desenvolvidos e hoje o Brasil ocupa o oitavo lugar no mercado mundial, possuindo um parque gráfico com tecnologia moderna e atualizada.

Nos anos 80, a escritora Lygia Bojunga Nunes recebeu o prêmio Hans Christian Andersen pelo conjunto de obra. Em 2000, Ana Maria Machado também foi agraciada com o prêmio, considerado o mais importante da literatura infantil e juvenil no gênero. Este ano, foi a vez de Roger Mello ganhar o mesmo prêmio como ilustrador.

A par desse desenvolvimento nacional, por mais de 490 anos os brasileiros fundamentaram o padrão cultural e estético nos valores europeus e segundo a norma culta. Houve a completa inclusão dos mitos, lendas e todo o imaginário que chegou com a literatura de Perrault, Irmãos Grimm, Andersen, Esopo e La Fontaine, que se consolidou com o nosso cotidiano social.

Por ocasião das comemorações dos 200 anos dos irmãos Grimm, o periódico Correio da UNESCO publicou um artigo do peruano Juan Paulo Adhur, que reclamava uma imagem mais latina para os Contos de Fada, com o título As Fadas Preferem As Louras. Esse padrão também foi citado na publicação do Boletim Informativo FNLIJ – Edição Especial –200 Anos Grimm, pelo escritor e jornalista Luiz Raul Machado referindo-se à página 47 do livro Cinderela, a Versão dos Índios Tenetehara de Charles Wagley, professor de Antropologia da Universidade de Columbia – NY. Luiz Raul ganhou a publicação de presente de Noel Nutels, um defensor dos indígenas brasileiros que ele, enquanto jornalista, teve a oportunidade de entrevistar. Os Teneteharas vivem no Maranhão e já em 1949 a University Press publicou o conto.

A referência é importante porque sabemos que, desde os anos 20, Monteiro Lobato ao publicar A Menina do Narizinho Arrebitado incluiu o cotidiano rural, o humor e uma nova forma de narrativa para a infância que reformularia completamente o imaginário nacional. Lá descobrimos a Cuca, o Curupira e, apesar de Lobato ter sido um grande opositor da Semana de Arte Moderna, em 1922, ele antecipa uma linguagem coloquial e brasileira. Mário de Andrade é o criador de Macunaíma, mas ainda a visão é do ponto de vista de um grande escritor voltado para o Brasil caboclo.

Na literatura infantil e juvenil, somente no final dos anos 80 é que Ciça Fitipaldi lança a Série Morena, com vários livros sobre os indígenas brasileiros dos quais, ao residir com antropólogos em diversas aldeias, escreve e ilustra várias lendas e mitos dos povos Ianomani, Bororo, Tucano, Karajas e introduz um novo parâmetro de imagens respeitando toda a cultura que os diferencia como povos.

É também em 1987 que Rogério Andrade Barbosa – voluntário da ONU na Guiné-Bissau por alguns anos, país que alcançara a independência como ex-colônia de Portugal – recolheu da tradição oral ao pé das fogueiras uma série de mitos e lendas africanas, publicadas com o título de Bichos Da África, ilustradas por Ciça Fitipaldi. Há outra abordagem nas histórias africanas que, recolhidas na origem do continente, revelaram raízes profundas no imaginário do africano brasileiro. As duas coleções tiveram um reconhecimento internacional e foram publicadas em diversos países, em espanhol, inglês e alemão. Só para o Programa Livros Del Ricon, da Secretária de Educação do México, foram vendidos cerca de um milhão de exemplares de Bichos da África, em sucessivas edições a partir de 1987 até hoje. A Série Morena obteve o mesmo reconhecimento internacional.

Com o passar dos anos e a militância dos afrodescendentes brasileiros, as editoras começaram a produzir obras mais representativas das culturas, que são as raízes do povo brasileiro, como a Melhoramentos, Peirópolis, Pallas e Callis, apenas para citar algumas. Surgiram as publicações de escritores africanos dos Países da Comunidade de Língua Portuguesa – CPLP e também de escritores descendentes de africanos que escrevem a partir das suas vivências.

A partir dos anos 90, vários autores de imagens e textos consolidaram uma linguagem nacional e um novo olhar para a diversidade da cultura brasileira que aparece em suas ilustrações: André Neves, Graça Lima, Jô de Oliveira, Marilda Castanha, Mauricio Negro, Maurício Veneza, Roger Mello, Taiza Borges, entre outros.

Em 2002, Daniel Munduruku, o autor indígena já publicado e agraciado como finalista do prêmio Tolerância da ONU, procurou a FNLIJ e, em uma conversa com Elizabeth Serra, pediu apoio não só para a temática indígena nacional, mas para os escritores e ilustradores indígenas brasileiros. Na ocasião, estava chegando ao fim a década dos Povos Indígenas, declarada pela ONU em 1995 e foi criado, na FNLIJ, o projeto Curumim, um prêmio para escritores sobre a temática indígena. Mais tarde, em 2004, com o apoio inicial da Fundação Ford e da FNLIJ, foi criado o Primeiro Encontro de Escritores e Artistas Indígenas, dentro do Salão FNLIJ do Livro para Crianças e Jovens, que em 2012 completou dez anos, marcado com a publicação Relatório das Atividades – Um modo de marcar nossa ancestral oralidade – Uma Edição Comemorativa. Desde o início os indígenas sempre contam com o apoio do Instituto Ecofuturo e há seis anos o Instituto C&A patrocina o evento.

Hoje, existe um decreto que inclui a obrigatoriedade de incluir livros da temática Afrodescendente e Indígena nos programas de compra de acervos para as bibliotecas escolares, federais, estaduais e municipais. É mais uma conquista na área da inclusão cultural para que o Brasil seja de fato e de direito um país de todos.

*Presidente do Conselho Diretor da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ)
Fonte: Boletim da FNLIJ – Março 2014