Um jeito diferente de publicar e-book

27/7/2014 – 22:22h

Miguel Mendes*

Livro digital? Hum… Já se sente o clima de polêmica no ar. Hoje já está bem desenvolvido  o meio de se publicar um livro digital, mesmo sem editora,  e ele estará disponível para compra no mundo todo. Será que se autopublicar na forma de e-book é uma boa alternativa para novos escritores?

Estou no meio de uma experiência para chegar perto de uma resposta. Tendo eu sempre trabalhado no campo da produção de histórias em quadrinhos e livros infantis, decidi tirar uma ideia da gaveta e lançar um e-book juvenil totalmente independente. Isso quer dizer que o autor controlou todas as etapas do processo, desde a redação, passando pelas ilustrações e pela formatação digital, até a comercialização e publicidade.

O livro é “Agência Frase Feita – a nata da publicidade”, primeiro volume de uma série dedicada a leitores de 9 a 12 anos, com um enfoque fantasioso e bem-humorado da atividade publicitária. Ele está a venda em duas plataformas de livro digital: Amazon Kindle e iBookstore da Apple.

Quais as vantagens do livro digital em relação ao livro impresso? A primeira e mais importante é a distribuição ubíqua. Enquanto um livro impresso deve ser comprado numa livraria, nem sempre existente próxima ao leitor, ou encomendado pelo correio, com custo de frete e dias de espera, um livro digital é comprado com alguns cliques e pode ser lido de imediato, em qualquer lugar em que o leitor esteja, desde que haja conexão de internet.

O livro digital fica, literalmente, à venda no mundo todo. Qualquer leitor de língua portuguesa, por exemplo, não importanto a nacionalidade, passa a ser meu leitor em potencial. Imagine quem escreve em inglês…

Por suas características virtuais, o livro digital ganha em praticidade. Não pesa nada. Quem pesa é o leitor de e-books, mas ele pode segurar dentro dele uma biblioteca inteira. Uma vez comprado, o livro é um direito seu. Se perder seu leitor de e-books, você pode recuperar seus livros acessando a loja. Mas se você perder seu exemplar impresso, só comprando um novo, né? Além disso, o livro digital é maleável. Leia com o tamanho e estilo de letra que for mais do seu gosto. Leia também em diferentes aparelhos. Você pode começar a ler o livro no computador, porque está em casa, e continuar no smartphone, porque está em trânsito. O livro digital pode receber atualizações e correções como se faz com os programas e os apps. Só depende do autor. Já estou pensando em substituir a imagem de capa do meu livro. Posso fazer isso quantas vezes quiser. Quando um autor de livro impresso vai poder fazer o mesmo?

Mas como se faz? Eu precisei de conhecimento técnico, é verdade. Muito importante foi assitir a um curso intensivo de formatação de livros digitais ministrado pelo José Fernando Tavares, da Simplíssimo. Ali aprendi a transformar meu texto e minhas ilustrações num arquivo de formato ePub, o formato mais difundido de e-book. Há meios automáticos de se criar esse arquivo, mas lembre-se de que o nosso objetivo era ter controle sobre o processo e, sem botar a mão na massa, o autor não tem controle sobre a performance e o visual de seu e-book.

Um grande impulso no projeto foi dado pela leitura de um trabalho chamado “Publicação de livros na iBookstore”, de autoria de Glauco Adams. É um amigável manual de como se autopublicar através do sistema da Apple, aquilo que se chama “o caminho das pedras”.

Também assisti a uma palestra sobre o marketing dos livros digitais dada pelo Eduardo Melo, da Simplíssimo. Tinha que cobrir todas as etapas.

Com o livro pronto, só faltava mesmo me associar às grandes lojas distribuidoras de e-books. Essa é a etapa do processo que pode afugentar alguns autores, devido à burocracia envolvida. Eles devem ter em mente que a Amazon e a Apple são empresas americanas e, para firmar contrato com elas, é preciso um registro oficial nos Estados Unidos. É só um número de identificação no fisco, mas tem que ser feito. Por outro lado, tudo é muito livre: você não precisa ter uma empresa para vender seu livro. Não precisa nem mesmo um número de ISBN. Basta ser o legítimo autor da obra. Faz tudo on line, não precisa nem de correio. E tem a satisfação de ditar o preço de seu livro, para cada um dos países em que ele será oferecido.

Nesse ponto, autopublicar-se é extremamente distinto de publicar um livro impresso. Administrar seu preço on line é uma ferramenta de marketing que não existe no mundo das livrarias físicas. Escolha o preço que ajudar a vender seu livro. Nem tão barato que desvalorize o trabalho, nem tão caro que desestimule a compra da novidade. Mais do que isso: você pode mudar o preço quantas vezes quiser, para ajustá-lo às variações do mercado. Esse ajuste pode ser feito em função das informações de venda, que também são on line, quase em tempo real. Um autor de livro impresso só sabe quanto vendeu de seis em seis meses… Quando sabe!

Agora, vamos falar das desvantagens, senão este post fica sendo só a apologia do e-book. Quando um autor se autopublica, seu trabalho não é aprimorado pelos editores, que tem mais experiência no mercado e vários filtros de qualidade. O autor, então, tem que compensar essa falha de alguma maneira. Outra coisa que o autor perde é o investimento da editora em distribuição e marketing, todos aqueles profissionais tentando colocar seu livro nas redes de livrarias e nas compras do governo. Bem, o fato é que as editoras já têm colocado nos ombros dos autores a responsabilidade de se fazerem conhecidos. Então, nesse aspecto, dá empate. Mas fazer sua obra independente ser conhecida e comprada é trabalho bem duro.

É diferente quado um autor já é conhecido de seu público por conta de outras atividades profissionais. No caso dele, publicar um livro digital e divulgá-lo no dia-a-dia é o suficiente para fazer o projeto funcionar. Imagino o caso de um palestrante, por exemplo, que anuncie seu e-book no fim da palestra. Alguns dos ouvintes vão procurar o livro, com certeza. E, quem sabe, espalhar.

Pra finalizar, ainda espero resultado do meu livro. Outra vantagem aparece aí: o tempo está do meu lado. Um livro digital está sempre ali, disponível para “acontecer”. Aliás, quem quiser conhecer a história da Agência Frase Feita pode olhar o site em www.migmendes.wix.com/agenciafrasefeita ou em www.facebook.com/agenciafrasefeita.

* Jornalista, quadrinista e ilustrador da equipe de Ziraldo