“Kiko, o coelho voador”

15/9/2014 – 19:43h

Caio Martinelli é desenhista, pintor e ilustrador. Recentemente, passou também a exercer o ofício de escritor, graças à inspiração de seu filho Bruno que o motivou para criar “Kiko, o coelho voador”. Ele escreveu e ilustrou seu primeiro livro lançado recentemente pela Editora Multifoco, no Rio de Janeiro.

O tema central da história é a preservação da natureza, em especial, de uma floresta sob risco de extinção por causa do desmatamento: “Um dia, Kiko viu que algumas árvores da sua floresta haviam sido cortadas! Só tinha sobrado a parte de baixo delas… Kiko contou para seu amigo que a floresta estava em perigo por causa das árvores cortadas. (O macaco) Caco ficou preocupado com o que ele falou e disse: Eu tenho um amigo que pode nos ajudar… É o ratinho Lulo!”

Kiko, Caco e Lulo (coelho, macaco e rato) planejam uma forma de salvar a floresta. As aventuras dos três só terminam quando conseguem jogar novas sementes na área desmatada e, assim, preservar a área. “Estou muito feliz por ter ajudado a fazer da minha floresta um lugar melhor”, afirma o coelho que é capaz até de pilotar um avião para conseguir o reflorestamento.

Com esta história, o autor deseja “demonstrar para as crianças a importância de valores como a amizade e a cooperação, usando os personagens como exemplo”. “Na minha opinião, os animais demonstram na natureza muito mais estes valores que os humanos e, por isso,  eu coloco os animais como protagonistas, coadjuvantes e figurantes, enquanto a espécie humana não aparece, ficando oculta na trama”, afirma o designer gráfico.

Caio Martinelli vive e trabalha em São Paulo, onde periodicamente realiza oficinas de pintura. O livro é vendido e entregue em todo o Brasil através do site da editora:

http://www.editoramultifoco.com.br/literatura-loja-detalhe.php?idLivro=&idProduto=1648

Ziraldo e a história de meninos de rua

12/9/2014 – 18:11h

Marrons, maluquinhos ou quadradinhos, os meninos sempre estiveram próximos de Ziraldo. Mas o cartunista e escritor ainda não havia produzido nada sobre os meninos de rua que enchiam as noites na Praça do Lido, em Copacabana, onde ele morava.

O desejo de contar quem eram esses garotos se transformou em projeto para livro que deveria ter sido publicado no começo dos anos 1980, mas Ziraldo não sabia como ilustrá-lo. O texto foi escrito e reescrito por diversas vezes. “Não sei desenhar meninos sofrendo. E a história ficou guardada na gaveta”, conta Ziraldo.

Foi quando Ziraldo reviu o mural Jogos Infantis, de Cândido Portinari, no Palácio de Capanema. Desassossegou-se. “Cheguei em casa e não dormi enquanto não achei uma das versões da história e não folheei todos os meus álbuns de Portinari, povoados de meninos brasileiros.”

Ziraldo, então, recebeu a autorização de João Cândido Portinari, filho do artista, e as imagens dos meninos de Portinari ganharam voz na história que Ziraldo conta em “Um menino chamado Raddysson”, lançado em agosto durante a Bienal Internacional do Livro de São Paulo.

Ao Correio Brasiliense/Diario, Ziraldo falou sobre a ideia do livro e a recorrência de meninos como personagens de seus trabalhos.

Como veio a ideia de fazer um livro cujo protagonista é um menino de rua?

Quando eu comecei a escrever livro para criança, fiz O menino maluquinho; já tinha vontade de fazer O menino marrom. Na Avenida Atlântida, no Rio de Janeiro, tem uma praça chamada Praça do Lido. Eu morava no último andar do prédio e toda noite eu trabalhava até tarde, sempre trabalhei até altas horas da madrugada… então, o que me acalentava de noite, além de colocar minha musiquinha para ouvir, era a risada e a algazarra dos meninos brincando lá embaixo, na praça, como o recreio do colégio.

Era o mesmo barulho dos meninos de escola rica. Eu chegava na janela e via aqueles meninos correndo numa alegria, de madrugada. Escrevi até uma nota no Pasquim sobre os meninos. E o Alírio Cavaliere, um juiz de menores de Minas, me escreveu um bilhete comovido com o textinho que fiz. E agora, na hora de publicar o livro, procurei, procurei e não achei.

Qual o maior desafio ao escrever a história?

Eu não sabia como contar qual era o sentimento desses meninos porque conheço a alma de todos os meninos dos meus livros, meninos de classe média. Mas não sei como funciona a alma dos meninos de rua. Eu acho que eles não têm consciência de que são felizes ou infelizes. Não se pode ter sentimento em relação a uma coisa que não conhece. Então, sempre tive o cuidado de não fazer o livro para não ficar uma coisa sentimentaloide. O que se sabe é que eles viviam ali com uma liberdade extraordinária. Como eles não tinham referência nenhuma de felicidade, eles íam levando a vida deles.

E como as figuras dos meninos do Portinari entraram no livro?

Há alguns anos, eu estive no Palácio do Capanema, no Rio de Jeneiro, e tem um mural chamado Jogos Infantis, do Portinari, que sempre gostou muito de criança. Desde os meninos dos Brodowski (município de São Paulo onde o artista viveu), que Portinari tem sempre ilustrações com meninos. Então, conto a história de um grupo de meninos. O filho do Portinari, João Cândido, é muito meu amigo e eu pedi autorização a ele para fazer o livro com os meninos do pai dele. Ele mandou uma autorização tão generosa, tão carinhosa, que eu fiquei com vergonha de publicar aqui. Eu pude fazer o livro todo ilustrado com meninos tirados dos quadros do Portinari. São recreios de meninos de noite, são esses meninos que conheci pulando e brincando na praça, com essa luz à noite. Escrevi a história e fui procurando desenhos do Portinari que pudessem ilustrar o que eu estava contando.

Fonte: Diário de Pernambuco

“Lila e a luneta mágica”

10/9/2014 – 18:37h

Quando a gente abre o livro “Lila e a luneta mágica”, de Daniela Hunter Andrade, o primeiro impacto é causado pelas belas e criativas ilustrações. Quem assina é Carolina Chew, carioca, que atualmente mora em Londres e realiza projetos de educação infantil através da música e artes plásticas. Suas ilustrações ganham mais força, por que foram fotografas por Sacha Federowsky para compor um conteúdo atraente e harmonioso no contexto gráfico do livro.

A história de Lila começa explicando o significado deste apelido: brincadeira cósmica. Em seguida, entra em cena a luneta, com quem a personagem brinca para explorar o mundo a partir de mapas, fotos, cartões postais e recortes de revistas com imagens distantes, que pertenceram ao avô e lhe são emprestados pela avó.

“Ela acredita que quando crescer se tornará uma exploradora e viajará o mundo assim como seu avô. A vovó de Lila costuma dizer: o vovô viajou pro céu”.

No desenrolar da história, a menina viaja através da luneta, pois percebeu que podia ver “muito além da janela, muito além do jardim, muito além do mar”. A primeira viagem a conduz para um lugar muito quente e seco, onde ela descobre um menino que sofre pela escassez alimentar da região. Em seguida, vai para uma montanha de gelo que flutuava no mar: um iceberg. “Tudo ao redor era gelo e água… Eu devo estar no Pólo Norte”.

Lila conversa com o urso polar, desabrigado, por que sua casa derreteu. Ela pensa alto: “Como o lar de alguém pode simplesmente derreter”?

A próxima viagem conduz a menina para a cidade e ela se depara com a poluição sonora e visual. “De repente, tudo foi ficando verde. Eram lindas árvores. Milhares delas. Lila viajou para tão além, que foi parar na Amazônia. Macacos, pássaros, cachoeiras, tudo encantava os olhos de Lila”. Na floresta, Lila também conversou com desmatadores.

“Lila se entristeceu. Ela lembrou de todas as vezes em que jogou lixo no chão, de todas as vezes em que desperdiçou água enquanto escovava os dentes. Ela pensou em todos os desperdícios e em todos os pequenos maus hábitos em que ninguém pensa”.

“Se ninguém parar para pensar, um probleminha irá se tornar um problemão. Não teremos mais água e tudo ficará sujo”.

Assim a autora conduz o leitor para refletir sobre as questões ambientais. Em cada viagem, Lila observa o mundo, conversa com gente e bichos e vê as conseqüências das ações do homem sobre a Terra. Vai tirando suas conclusões e aprende a olhar para dentro de si mesma, a partir de onde tudo pode mudar.

No final da história, a menina foi parar no Himalaia e aprendeu o valor do silêncio e da meditação.

“Lila não precisa mais de sua luneta pra ver longe. Ela pode ver montanhas, o céu… A lua… As estrelas… Os planetas… Ela pode ver muito além. Lila agora vê uma luz. Uma luz muito forte, mas delicada. Uma luz que não machuca seus olhos”…

Para sua surpresa, vê o seu avô velejando um barco: “É você vovô! Eles me falaram que nunca mais iria te ver”.

E aí eu pergunto: será mesmo o encontro da neta com seu avô?

Isto o leitor vai decidir, a partir da leitura das 48 páginas de “Lila e a luneta mágica”, Editora Cassará.

Clube de livros para crianças

9/9/2014 – 22:00h

Leiturinha é um clube de assinatura só para livros infantis. Leia a análise de Isto é Dinheiro, do dia 2/9, sobre mais esta iniciativa de promoção de venda de livros e decida se deve participar ou não do www.leiturinha.com.br. Uma equipe ajuda a escolher os melhores títulos e, assim, os pais podem comprar livros mais adequados para seus filhos.

Há pelo menos três anos os clubes de assinatura lutam para provar seu valor como modelo eficiente no e-commerce. De lá para cá, o mercado acompanha o surgimento de uma centena de iniciativas na área – de venda de sapato a cestas de frutas frescas. Mas a verdade é que poucos empreendimentos sobreviveram aos primeiros meses de operação no Brasil, sendo mais raro ainda os casos que se consolidaram e entregaram lucro.

Mesmo assim, o modelo permanece firme e desperta a atenção dos empreendedores. Recentemente, dois jovens decidiram testar a subscrição para uma finalidade que, pelos menos no País, ainda não foi explorada. Eles lançaram a Leiturinha, clube de assinatura para livros infantis dedicado às crianças de zero a oito anos – há planos de estendê-lo para crianças com até 12 anos.

O negócio surgiu quando os sócios Guilherme Martins e Luiz Castilho experimentaram na carne o desafio que é iniciar um filho no universo literário. Os dois são pais e contam que, além da dificuldade em identificar um título adequado, era complicado freqüentar uma livraria com certa regularidade.

Eles estudaram o modelo por aproximadamente seis meses até que, no dia 15 de maio, colocaram a plataforma no ar, concluindo um processo que envolveu investimento inicial de R$ 500 mil, a contratação de sete  funcionários, incluindo uma psicóloga e uma pedagoga responsável pela escolha dos livros, e um mês de testes com alguns amigos, parentes e conhecidos.

Atualmente a plataforma tem 1,5 mil assinaturas ativas, 25% do fixado como meta para o primeiro ano da empresa, que projeta chegar ao meio do ano que vem com 6 mil clientes. Para tanto, Martins prevê um desembolso adicional de R$ 400 mil, dinheiro a ser aplicado na contratação de novos funcionários e na definição de uma estratégia mais abrangente de distribuição, hoje feita pelos Correios. Atualmente, a empresa mantém um centro de distribuição provisório em Poços de Caldas (MG), cidade onde Luiz Castilho comanda a operação de outra empresa, a MonQi.

“Eu estudo alguns parceiros, assim como a definição de centros de distribuição terceirizados. A intenção é diminuir custos para ganhar em escala”, destaca Guilherme Martins. Na opinião de Sthefan Gabriel Berwanger, consultor em marketing digital e professor da Business  School São Paulo, o modelo de negócios da Leiturinha desperta o interesse  sobretudo por explorar um nicho relevante. Mas há dois pontos de atenção. O primeiro é justamente o avanço tecnológico no setor livreiro. “É preciso ficar muito atento aos e-books, que têm transformado o mercado e que contam com um competidor do porte da Amazon”, destaca.

Outro ponto de risco, na opinião do especialista, envolve a gestão. “Os clubes de assinatura exigem ainda mais atenção nos controles”, finaliza. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Curso sobre literatura infantil

Esta foto, que ilustra a matéria, é de um personagem da Revista Planeta Azul, Abelhuda: uma abelha alegre que transmite mensagens positivas para as crianças

7/9/2014 – 20:01h

Escrever para crianças exige arte, criatividade e conhecimento literário. Atualmente, a demanda é grande e o mercado editorial infantil tem crescido com muitas editoras trabalhando exclusivamente esse segmento.

Mas para quem quer escrever ou mesmo para quem está na função de editor permanece a necessidade de entender mais de literatura infantil: quais são suas origens, os preconceitos que cercam o gênero, seus vínculos com o conto popular.

A Escola do Escritor periodicamente promove cursos sobre este tema. Dia 13 de setembro, em São Paulo, vai realizar o mini-curso “Conhecendo e Escrevendo Literatura Infantil” com o professor e escritor Ricardo Ramos Filho. Ele vai abordar principalmente sobre a concisão do texto, a oralidade e o vocabulário familiar. Elementos presentes: o viés cômico, a fantasia, a busca da felicidade, os desafios, a procura do autoconhecimento, o velho contra o novo, a magia, o final feliz. Realidade e ficção. O problema da lição e da intenção didática. Os livros ilustrados e os picture books. De que crianças estamos falando: de três, cinco, sete, nove ou onze anos? Como escrever um texto para elas?

O valor é R$ 190,00 e os interessados em participar devem se inscrever pelo site

http://www.escoladoescritor.com.br/formulario.php?id=22

Um empurrãozinho na leitura

5/9/2014 – 21:35h

Marcador  de livro envia tuítes para leitores não pararem de ler por muito tempo.

Segundo o site de notícias ProXXIma, sempre atento às novidades eletrônicas, as redes sociais e comunicadores instantâneos juntaram-se às inúmeras tarefas cotidianas das pessoas, roubando o espaço de uma atividade saudável e prazerosa para a mente: a leitura. Mas, numa campanha da Mood para a editora Penguin, em vez de um vilão que impede o leitor de encarar os últimos capítulos do livro, o digital atua como um aliado.

Tweet For Read (Tuíte para ler, em tradução livre do inglês), eleito pelo IAB Brasil como o melhor case de julho, consiste em um marcador de página que emite um alerta no Twitter quando a pessoa passa um tempo sem ler.

A ferramenta possui um sensor de luz e um timer que é ativado no escuro. Se o título não for aberto durante uma semana – ou um período previamente programado), um nano computador com wi-fi localizado no dispositivo dispara um tuíte para o perfil do leitor com uma frase do autor que está sendo lido.

A ação partiu de uma pesquisa da Fundação Pró-Livro e do Ibope Inteligência, divulgada no início do ano, cujos dados apontam que a queda do hábito de leitura deve-se ao fato de que as pessoas preferem ver entretenimento na televisão e na internet.

Para muita gente, esta notícia do site ProXXIma pode parecer longíqua da nossa realidade. Eu acredito que não. O Tweet  for Read se bem aplicado por mais editoras bem pode dar um empurrãozinho na leitura, principalmente, se o tuíte for inteligente, criativo, temperado com humor.

Nada mais é estranho na seara digital. O plano de manter as pessoas conectadas durante todo o tempo está pra lá de bem sucedido. Uma pesquisa do Google, divulgada mês passado, é mais uma comprovação disso: o número de brasileiros conectados hoje alcança 74% da população de 16 a 49 anos de idade, das classes A, B e C.

Mais de 40 milhões de usuários utilizam três ou mais dispositivos digitais em sua rotina. Daí, a conclusão de Maria Helena Marinho, responsável pela área de pesquisas do Google no Brasil:

“O brasileiro está hiperconectado, hipermóvel e hiper informado. Esse modo de agir representa oportunidades para todos os setores da economia. É necessário entender quem é este novo consumidor, definir estratégias, criar um diálogo engajador por meio das mesmas ferramentas onde o usuário está”.

Sendo assim, o Tweet for Read só precisa mesmo de ser bem aplicado pelo mercado editorial. Por que tecnologia só fica boa mesmo se alguém sabe adequá-la à realidade do usuário.

Novos tempos no mundo dos livros

3/9/2014 – 23:33h

Uma reflexão de Anna Claudia Ramos *

Desde o início do ano venho falando que somos protagonistas de Novos Tempos. Tempos de mudanças, de intensa renovação. Esta edição da Bienal Internacional do Livro de São Paulo me mostrou que estou no caminho certo ao fazer esta afirmação.

Trabalho com literatura para crianças e jovens e formação do leitor desde 1985. De lá para cá, muita coisa mudou. Muito há ainda por fazer, claro! Não sou ingênua, mas sou otimista. Acredito nas mudanças que chegam com o tempo de forma solidificada e não em mudanças superficiais. Eu sabia que, um dia, já teríamos tempo histórico para avaliarmos o que começou a ser feito lá atrás. Livros chegando às escolas, projetos de incentivo à leitura espalhados pelo Brasil afora, e muita gente empenhada em fazer algo em prol do livro e da leitura. Hoje, temos feiras de livros e encontros literários em diversos locais deste imenso país. Não estou aqui querendo fazer campanha política para ninguém e muito menos atacar ou defender governos. Estou apenas dando meu depoimento de escritora, educadora e pessoa que milita na causa do livro e da leitura. Por isso, quero falar desta Bienal do Livro que, para mim, foi um divisor de águas.

Sabemos que temos sempre coisas a melhorar em Bienais, fato. Um evento de grande porte nunca dará 100% certo, sempre terá algo por corrigir, mas ao invés de falarmos do que não deu certo, vamos falar do que deu certo. Antigamente, quando dizíamos que não sei quantas mil crianças e jovens haviam passado pela Bienal, era apenas isso: passavam e pronto, nada mais. Mal viam os livros, um ou outro comprava alguma coisa e queriam, mais do que tudo, pegar panfletos e marcadores de livros. Mas agora tudo mudou, milhares de crianças e jovens passam e se apropriam do espaço da Bienal. Durante toda a semana, vi muitas crianças e jovens comprando livros, lendo pelos corredores, compartilhando leituras, querendo conversar com os escritores, participando da programação cultural, impecável, por sinal! Parabéns ao SESC pela curadoria da programação. Vi editores presentes durante quase todo o tempo da Bienal, quando antes os víamos apenas nos primeiros dias… Reuniões informais aconteceram sem que esperássemos. E trarão resultados, com certeza!

Eu, pessoalmente, participei de alguns encontros que me mostraram que, mais do que erros, a Bienal teve acertos. O tempo histórico de investimento na formação do leitor a longo prazo está começando a dar frutos. Aquelas crianças que começaram a ter professores mais engajados no mundo da leitura e começaram a ter e ler livros nas escolas cresceram. Hoje, esses jovens têm fome de livros, de histórias, de conhecimento. Se engana quem diz que o jovem não lê. O que o jovem não lê? O que ele é obrigado a ler? Essa é uma discussão que não está em pauta aqui.

Sim, estamos começando a colher frutos e já podemos pensar numa análise histórica para avaliar o impacto deste investimento de formação de leitor. Três jovens em especial marcaram minha Bienal. Dois, alunos de uma escola pública que acabei atendendo no estande da editora Cortez. Eu havia ido lá para um bate papo com alunos de uma escola particular. Acabei atendendo muito “por acaso” um grupo de uma escola pública que entrou no estande. Ofereci um bate papo com as crianças, alunos de quinto ano, já que eu havia chegado cedo para meu encontro. A professora agradeceu, porque seus alunos nunca tinham ido a uma Bienal e, menos ainda, conversado com um escritor. Ficamos por volta de uns quarenta minutos entre papo e perguntas. Ao final, com exceção de uns quatro, o restante das duas turmas quis gastar o vale-livro que tinha ganho para comprar meu livro e pegar autógrafo.

Enquanto eu autografava, um menino disse para a professora que lamentava não ter levado dinheiro para comprar o livro da Cecilia Meireles que ele tanto queria… E outro dizia para um amigo: “não pegue isso que não é seu, será que ainda não entendeu que esse não é o caminho?”. A terceira jovem foi uma menina que conheci no estande da Record. Ela estava triste por não ter conseguido a senha para uma determinada sessão de autógrafos, quando descobriu que eu era escritora. Puxou papo e ficamos ali, conversando sobre livros. Eu falei sobre meu livro e ela pediu que eu a esperasse enfrentar a longa fila do caixa, porque ela queria meu autógrafo. Seus olhos me buscavam na multidão no estande na esperança de que eu não fosse embora. Não fui. Esperei, autografei, ela me pediu sugestões de leitura e ficamos mais um pouco conversando, tiramos foto e ela se foi. Com certeza ela saiu ganhando. E eu também. Vivemos uma experiência de escritor e leitor que eventos como esse nos proporcionam.

Eu poderia falar muito mais coisas, mas não vou me estender mais, fico por aqui na certeza de que estamos começando a colher os frutos do tempo, que não há mais espaço apenas para reclamações sem ações. E, antes que alguém reclame da ação dos cambistas (ok, sabemos que isso não é correto!), nunca pensamos que um dia haveria cambistas vendendo ingressos para uma bienal do livro. E desde a Bienal do Rio do ano passado eles estão aí. Algo para refletirmos.

Sejamos atuantes nesses Novos Tempos no mundo dos livros em plena Era do Conhecimento. Que possamos aplacar a fome de livros e histórias! Tudo junto e misturado, como bem dizia o slogan da Bienal deste ano. Há espaço para todos. Só não há mais espaço para pensamentos ranzinzas e velhas reclamações. Quer ver algo novo? Faça, colabore, compartilhe, coopere. Um dia você começará a colher frutos.

* Escritora – Autora de 65 livros dedicados às crianças e jovens