“Um breve amor que a vida me deu de presente”

25/11/2014 – 21:48h

Entrevista

Marina Colasanti – Escritora, ilustradora, tradutora

A consagrada escritora Marina Colasanti recebeu o Prêmio Jabuti pela oitava vez - Foto: Divulgação

Rosa Maria: Marina, gostaria que você comentasse sobre o trabalho de criar histórias para crianças.

Marina Colasanti: Estamos falando de histórias ou de literatura para crianças? Histórias são tão fáceis de criar quanto de escrever. Já a literatura requer o mesmo trabalho daquela destinada aos adultos. Exige o mesmo cuidado, a mesma criatividade, a mesma riqueza de conteúdo. Dependendo da história pode também exigir pesquisa. Enfim, é um sério trabalho artístico.

RM: Que elementos possui uma boa história infantil?

MC: Vejo que você estava mesmo se referindo a histórias, a fórmulas de cunho bem dirigista, educativo. Que são, na verdade, as mais presentes no mercado, embora não as mais requisitadas. Mas não é com isso que eu trabalho. Cada um dos meus livros ou dos meus contos tem elementos diferentes. Ou, pelo menos, é o que busco fazer. Os elementos que utilizo são os mesmos que me atraem quando escrevo para adultos. O que difere é a embocadura. E a maneira de contar.

RM: O que é permitido e o que deve ser evitado na literatura infantil?

MC: Uma sociedade que alimenta suas crianças com desenhos e games de super heróis e similares, abriu a porteira para a violência, a morte, a brutalidade, a prepotência. A meu ver, tudo é permitido, não dessa forma exacerbada, mas com bom senso e do bom gosto pode-se tratar de tudo.

RM: Gostaria que falasse sobre sua experiência com os livros infantis, uma vez que também é uma autora consagrada em literatura para jovens e adultos.

MC: Minha experiência é ótima. Pelo prazer que me dá e pelo reconhecimento que tenho tido. Alterno constantemente livros infantis, adultos e juvenis porque gosto de todos. Nunca me limitei a um gênero. E sou tradutora também para todos. Este ano traduzi um belo livro infantil de Maria Teresa Andruetto  (autora argentina, Prêmio Andersen) , “O País de João”, e acabo de traduzir uma versão mais infantil de “Alice No País das Maravilhas” escrita pelo próprio Carroll.

RM: Como nasceu a “Breve história de um pequeno amor”?

MC: Exatamente como é contado no livro. É uma história real, um breve amor que, de fato, a vida me deu de presente. Contar essa história foi um processo natural, estimulado por minha amiga Yolanda Reyes (escritora colombiana) a quem contei os fatos e que insistiu para que eu os escrevesse.

RM: Como as crianças reagem à história?

MC: Ainda não tive muito contato com crianças leitoras dessa história. Acredito que a adoção ficará mais intensa no ano que vem.

RM: Qual o impacto do Prêmio Jabuti na obra? E no autor?

MC: Na obra, exatamente, nenhum porque a obra já está pronta. Tem impacto na sua circulação, na adoção. O Jabuti é um selo de excelência reconhecido por todos. Para mim, é uma grande alegria, sobretudo por seu meu 7º Jabuti, em gêneros diferentes, e minha oitava tartaruguinha, porque tenho mais uma de Livro do Ano.

RM: Como avalia a produção infantil no Brasil?

MC: Não me cabe essa avaliação, não me parece elegante avaliar meus colegas. Quanto ao mercado, é o mais forte de toda a produção literária, embora sendo sempre considerado um gênero “menor”.

RM: Como os meios eletrônicos têm influenciado as crianças e conseqüentemente a maneira de o autor produzir uma obra para este segmento?

MC: Como estão influenciando as crianças é assunto que ainda está sendo estudado e que vem recebendo muita atenção. Quanto a  produzir uma obra “para” este segmento, não tenho a menor ideia. Meus livros juvenis e infantis mais recentes estão saindo contemporaneamente em versão papel e versão digital. Mas eu não alterei em nada a minha maneira de escrever.