Ainda sobre o Salão do Livro de Paris

27/3/2015 – 11:17h

Encerrado o evento literário que homenageou o Brasil, é chegado o momento de analisar tudo o que aconteceu em Paris, com a delegação brasileira e apontar os resultados colhidos. O blog do Galeno Amorim normalmente faz um clipping do que é publicado na imprensa semanalmente e dele selecionamos alguns artigos que podem transmitir para o leitor, inclusive em números, o que, de fato, representou o Salão do Livro de Paris (20 a 23/3) para a literatura brasileira.

O escritor Fernando Morais em entrevista durante o Salão do Livro

A literatura brasileira em Paris

Jéferson Assumção *

O Brasil, homenageado na 35ª edição do Salão do Livro de Paris que ocorreu de 20 a 23 de março na capital francesa, é um país com uma literatura cada vez mais presente no cenário internacional. Isso se deve a pelo menos três fatores, entre outros: isenção de impostos sobre livros, aumento do interesse mundial pela literatura brasileira e forte investimento público na tradução de obras nacionais para outros idiomas.

Conforme dados da Câmara Brasileira do Livro (CBL) e Sindicato Nacional de Editores de Livros (SNEL), somente em 2013 o setor editorial brasileiro produziu 467 milhões exemplares de livros e teve um faturamento total de R$ 5, 3 bilhões. Foram 480 milhões de livros vendidos. Deste total, o mercado comprou R$ 3,8 bi e o governo, principalmente o Ministério da Educação (MEC), adquiriu R$ 1,4 bilhão.

A cada ano, o Brasil tem em média mais 21 mil novos títulos lançados, o que totalizou, em 2013, 90 milhões de livros inéditos e 376 milhões de reimpressões.

O crescente interesse mundial em relação ao Brasil vem aumentando nossa presença e nossa relevância nas feiras internacionais. Nos últimos anos, o Brasil foi o país homenageado em alguns dos principais eventos do setor, como a Feira de Frankfurt 2013, a maior do mundo, e de Bolonha 2014, a mais importante feira de literatura infanto-juvenil.

Antes disso, o Brasil foi homenageado em Santiago do Chile, em 2007, Santo Domingo em 2009 e Bogotá em 2012, além de participar de diversas outras ações internacionais, cujo objetivo é mostrar a qualidade da literatura que se faz aqui e a importância de nosso setor editorial. Com o Salão do Livro de Paris, mais uma rodada de oportunidades se coloca para autores e editores brasileiros.

O expressivo crescimento do número de bolsas de tradução concedidas no período 2011 a 2014, pela Fundação Biblioteca Nacional (FBN) também tem sido um incentivo para a literatura brasileira. O Programa de Traduções concedeu 770 bolsas de 1991 a 2014, sendo que destas 543 entre os anos de 2011 e 2014 (70% do total). Trata-se de um enorme impulso à presença da nossa literatura no Exterior, o que acontecia muito pouco até então. Basta procurar o que havia de livros nossos no mercado internacional para perceber o quanto esta realidade era restrita.

Hoje, apenas pelo programa da FBN, 290 autores brasileiros estão publicados em 47 países, num total de investimentos do Ministério da Cultura de cerca de R$ 4,5 milhões de reais (apenas se contar o investido a partir de 2011).

Os cinco países que mais se interessaram em participar do programa são Alemanha, Espanha, França, Itália, Argentina e os dez principais autores traduzidos: Clarice Lispector, Jorge Amado, Machado de Assis, Rubem Fonseca, Moacyr Scliar, Alberto Mussa, Adriana Lisboa, Daniel Galera, Chico Buarque e Michel Laub.

Numa ação articulada entre Ministério da Cultura, Ministério das Relações Exteriores e Câmara Brasileira do Livro (CBL), 43 autores representaram o País na França. Para a seleção dos nomes foi escolhida uma curadoria externa e estabelecidos critérios que certamente ajudarão a dar um bom panorama da literatura produzida no Brasil de hoje. Foram levados em consideração a representatividade regional, o equilíbrio de gênero (masculino e feminino), a diversidade étnica e cultural, de gêneros literários e ciências humanas, equilíbrio entre autores consagrados e novos e preferencialmente com obras traduzidas para o francês.

Com decisão política, articulação, visão estratégica, todas contidas no Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL) e investimento, o Brasil tem mostrado ao mundo, de maneira cada vez mais estruturada, a qualidade de sua literatura. Será assim, novamente, no Salão do Livro de Paris.

Publicado na Folha de S. Paulo – 21/03/2015
* Jeferson Assumção é escritor; diretor de Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas do Ministério da Cultura

Ao centro, Ministro da Cultura Juca Ferreira fala durante a abertura do evento francês

Análises da imprensa brasileira

“Para ser mais lida e comentada na França, falta à literatura brasileira contemporânea “uma locomotiva, uma estrela, um autor a um só tempo popular e de estatura, como é hoje o moçambicano Mia Couto” – e foi décadas atrás Jorge Amado (1912-2001), com os 100 mil exemplares de seu “Bahia de Todos os Santos” vendidos no país de Baudelaire.

O diagnóstico é do livreiro e editor francês Michel Chandeigne, veterano entusiasta da lusofonia, em entrevista publicada pelo “Figaro” na quinta-feira (19), dia da abertura para convidados do Salão do Livro de Paris, que neste ano faz um tributo às letras brasileiras. A lista de lançamentos recentes sugere que as editoras locais estão ativamente à procura da “vedete” preconizada por Chandeigne”.

Folha de São Paulo 20/3/2015

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“Se os elogios à “diversidade” e à “riqueza” dos autores brasileiros têm sido uma constantes na França nesta semana, na imprensa, entre críticos e autoridades, o discurso não entusiasma o ministro da Cultura, Juca Ferreira, que é realista. Segundo ele, ainda há muito a ser feito para abrir espaço e garantir uma presença perene dos escritores do País nas prateleiras de livrarias de mercados como a Europa e os Estados Unidos. “Temos uma política de financiar a tradução das obras literárias brasileiras. Isso tem permitido que os escritores cheguem a mercados na França, na Alemanha, nos Estados Unidos e aumentado em muito o interesse pela literatura brasileira”, disse ao Estado. Juca Ferreira reconheceu, porém, que ainda há problemas estruturais, como a falta de um Instituto Machado de Assis, para divulgar a língua, e políticas de estímulo à formação de tradutores do português brasileiro – um dos grandes gargalos apontados por acadêmicos e editores estrangeiros. “Quando se vai subir a escada, sempre há um primeiro degrau”, ponderou, destacando o sucesso da política de traduções”.

Estado de São Paulo 19/3/2015

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“Tradicional, aberto e estável, o mercado editorial francês é estratégico no projeto de internacionalização da literatura brasileira. Homenageado no 35º Salão do Livro de Paris, o Brasil vê o evento como uma oportunidade única de despertar o interesse pelos autores nacionais, ainda pouco difundidos na França. Para a delegação do país, que divulga o trabalho de 43 escritores presentes ao evento, o objetivo é se afirmar como um vendedor de direitos autorais.

_ A França ainda conserva seu estatuto de promotora e legitimadora de produtos culturais – avalia Leonardo Tonus, professor da Universidade de Paris-Sorbonne (Paris IV) e um dos curadores brasileiros no evento. – Penetrar no mercado editorial francês significa ter a certeza de poder ser publicado em outros países. Daí a importância de um evento como este Salão do Livro. Talvez o número de negócios seja menor do que em Frankfurt, mas a carga simbólica é muito maior”.

O Globo 22/3/2015