O imaginário da criança aqui e lá

Angela Lago *

23/3/2015 – 20:03h

“Já começo nossa conversa com um relato pessoal. Participo, como aluna, de uma oficina de tradução em uma comunidade virtual. Recentemente a líder propôs a seguinte questão: os personagens que cercam o Pequeno Príncipe são masculinos, o que torna a Rosa ainda mais especial na sua feminilidade. Em português, muitos desses personagens, como a raposa, são substantivos femininos.

Conversando sobre o problema com uma amiga também virtual de língua espanhola, me vi perguntando se seria possível traduzir a nova expressão da nossa poeta Adélia Prado, “a árvore ginecológica”, para o seu idioma. Estranho que a amiga trate no masculino um símbolo tão maternal como a árvore. Mas ela tinha argumentos plausíveis para defender um outro gênero para o vegetal.

A base da cultura humana é a língua. E essa simples questão de gênero de substantivos nos mostra como as diferenças entre culturas podem ser sutis, sofisticadas, profundas.

Imagino que o estudo comparativo dessas nuances linguísticas deva ser iluminador. Aliás, aprofundar o conhecimento das diferenças culturais por qualquer método possível só poderá nos acrescentar. É o diferente que possibilita encontros que nos modificam. Que nos fazem pensar e crescer.

No entanto, confesso que reconheço semelhanças mais facilmente que diferenças. Talvez pelo fato de, como autora, estar mais preocupada com singularidades que com generalizações. Mais além das etnias e nacionalidades, é a pessoa no singular quem delineia nossa humanidade em comum.

Até o conto folclórico, material do meu trabalho, que supostamente deveria me apontar dessemelhanças, vem me mostrando convergências e desfazendo fronteiras.

As assombrações, por exemplo, são capazes de percorrerem enormes distâncias. Sei disso desde menina. Era o que ouvia do meu pai quando me queixava de que a assombração que nos orgulhávamos de ter na família era conhecida também na distante cidade de uma colega.

Quero lembrar ainda que adultos e crianças somos todos um vir-a-ser. E também entre as diferentes idades as fronteiras se esgarçam.

A estrutura do imaginário da criança não difere da que todos partilhamos. Temos necessidade de beleza e humor. E recorremos à fantasia para estruturar as ansiedades ou desejos que nos assustam. Por isso a permanência dos contos tradicionais ou do folclore, incluindo os contos de fada, cujas características se assemelham mundo afora. Esses contos se mantiveram vivos graças ao interesse que despertam em diferentes idades.

Participei menina das rodas de história e cantorias na fazenda do meu avô, onde as crianças eram bem-vindas. Todos, crianças e adultos, maravilhados com as rimas espontâneas que surgiam nos desafios entre os boiadeiros. Encantados e crédulos com as mesmas histórias. Conheço esse lugar onde animais, homens simples e crianças estão em harmonia.

Tinha talvez seis anos e, estimulada a caminhar pelo campo sozinha, experimentei então uma sensação de profunda liberdade e um enorme prazer no exercício da solidão e do devaneio. Essa época, acredito, deixou marcas mais intensas que a vivência nas cidades pelas quais passei, no Brasil e no exterior. A ausência dos pais, que permaneciam em casa com os outros filhos, intensificava meu sentimento de autonomia. À noite ia com meu avô desligar o gerador. A luz amarela desenhava sombras. Desligávamos as sombras e lá se iam as assombrações. Sem as luzes e sombras trêmulas, oscilantes, caíamos rendidos na imensidão da abóbada de estrelas.

Faz um ano mudei para uma pequena vila numa região belíssima, embora uma das mais pobres do Brasil, e reconheço em mim os mesmos sentimentos que vivi na minha infância. Com uma grande alegria volto a me assentar com homens simples e ouvir histórias. Volto a entrar campo afora sozinha e me aproximar desse prazer que só é possível na apreciação da natureza.

Será meu imaginário de criança diferente do de agora? E afinal, o que faz o imaginário? A singularidade da minha vida e dos meus encontros, a terra em que nasci ou que escolhi, a minha língua e as que tento aprender, tudo que sei e não sei, minha memória, meu esquecimento?

Aqui e lá em algum momento são o mesmo lugar?”

Angela Lago é escritora e ilustradora. Participou dia 23/3/2015, último dia do Salão do Livro de Paris, do painel “O imaginário da criança aqui e lá” juntamente com Marina Colasanti e Beatrice Tanaka.