O livro ilustrado

23/3/2015 – 20:09h

Angela Lago *

“Acredito que o livro ilustrado nunca foi tão claramente uma mídia. E a minha busca, desde 1980, foi compreender esse objeto cuja arquitetura pressupõe a passagem das páginas.

Uso esse movimento de passagem e também a interrupção que ele pressupõe para acelerar ou prolongar uma ação, para acentuar o ritmo, para marcar o tempo. É relativamente simples. Considero que, cada vez que viramos uma página, colocamos pelo menos uma vírgula na leitura visual.

Também uso a passagem da página para atravessar o espaço, como se o livro fosse uma casa inteira cujas portas vamos abrindo uma a uma. Ou toda uma cidade. Cada vez que viramos uma folha, dobramos uma esquina para uma nova paisagem.

Desenhamos no espaço plano da folha de papel, que é um espaço de representação onde há apenas duas dimensões e nada tem realidade. Posso inclusive desenhar imagens impossíveis. Aqui, tudo é ficção.

Em 1990 desenhei um livro sobre a ilusão amorosa e tratei de acentuar esse aspecto ilusório do desenho na folha de papel. A partir do trabalho de Escher e dos estudos de percepção visual, desenhei um livro que pode ser lido de cabeça para baixo, ou de trás para frente e ainda assim fazer sentido.

Mas ainda que a página seja plana, temos de considerar que o livro tem três dimensões. E que a composição das ilustrações pode usar esse fato a seu favor.

Ao virar a página, variando os ângulos de leitura, o leitor interferirá na composição da ilustração. Como usar isso a nosso favor? Por exemplo, colocando o ângulo mais profundo de uma perspectiva na dobra da folha e aumentando assim a sensação de profundidade.

Todo o livro “Le petit marchand des rues” é um exercício de ir além do plano da página. Muitas das imagens desse livro ganham mais inteligibilidade graças à perspectiva criada por esse ângulo. O menino entre os carros, colocado justo na dobra da página, parece ainda mais comprimido, com a página no ângulo da leitura. A utilização desse ângulo agrega não só ênfases, mas sentido.

Acredito ainda que a técnica utilizada pode muitas vezes ser uma metáfora, e constantemente troco de estilo para acompanhar um tema ou texto.

Também tenho mudado de técnica e de layout para fazer o meu elogio à permanência deste objeto, o livro. Por isso retornei a composições que lembram os primeiros livros em códices ou cadernos. Volto a usar margens maiores nos cantos externos da folha. Com a proporção de ouro o olhar fica no interior do livro. Essa construção ajuda a concentração, barra o mundo de fora.

Por algum motivo, cada vez com mais frequência retorno à fotografia como base para minhas ilustrações. Talvez seja a minha maneira de responder a essa compulsão atual de fotografar. Mas a mania de fotografar parece congelar a vida em simulacros. A viagem apressada e cansativa fica linda na foto. E a visita aborrecida parece festejada e querida.

A fotografia tem cumprido a tarefa de refazer o cotidiano com a sua ficção. Busco o contrário. Com o uso da fotografia e das alucinações que ela me ajuda a criar, quero conferir realidade à fantasia.

Trabalho também com os novos suportes, mas espero seguir pensando esse objeto que nos fascina”.

Escritora e ilustradora * – Tema de apresentação no Salão do Livro de Paris – 20 a 23 de março 2015