“O livro é um objeto mágico”

27/4/2015 – 11:01h

Hoje, gostaria de falar um pouco sobre Tatiana Belinky  que, apesar de escrever em português (e sempre à mão), era russa, de São Petersburgo, onde nasceu em 18 de março de 1919. Após viver cerca de nove anos em Riga, Letônia, chega ao Brasil, em setembro de 1929, com os pais e dois irmãos mais novos. A família deixou a Rússia por causa da guerra civil provocada pela revolução comunista. Fixam-se em São Paulo. Na capital paulista, Tatiana Belinky Gouveia viveu e faleceu em 15 de junho 2013, aos 93 anos de idade.

Seu primeiro livro infantil, Limeriques, foi publicado em 1987TD. Numa entrevista à Júlia Priolli, do site Educar para Crescer, em 2012, ela deixou uma frase que continua viva: “O livro é um objeto mágico” e outras afirmações dignas de continuarem sendo repetidas:

“A fantasia é tudo. Sempre digo aos pequenos que o livro é um objeto mágico, muito maior por dentro do que por fora. Por fora, ele tem a dimensão real, mas dentro dele cabe um castelo, uma floresta, uma cidade inteira… Um livro a gente pode levar para qualquer lugar. E com ele se leva tudo”.

“Não gosto de livro que traz moral da história. Uma vez, a dona Benta contou uma história cuja moral era “fazer o bem sem olhar a quem”. A Emília discordou: “Para os maus, pau!”. Que me desculpe a Capitu (personagem do romance Dom Casmurro, de Machado de Assis), mas a Emília é a mulher mais inteligente do Brasil! E, além de tudo, é mágica! Eu queria ser mágica. Queria ser uma bruxa. Mas bruxa bonita, como a madrasta da Branca de Neve”.

“Todo mundo gosta de repetição, inclusive as crianças, porque fica mais fácil de memorizar. Quem gosta demais de alguma coisa sempre quer experimentá-la de novo. Isso vale para tudo: do prato que você não se cansa de pedir no restaurante ao livro que a gente lê e relê inúmeras vezes”.

“Não fico me preocupando com idade do leitor. Escrevo o que me dá vontade naquele dia, e a faixa etária que me escolha. Mas o fundamental é ler histórias, ter sempre muitos livros por perto e cantar. Música é fundamental, mas tem de ser de qualidade. É por isso que, no mundo inteiro, existem as músicas de acalanto. Elas são feitas para assustar, mas a letra não importa. A criança ouve o acalanto, depois a voz da mamãe e, em seguida, dorme muito bem”.

A obra

Uma biografia preparada pelo Itaú Cultural nos conduz pelas fases mais marcantes da vida de Tatiana Belinky. Em 1940, ela casa-se com o médico psiquiatra Júlio Gouveia (1914 – 1989), que foi seu parceiro em muitas produções literárias. De 1948 a 1951, a convite de uma sociedade beneficente presidida por amigos e com o apoio da prefeitura, Tatiana e o marido adaptam peças infantis e as encenam em apresentações gratuitas em teatros de toda a cidade de São Paulo. O sucesso do projeto resulta em convite da TV Paulista para que o teatro infantil seja levado à televisão. Em texto adaptado por Gouveia, encenam A Pílula Falante e O Casamento de Emília, de Reinações de Narizinho (1931), de Monteiro Lobato.

Em 1952, chamado para realizar um programa semanal, o casal vai para a TV Tupi. Inicialmente eles levam ao ar Fábulas Animadas, adaptações feitas por Tatiana de contos de fadas e histórias fantásticas. Em seguida, criam O Sítio do Picapau Amarelo, série inspirada na obra homônima de Lobato, com cerca de 350 episódios, que entre 1968 e 1969 é montada para a TV Bandeirantes. Ao deixar a televisão, a autora assume o setor infantojuvenil da Comissão Estadual de Teatro. De 1972 a 1979, atua como colunista, escrevendo crítica de teatro e de literatura infantil em jornais paulistas, como Folha de S.Paulo, O Estado de S. Paulo, Jornal da Tarde e Gazeta de Pinheiros. Publica, em 1984, Teatro da Juventude, que reúne suas adaptações.

A convite de uma editora, lança suas primeiras obras autorais, em 1985: A Operação Tio Onofre e Medroso! Dominando os idiomas inglês, russo, alemão e iídiche, passa também a traduzir obras de Anton Tchekhov, irmãos Jacob  e Wilhem Grimm, entre outros, e a adaptar livremente clássicos da literatura, como Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll.

Em obra composta de mais de 120 títulos, entre traduções, adaptações, memórias, poesia e prosa, Tatiana Belinky propõe aos leitores infantojuvenis reflexões a respeito da natureza humana – frequentemente com humor e sempre empregando recursos que chamam atenção para a própria linguagem.

É o caso, por exemplo, de A Operação Tio Onofre (1985), história que tematiza o medo e a coragem com base em Talita, menina que tem o hábito de atribuir a objetos nome de pessoas. Tio Onofre é o cofre que deve ser aberto sob a ameaça de assaltantes que invadem a casa. O exercício de vocabulário pela aproximação sonora serve de código para a interrupção do crime. Durante o roubo, o telefone da casa toca, e Talita deve atender para que não se levantem suspeitas sobre a ocorrência do crime. Quem está do outro lado da linha é o pai, e a protagonista recorre à metáfora de “Tio Onofre” para alertá-lo de que está em perigo. O enfrentamento do medo e a relação familiar baseada na boa comunicação entre pais e filha permitem, portanto, a superação da adversidade.

Entre os temas que perpassam a obra de Tatiana estão também os direitos humanos. É o que ocorre claramente em O Caso dos Ovos (1986), que parodia a organização do trabalho na sociedade para evidenciar a legitimidade da luta por direitos e da busca por justiça social. Resumindo sua insatisfação na palavra de ordem “galinha bota o ovo, coelho leva a fama”, as poedeiras entram em greve, exigindo de seu chefe, o Coelho da Páscoa, que cada ovo leve o nome de sua produtora.

Já a tolerância ao outro e o respeito às diferenças são colocados, por exemplo, em Medroso! Medroso! (1985). Rafa, o protagonista, vira objeto de violência psicológica pois, diferentemente de seus amigos, tem medo de nadar na represa. O menino surpreende a todos quando realiza um ato de coragem. Os colegas, então, param de caçoar dele.

As preocupações humanistas de Tatiana encontram o ápice nas crônicas de Olhos de Ver (2004), que, buscando gestos belos e verdadeiros em encontros banais, retrata meninos e adultos moradores de rua e outros personagens que vivem em condições menos favoráveis do que as da narradora-protagonista. O tratamento dado a essas questões nunca é ingênuo, e procura sempre fugir ao moralismo ou ao lugar-comum. Esse traço torna-se claro em Stanislau (1986), um passarinho que não sabe viver fora da gaiola: sua dona aprende que, por tê-lo criado dessa maneira, jamais poderá soltá-lo na natureza.

É na poesia, no entanto, que o rompimento com o senso comum se torna mais claro. Por meio do humor, o puritanismo é evitado. A vocação é ilustrada em Cacoliques (1990), versos que criam cacófatos como “No mato, abunda a pita”. O livro de 1990 traz composições com a configuração mais recorrente na obra de Tatiana, os “limeriques”, inspirados no Limerick, forma poética que tem no autor inglês Edward Lear  seu expoente, cuja estrofe se organiza em cinco versos de oito, oito, cinco, cinco e oito sílabas, em rimas aabba.

Trata-se, em geral, de humor nonsense, pelas situações incongruentes ou absurdas – como demonstram versos do primeiro livro da autora no gênero, Limeriques (1987): “Um cara chamado Mariz / estava com dor no nariz / ‘Vou jogá-lo fora’, / falou – e na hora / fez isso e vive feliz”. Em Mandaliques (com Endereço e Tudo), 2001, ainda adotando a mesma forma poética, Tatiana brinca com expressões chulas do português, empregando os versos para mandar cada pessoa para um lugar: “Sou um infeliz baderneiro. / Só quero fugir bem ligeiro: / Me mandam pra Marte / Ou para qualquer parte.

O olhar bem-humorado e sensível está presente também nos livros em que narra suas memórias: Bidínsula e Outros Retalhos (1990), Transplante de Menina: Da Rua dos Navios à Rua Jaguaribe (1995) e Antecedências (2002). A obra de Tatiana Belinky inclui ainda traduções e adaptações de versos, contos e romances russos, ingleses e alemães.