O espaço dos autores independentes

17/6/2015 – 10:23h

Autores independentes são aqueles que investem financeiramente na publicação de seus livros e são os responsáveis pela divulgação, estratégia e vendas dos mesmos. Diferente dos autores convencionais, que são convidados das editoras ou submetem suas obras para análise das mesmas que, por sua vez, contratam especialistas em literatura para avaliarem a qualidade dos originais. Se aprovados, essas editoras podem se interessar por publicá-los ou não. No caso de publicação, cabe a tais editoras a produção e definição de estratégias para colocar as obras no mercado e cabe ao autor cumprir a agenda  proposta para a divulgação e receber os direitos autorais pelo volume de vendas.

Voltando aos autores independentes, cada vez mais, eles estão encontrando um novo tipo de editoras, especializadas em vender sua expertise na publicação dos originais, transformando-os em livros de papel ou e-books. Existem, inclusive, sites que produzem ebooks gratuitamente. Autores independentes têm espaços próprios nas feiras e eventos literários e nos Estados Unidos contam até com uma livraria própria. No entanto, ainda não alcançaram o reconhecimento das instituições que lideram o mundo editorial nem a consagração dos tradicionais prêmios e selos de qualidade reconhecidos pelos que movimentam a literatura. Eles vêm trabalhando à margem deste cenário, mas mesmo assim a independência está atraindo até autores consagrados.

O blog entrevistou autores independentes para conhecer suas experiências.

A professora de Literatura, Sandra Celecina Saraiva de Oliveira, de Brasília, vai lançar seu primeiro livro dia 20 de junho, pela Editora Franco, mas antes disso utilizava a internet para publicar seus textos.  A experiência já lhe valeu um contrato com a editora. “Desde a infância fui incentivada a amar os livros, três mulheres super importantes me levaram à leitura: minha mãe Lulu, Tia Ceiça e vovó Celecina. Aprendi com elas a ‘devorar’ os livros.”

Seu primeiro livro conta a história de “O Elefante Azul”. Um elefantinho que ensina como devemos tolerar as diferenças e respeitar aqueles que nos cercam. Uma narrativa onde o amor próprio é levado bem a sério. Um elefante atrapalhado que descobre, através da amizade, a sua verdadeira identidade. A professora conta que tem algumas crônicas que publicou na internet de forma independente, inicialmente, por não ter uma editora parceira e, depois, puramente por prazer.

Até seu livro ser aprovado pela Editora Franco, Sandra Celecina tentou várias editoras e não obteve retorno. “Acredito que as editoras não queiram muito apoiar autores que ainda não tem nome no mercado. É muito bom ter o apoio de uma editora, visto que como profissionais têm experiência na formatação, na divulgação e na escolha de pequenos elementos na composição do livro que para mim, como autora, seria difícil fazer”.

“De todo modo, àqueles que desejam escrever, o único conselho que posso lhes dar ainda como autora principiante: escute a palavra que tem dentro de si, deixe-a se aquietar, tomar forma e depois sair livremente. A palavra precisa ser livre para tocar a outros”, conclui a professora.

Outra autora, Denise Barbosa, lança “O Mistério da Cachoeira” publicado no site www.clubedosautores.com.br na versão impressa e para e-book. Trata-se de uma estória onde uma turma de amigos e o cãozinho Tobisco passam por uma aventura incomum numa cidade do interior de Goiás. Denise Barbosa é formada em Direito pela PUC/Goiás, servidora pública federal, apaixonada por livros, e que se descobriu autora de livros infantojuvenis.

Segundo ela, “no Brasil não é fácil conseguir o apoio integral de uma editora. E hoje, com a internet e com a opção do e-book disponível, o escritor se sente mais motivado a encarar uma publicação independente. A minha experiência ainda é restrita. Tenho o meu livro ‘O Mistério da Cachoeira’ publicado apenas no site Clube de Autores e Kindle da Amazon, que não são exatamente uma editora, pois apenas publicam a obra revisada e com acabamento montado pelo escritor. E exigem apenas uma determinada diagramação e tipo de arquivo”.

Para Denise, a experiência é interessante e prazerosa. Mas requer muito trabalho de divulgação, principalmente em redes sociais, algo que não é tão árduo para o escritor quando se tem uma editora de mercado.

Henrique Komatsu é autor de um livro bem sucedido: “A menina que viu Deus”. Ele se tornou autor independente, por que “havia e há ainda uma vontade – uma vontade um pouco doentia, confesso – de ver o texto ganhar a forma de um livro acabado. É um fetiche, um desejo, como se o texto só se tornasse obra uma vez publicado. Para satisfazer esse desejo irrefreável, tornei-me autor independente”.

Livro publicado e bem aceito, neste ano, “A Menina que Viu Deus” sairá pela Confraria do Vento. Komatsu conta que “esse é um livro que publiquei de maneira independente em plataforma digital. Chegou a ficar pouco mais de um ano na lista de livros infantis mais baixados no iTunes Brasil. Agora vai ganhar uma nova mídia: o papel. Oxalá.  A Confraria do Vento é uma editora que trabalha de maneira muito próxima, franca com o escritor. Estou acompanhando todo o processo”.

O que a edição independente oferece? E o que exige? Segundo Komatsu, a edição independente é mais livre. Muito livre. E isso é um risco, eu acho. O risco reside no fato de que pode se tornar um meio de apenas extravasar o desejo de ter o livro publicado. Editar um e-book na plataforma Kindle, por exemplo, é bastante simples, embora um pouco trabalhoso, e permite ao autor dar a forma que quiser ao livro. Essa ‘forma que quiser’ é uma faca de dois gumes, pois no meu caso, percebi que havia uma forte tendência em apenas dar contornos ao fetiche, esquecendo-me de atentar para os possíveis leitores.

“A Menina que viu Deus’ foi publicada originalmente apenas na versão digital e disponibilizada gratuitamente. A experiência como autor independente é uma grande experiência. O retorno que você tem dos leitores na publicação independente virtual é mais imediato, mais capilarizado que no caso da edição em papel. Há uma efetiva disseminação da obra, sem as restrições orçamentárias que a edição tradicional impõe. Essa liberdade é uma experiência interessante. Até para você medir se a publicação alcança alguém além de você mesmo”.