Literatura, crianças e criação

16/7/2015 – 9:41h

Suria Scapin e Isabela Parada *

Ao se aproximar de reflexões sobre a literatura infantil é possível que um questionamento se faça presente: como a literatura pode despertar nas crianças algum aprendizado, independente de um objetivo a ser alcançado? No fundo, esta questão é como uma matrioska, que contém outras e outras e outras em seu interior.

Quando nos questionamos sobre  isso, buscamos o ponto central do aspecto educativo da literatura infantil e a nossa primeira pergunta foi: qual é o papel do leitor na leitura? E, como consideramos que esse papel vai além de apenas compreender as ideias do livro, não há ninguém melhor para nos falar sobre isso do que um autor de literatura infantil, não é mesmo?

Em um vídeo, Bartolomeu Campos de Queirós[1] lê o Manifesto por um Brasil Literário e tece comentários sobre ele, afirmando que o que está nas mãos do leitor é a criação: “o fenômeno literário, talvez, seja a fantasia do escritor dialogando com a fantasia do leitor e construindo uma terceira obra, que nunca vai ser escrita”.

Mas pensamos que isso só é possível quando a arte literária infantil alcança a emoção do leitor e exige dele uma capacidade ativa e criativa de interpretação, sendo preciso, para tanto, que as crianças recorram à própria vivência e, a partir dela, criem sentido para aquilo que estão lendo.

Surgiu, daí, uma segunda questão: sendo a criação também papel do leitor, como o escritor pode propiciar isso? E tivemos uma resposta, desta vez, dada por Silvia Oberg: [2] “Esta é uma das qualidades da literatura — e da arte, em geral — deixar espaços livres para que a imaginação e a sensibilidade do leitor/fruidor possa trabalhar”.

E então alcançamos um primeiro ponto importante: a literatura é feita com espaços que permitem ao leitor criar uma obra própria, única, a partir da sua imaginação, e isso nos permite concluir que, em contato com obras literárias, as crianças têm sua capacidade de fantasiar potencializada. Lembrando que estamos questionando o papel educativo da literatura, conclusão esta que nos levou a uma terceira questão — talvez, o cerne da matrioska: aprende-se ao fantasiar?

Vamos esclarecer a importância da fantasia, da imaginação, novamente com palavras de Bartolomeu Campos de Queirós, daquele mesmo vídeo:

O homem é feito de real e de ideal. A literatura, quando ela aparece para as crianças, ela traz esse diálogo com a fantasia. E a fantasia é o que existe de mais importante na construção do mundo: se existe o novo é porque ele foi fantasiado anteriormente. Então, nós devemos à fantasia todo o desenvolvimento do mundo.

É legal saber como funciona a imaginação e, aqui, Vigotsky [3] pode nos ajudar, explicando o desenvolvimento das funções psicológicas superiores. Ele afirma que a imaginação se faz por meio de uma estrutura mental, para a qual é indispensável um material base que vem das experiências vividas. Este, junto com a necessidade humana de adaptação, de sobrevivência e de satisfação de desejos, leva ao impulso criativo. Para a criação, colocamos em movimento todo um mecanismo mental em que o material adquirido das experiências é reorganizado e, assim, criamos algo novo. Por isso, Vigostky considera que a imaginação não é um divertimento do cérebro, mas uma função vital e necessária.

Todos nós passamos, então, por um desenvolvimento das estruturas mentais imaginativas, que amadurecem na idade adulta. E, por mais contrasenso que haja com o pensamento comum, o autor afirma que a imaginação infantil é muito mais pobre que a do adulto pelo fato desta estrutura ainda não estar totalmente formada no pensamento infantil e também porque a experiência de um adulto é mais rica que a das crianças, portanto, a base material dos adultos é maior que a das crianças.

Exatamente aqui chegamos ao ponto que responde a nossa questão inicial, pois a construção de sentidos, por meio da interpretação do lido, nada mais é do que criação e, para criar, é necessário imaginar. Isso só reforça a necessidade de um cuidado para que não haja, na literatura infantil, apenas uma via de compreensão.

Podemos dar como exemplo frases com o objetivo de ensinar alguma coisa para as crianças. Estas são direcionadas ao leitor do livro e não servem ao desenrolar da história ou da personagem, interrompem a interação deles com a narrativa e fazem perder-se o vínculo criança-história.

E o que isso acarretaria? Acarretaria a retirada do espaço criador necessário à fantasia! Sem esse espaço criador, o mecanismo da imaginação não seria acionado e, portanto, não haveria qualquer incentivo ao desenvolvimento da estrutura imaginativa da criança.

Quando nos perguntamos se um livro precisa ser educativo, estamos falando do desenvolvimento da inteligência das crianças e este desenvolvimento é exatamente a criação de estruturas mentais; no caso de que estamos tratando, é a criação e o desenvolvimento das estruturas mentais que possibilitam a imaginação.

A literatura infantil pode despertar um aprendizado nas crianças ao possibilitar a elas que, lendo um livro, tenham o prazer de criar uma obra, que nunca vai ser escrita, mas que vai ficar na sua própria história.
[1] Bartolomeu Campos de Queirós (1944-2012) foi um escritor mineiro que lutou pela disseminação da ideia de que a arte, especialmente a literatura, é parte essencial no processo educativo e atuou ativamente no Movimento por um Brasil Literário.

[2] Silvia Orbeg é doutora em Ciência da Informação pela Escola de Comunicação e Arte (ECA) da Universidade de São Paulo (USP), com especialização em literatura infantil e juvenil.

[3] Lev Semenovitch Vygotsky (1896-1934), psicólogo bielo-russo, que, apesar de ter falecido cedo, aos 38 anos, produziu uma obra densa sobre a gênese das funções psicológicas superiores, sendo uma referência para estudos sobre desenvolvimento e aprendizagem infantil.

*Suria Scapin e Isabela Parada – Editora Pipoca