“Sempre fui apaixonada pelas palavras e pelas entrelinhas”

11/7/2015 – 11:56h

Entrevista

Stella Maris Rezende – Escritora, desenhista, cantora e atriz

“A arte literária tem uma riqueza de linguagem, uma poeticidade, uma beleza incomum e encantadora que todas as pessoas deveriam vivenciar”

Rosa Maria: Nas viagens que realiza pelo Brasil e nos eventos literários dos quais participa, você faz contato com muitos jovens. Como você sente o jovem: quais suas expectativas, apreensões, sonhos?

Stella Maris: Sinto-os ávidos por respostas, mas também abertos a novas perguntas, o que é fundamental. Em qualquer época ou lugar do mundo, os jovens se parecem bastante, porque vivenciam angústias, sonhos, frustrações e alegrias que se assemelham. Tenho leitores jovens por todo o Brasil e é maravilhoso imaginar que, embora possuam tanta coisa em comum, cada um tem seus inextricáveis mistérios e íntimas inquietações. Os que leem literatura costumam falar e escrever melhor. Os que leem best-sellers, autoajuda e romances encharcados de estereótipos e superficialidades aos poucos se cansam desse tipo de leitura e procuram livros mais condizentes com a complexidade da condição humana. Bom, eu sei que alguns vão continuar lendo apenas best-sellers, infelizmente. A arte literária tem uma riqueza de linguagem, uma poeticidade, uma beleza incomum e encantadora que todas as pessoas deveriam vivenciar.

RM: O que os jovens buscam na literatura?

SM: Os que leem best-sellers buscam respostas. Os que leem literatura buscam diálogos, reflexões, perguntas, sonhos, trocas, riquezas, muito encantamento e livre imaginação.

RM: O que procura apresentar para eles em suas palestras?

SM: Através de textos de alta qualidade artística, reflexões cheias de bom humor e olhar crítico, procuro estimular a leitura literária.

RM: Você percebe no jovem o interesse pela carreira de escritor?

SM: Sim, em muitos deles. Infelizmente, têm pressa em publicar. Sempre digo que o mais importante é ler muito, escrever e reescrever muito, com disciplina, paciência, persistência, habilidade, foco e livre imaginação.

RM: Como você orienta os jovens que desejam se preparar para esta carreira?

SM: Indico meu livro “Esses livros dentro da gente – uma conversa com o jovem escritor”, Casa da Palavra, que dá dicas para quem quer se tornar escritor ou um bom leitor.

RM: Por que você se tornou escritora?

SM: Porque nasci com essa vocação. Desde menina, sempre fui apaixonada pelas palavras e pelas entrelinhas. Gosto de contar histórias, de um modo que encante e seduza o leitor, e isso compõe o que há de mais verdadeiro em mim.

RM: Como começou e como foi a sua formação?

Sou formada em Letras e mestrado em Literatura Brasileira pela Universidade de Brasília. Publiquei meus primeiros poemas no jornal Correio Braziliense, aos 19 anos. Aos 29, publiquei meu primeiro livro de contos. Aos 30, ganhei meu primeiro prêmio nacional importante e a partir daí não parei mais. Hoje posso dizer que recebi alguns dos prêmios mais prestigiados do Brasil: 4 Jabutis, 3 Prêmios João-de-Barro, Bienal Nestlé, Barco a Vapor, Prêmio APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte), Prêmio Brasília de Literatura e vários selos de Altamente Recomendável da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil.

RM: Como você avalia a movimentação em torno da atividade literária no atual cenário brasileiro? Cite os fatos positivos e negativos.

SM: Há muitas feiras de livro, encontros literários, congressos e oficinas de leitura e escrita. O ponto negativo é o livro e a leitura literária não serem a atração principal em alguns desses eventos. No intuito de atrair o público, muitos organizadores convidam artistas famosos, celebridades, sinalizando que a literatura não atrai por si mesma, que é preciso haver festa e espalhafato, para que talvez o público se aproxime dos livros. Talvez tenham razão de certo modo. No entanto, na minha maneira de pensar, é preciso que haja uma divulgação maior e mais intensa nas escolas, nas universidades e na comunidade em geral, chamando o público por meio de campanhas criativas e poéticas, atraindo as pessoas para a festa e a mágica das palavras. Num bom livro de literatura há música, teatro, cinema, poesia, drama, pintura, todas as artes, enfim. O livro literário é rico e encantador por si só. Um ponto positivo desses eventos é que os autores encontram vários de seus leitores, trocam ideias, estreitam laços de amizade. Outro ponto importante é que os autores reencontram outros escritores, trocam experiências, frustrações e alegrias. O ponto mais significativo é que o objeto livro tem oportunidade de se tornar algo mais próximo das pessoas em geral. Antigamente, era mais difícil a gente ver um autor e conversar com ele. Hoje em dia, tornou-se mais fácil e até comum. É fundamental que essas oportunidades sejam divulgadas com antecedência, atraindo o público de maneira mais inteligente e artística. Uma leitura prévia de livros dos autores convidados seria um modo objetivo e bonito de se divulgar os eventos. Na Feira de Porto Alegre, por exemplo, há adoções e leitura prévia de livros dos convidados, e esse é um dos motivos que fazem dessa feira uma das mais bem-sucedidas do Brasil.

RM: Existe algum segmento da atividade que tenha alcançado o grau de excelência? Qual?

SM: Grau de excelência eu não sei, mas tenho certeza de que as oficinas de leitura e escrita têm estimulado muita gente a ler e escrever melhor.

Um trecho do meu livro “Esses livros dentro da gente”:

“Quem quer escrever, escreve. Principalmente se terminou de ler um livro maravilhoso. Um livro maravilhoso escreve outros livros dentro da gente. É preciso saber ler esses livros dentro da gente”.