A arte de contar histórias

15/8/2015 – 10:51h

Jacqueline Machado Carteri/Bibliotecas do Brasil *

Ouvir e contar histórias é sem dúvida uma das melhores coisas da vida. É inegável que crianças e adultos se encantam com uma história bem contada, seja ela retirada de um livro de histórias ou uma narrativa pessoal de um fato.
A arte de contar histórias é um ato milenar, que reúne pessoas em torno de mensagens, conhecimento e informação desde o tempo onde apenas a oralidade era possível. As histórias aproximam pessoas, desvendam mistérios, compartilham aventuras, medos, angústias e finais felizes. Quando nos reunimos em torno de uma história e seu narrador, compartilhamos sentimentos, nos tornamos sensíveis aos sonhos alheios e dividimos não apenas um espaço, mas as imagens, os pensamentos e as emoções.
Essa introdução confirma muitas das vantagens e a importância da “contação de histórias” nos espaços de educação formal e não formal e que tem como objetivo desenvolver ou incentivar o gosto pela leitura. Vamos salientar e reforçar essa importância através de algumas reflexões.

– Quando contar histórias?
Sempre que quisermos mexer com a imaginação e com os sentimentos de um grupo, podemos contar histórias para aproximar o livro do leitor, divulgar as narrativas escritas de nossa biblioteca ou do nosso espaço de leitura. Na escola podemos contar histórias para abordar um assunto específico, mas, nesse caso, todo cuidado é pouco, pois essa prática não pode se tornar didática demais e causar enfado nos ouvintes ou tirar o prazer da atividade. Podemos contar histórias quando queremos tornar sensível um grupo, aproximar pessoas com um mesmo objetivo, ou que frequentem um mesmo espaço, pois através das histórias as pessoas se identificam e se abrem para ouvir e compartilhar particularidades.
As histórias podem ser contadas como atenuantes de uma dor, de um sofrimento ou de um momento triste. Elas são um bálsamo para os sentimentos mais profundos das pessoas que estão em situação de risco e têm o poder de amenizar a realidade.
As histórias são sempre um momento de prazer, de lazer, de introspecção, de reflexão e por isso é muito importante que os objetivos na hora da contação estejam claros. O contador de histórias precisa ter sempre em mente o que pretende e quais passos irá seguir para a realização de seus objetivos. O planejamento nesse caso é fundamental.

– Onde contar histórias?
O local é importante, pois a atenção deve ser dedicada exclusivamente ao contador e sua narrativa. O local deve ser aconchegante, arejado e limpo, que acolha o ouvinte e transporte-o para o mundo da história, para um cenário particular que será criado a partir da voz do narrador. A imaginação é poderosa e deixar que ela flua livremente é imprescindível. Por isso quando nos deparamos com um contador de histórias e um grupo de ouvintes ao seu redor é comum vermos olhinhos faiscantes e as mais variadas expressões cravadas em suas faces.

– Quem pode contar histórias?
Qualquer pessoa pode contar histórias desde que goste de ler, tenha uma boa dicção, goste de inovar, não tenha medo de errar e tenha sempre em mente que suas palavras terão uma importância enorme, darão vida aos pensamentos de um autor e poderão motivar mudanças significativas tanto para crianças quanto para adultos.
As palavras tornam-se poderosas quando saem dos lábios de um contador, esses maravilhosos profissionais que não medem esforços para dar sentido a uma narrativa. E para que isso aconteça, a pessoa interessada em contação de histórias tem que estar preparada, estudar muito, conhecer seu público, acreditar naquilo que está contando, aprimorar-se constantemente através de cursos, oficinas e da observação de outros profissionais da área que atuam nos mais diferentes espaços. É preciso muita leitura, pesquisa e principalmente a prática, pois a cada vez que contamos uma história nos tornamos mais “donos” dela e fazemos com que ela seja melhor absorvida pelos ouvintes.
Cada um, depois que tiver claro o que deseja do ato de contar histórias, vai criar o seu perfil, vai desenvolver o seu jeitinho e irá encantar de uma maneira só sua. Deixo aqui algumas dicas para quem pretende se aprofundar no tema e desenvolver essa atividade em seu espaço de leitura, em sua escola, em seu grupo, associação, comunidade, etc. A arte de contar histórias tem uma vasta bibliografia e existem diversos cursos oferecidos por profissionais da área, instituições particulares, organizações não governamentais e instituições públicas a fim de formar um número cada vez maior de contadores de história e disseminadores da leitura. Aqui vão alguns títulos, mas é só uma pequena amostra do vasto material que você poderá encontrar na rede. Boas leituras, boas pesquisas e boas histórias!
Livros para se aprofundar na arte de contar histórias:

Contar histórias: uma arte sem idade – Betty Coelho

Metodologia do ensino da literatura infantil – Marta Morais da Costa

Contando histórias, formando leitores – Ana Maria Machado e Ruth Rocha

O ofício do contador de histórias – Gislayne Matos e Inno Sorsy

Contar histórias: a arte de brincar com as palavras – Fabiano Moraes

Em busca do leitor literário: um passeio com chapeuzinho vermelho – Cleber Fabiano da Silva

Textos e pretextos sobre a arte de contar Histórias – Celso Sisto

Manual de reflexões sobre boas práticas de leitura – Daniela B. Yunes, Eliana Versiani e Gilda Carvalho

A leitura e o ensino da literatura – Regina Zilberman

*Jacqueline Machado Carteri é pedagoga e trabalha com projetos de incentivo à leitura há 15 anos.