“Luli uma gatinha da cidade”

5/8/2015 – 10:38h

Livro conta história de uma charmosa felina que decide fugir de casa. O premiado autor argentino Mempo Giardinelli encanta os leitores do início ao fim ao narrar uma jornada repleta de perigos e descobertas.

Para os tempos atuais, quando os animais domésticos estão perdendo cada vez mais a sua liberdade de viverem na condição de simples animais e passam a ser tratados como elementos pretensiosamente incorporados ao modo de viver de seus ‘donos’, o livro “Luli uma gatinha da cidade” tem tudo para ser uma leitura valiosa para as crianças. Através desta história, elas poderão conhecer as angústias de uma gatinha limitada a viver dentro de um apartamento e com pessoas que ignoram sua natureza. Elas apenas a querem por perto. Mas por quê? E para quê?

“De noite, quando as pessoas jantavam e viam televisão, Luli se encolhia no sofá para pensar. Era uma gatinha muito distraída e gostava de pensar sobre o tempo. Imaginava como seria o dia seguinte e o que poderia fazer para não ficar aborrecida. Se lá fora caía uma tempestade, sonhava com um sol amarelo e grandão que não dava para a gente olhar. Se lá fora a noite era tranqüila, imaginava tempestades em que sempre havia um acidente e ela era a heroína que salvava quem estava em perigo. Se se sentia romântica, coisa que acontecia muito, especialmente nas noites chuvosas, imaginava conhecer um cavalheiro educado e gentil, de gorda e peluda cauda e bigodes longuíssimos como agulhas de tricô, que vinha cantar para ela miados de amor. E quando ficava muito aborrecida _ coisa que também era freqüente _ simplesmente pensava em como estava aborrecida. Então, se deprimia um pouco, lambia as costelas um tempinho e dormia pensando em sua mãe e em seu pai, que ela não via fazia muito tempo”.

Este texto que nos embala na leitura, é de Mempo Giardinelli, um extraordinário escritor argentino, respeitado em toda a América Latina. “Luli uma gatinha da cidade” (48 páginas, ilustrações de Luísa Amoroso e tradução de Eric Nepomuceno) é um lançamento da Editora Terceiro Nome e faz parte da Coleção Hermanitos. Por considerar que a literatura é uma forma de conhecer os vizinhos latino-americanos, “Luli uma gatinha de cidade” traz ao final um pequeno texto sobre a Argentina para ser lido pelas crianças. O livro é o segundo da coleção iniciada com “O estádio dos desejos”, do escritor mexicano, também premiado, Juan Villoro, que conta a história de uma seleção de futebol que, embora nunca ganhe uma partida, é amada pela população e faz de tudo para que os jogadores vençam. O próximo lançamento desta coleção, também de Juan Villoro, é “Um taxi para os bichinhos de pelúcia”, ilustrado também por Luísa Amoroso, autora das lindas ilustrações de Luli.

Voltando à história de Luli, chega uma dia que a gatinha cria coragem, consegue fugir e vai viver como sempre quis.

“Luli não gostava da vida que levava naquele apartamento. Já fazia um ano e pouco que aquela rotina a cansava. Ninguém tinha, como ela, vontade de brincar e sempre que se distraía acaba dando algum fora e arrumava confusão. Todos ali eram demasiado sérios, formais, solenes, resmungões e mal-humorados. Ou perigosos, como o caçula da família. E foi assim numa sesta de verão, quando todos tinha ido ao clube tomar sol e se divertir a piscina, Luli resolveu fugir. Por que _ ela disse a si mesma, um tanto filosoficamente _a chatice ali era feroz, a rotina desnecessária e não dava para agüentar o desamor. Tenho que sair, procurar, andar, viver…”

Com muita sensibilidade, o autor conduz o leitor para o ponto de vista do animal e lhe proporciona a oportunidade de refletir sobre a existência dos bichos de estimação criados em casa. Descreve como naturalidade os pensamentos da gatinha e para chamar ainda mais a atenção do leitor interpreta suas atitudes como expressões de emoções e sentimentos bem íntimos.

Luli deixa o apartamento, onde vivia, para trás e inicia suas aventuras na travessia até o ponto em que consegue estabelecer o destino com o qual sonhara: perde-se na mata, fica amiga de uma anta, corre o risco de ser mordida por uma jararaca e se apaixona por Morrongo, um belo gato montês que não lhe dá muita atenção. Aliás, parece que para a gatinha esta foi a melhor parte de suas aventuras, pois realmente conseguiu encontrar o “cavalheiro educado e gentil, de gorda e peluda cauda e bigodes longuíssimos como agulhas de tricô, que vinha cantar para ela miados de amor”  tal como sonhou.

Um pouco mais sobre a obra

Vale acrescentar que com a Coleção Hermanitos a Editora Terceiro Nome pretende apresentar aos jovens leitores brasileiros o que há de melhor na literatura infantojuvenil latino-americana. Idealizada por José Roberto Filippelli, a coleção conta com a parceria do jornalista e escritor Eric Nepomuceno, tradutor de obras de Gabriel Garcia Márquez, Eduardo Galeano e Julio Cortázar, entre outros importantes autores latinos, e que há três anos apresenta o programa Sangue Latino, no Canal Brasil.

O autor Mempo Giardinelli, um dos autores contemporâneos mais importantes e premiados da América Latina, nasceu e vive em Resistência, capital da província do Chaco, no nordeste da Argentina. Suas obras já foram publicadas em mais de vinte países e algumas delas viraram filmes ou séries de televisão, como Luna caliente, que no Brasil foi adaptado para uma minissérie da TV Globo.

Sua província natal, uma das mais pobres da Argentina, é onde ele mantém a Fundação Mempo Giardinelli (FMG), na qual desenvolve diversos programas voltados à formação de leitores. Nesse sentido, um dos programas mais reconhecidos e premiados da FMG é o “Avós Contam Contos” (Abuelas Cuentacuentos), no qual, uma vez por semana, grupos de avós leem histórias a jovens e crianças em escolas e outras instituições em diversas cidades da Argentina. Ao oferecerem apenas tempo e amor, essas avós, em contrapartida, dignificam sua função em uma sociedade que geralmente as coloca de lado.