A necessidade da literatura e o papel da biblioteca

12/11/2015 – 19:38h

Silvia Castrillon (*)

Esta reflexão se propõe a pensar a necessidade da literatura e o papel que a biblioteca escolar pode desempenhar nesse reconhecimento. Assim como a necessidade de que a escola garanta às crianças o acesso à literatura, a uma literatura de qualidade; e ao papel que a biblioteca escolar pode desempenhar nessa direção.

Para começar, gostaria de colocar uma pergunta, que não sei se faz justiça à escola, mas que é a preocupação de muitos: O modelo educacional atual excluiu a literatura, não somente como experiência estética, mas também como objeto de estudo?

Com minhas palavras, desejo prestar homenagem a duas pessoas que não estão mais entre nós, mas que, de formas distintas, foram a vanguarda de uma reflexão sobre a leitura – e, em especial, da literatura. Seus textos nos acompanham e esse é, justamente, um dos valores da literatura. São eles: Bartolomeu Campos de Queirós e a escritora argentina Graciela Montes.

A educação atual em nossos países – e temo que nisso também se manifeste a globalização – tornou supérflua a presença da literatura na sua condição de possibilidade de busca de sentido e como forma de conhecimento existencial. E ainda, o ensino da literatura, como objeto de análise e como fato histórico, passou a segundo plano, para deixar os primeiros postos aos saberes de maior prestígio no mundo contemporâneo.

O modelo educacional é pragmático e utilitário, forma para a competitividade e oferece o sucesso como meta. Um sucesso calcado na acumulação de bens materiais e em dar as costas a quem não o consegue, à maioria, portanto.

Por outro lado, esse modelo privilegia um suposto conhecimento – pragmático e utilitário – que se reduz a um acúmulo de informação. Informação que, segundo esse mesmo modelo, caduca, porque se exige de quem se forma uma permanente atualização – a chamada reciclagem – o que não seria negativo, se reconhecesse e partisse de aprendizados anteriores.

Esse conhecimento proposto pela escola não tem nada a ver com um conhecimento existencial, com uma busca de si mesmo, com uma indagação sobre o sentido da vida, do mundo e do papel de cada um em sua construção. Com um “compreender melhor a vida e a morte”, nas palavras de Fernando Bárcena.

Esse modelo não promove a reflexão, a introspecção, o diálogo interior, a contemplação. Tudo o que não pode ser medido por um número está fora de suas preocupações. E só propõe o caminho fácil, negando a dificuldade.

Supostamente, esse modelo tem como propósito a formação da autonomia e da subjetividade, contudo, essa formação não ocorre a partir do reconhecimento do outro nem da responsabilidade que se tem frente a ele. Pelo contrário: se constrói por meio da competição e da formação de pessoas individualistas, egoístas e, de certo modo, autistas.

Esse modelo privilegia a rapidez e a busca pela novidade, rende tributo à velocidade. Nega a memória como patrimônio que pertence a todos e que se forma mediante o acúmulo. Como diz George Steiner: “hoje, nossa escolaridade é amnésia planejada”.

Valoriza-se, de maneira equivocada, o local e o territorial como forma de enfrentar o global; igualmente, reconhece o multiculturalismo, mas como resposta às políticas de identidade e não como um saudável e necessário reconhecimento da diferença, sem estimular o diálogo entre grupos e culturas. Promove uma estima falsa das culturas populares, étnicas e juvenis, negando condições e valores universais.

Por último, com esse modelo, perdeu-se o valor da palavra, tanto a oral como a escrita. Em um enfrentamento com a imagem, onde os únicos que perdem são as crianças e os jovens que ficam privados da palavra. Tudo o que foi dito anteriormente não pode ser generalizado, pois exceções acontecem, especialmente quando professores e bibliotecários são conscientes dessa realidade e fazem algo para transformá-la.

Tampouco se pode atribuir à escola a responsabilidade por esse modelo, pois a sociedade determina as metas; a sociedade entendida como nação, mas também, a sociedade de um mundo globalizado, onde essas metas são cada vez mais homogêneas.

A biblioteca escolar poderia contribuir com a transformação desse modelo, dando à leitura e à escrita uma dimensão que permita a reflexão, o diálogo e o pensamento, associados à presença da literatura, abrindo tempo e espaço para ela. Fazendo, com os professores, um trabalho em primeira mão de leitura e discussão de textos literários de qualidade, que desse aos clássicos um destaque especial.

Por que a literatura

Não é necessário acrescentar mais evidências, além das reconhecidas por todos, sobre a necessidade da literatura. Somente e, em homenagem a Bartolomeu, gostaria de recordar algumas de suas palavras:

A literatura é capaz de abrir um diálogo subjetivo entre o leitor e a obra, entre o vivido e o sonhado, entre o conhecido e o que ainda está por conhecer; considerando que esse diálogo entre as diferenças – inerente à literatura – nos confirma como participantes de redes de relações; [reconhece] a flexibilidade do pensamento, participa da construção de novos desafios para a sociedade; (…) por sua configuração, acolhe a todos e convoca para o exercício de um pensamento crítico, ágil, imaginativo; (…) a metáfora literária acolhe as experiências do leitor sem ignorar suas singularidades.

Por tudo isso, Bartolomeu propõe que a leitura literária é um direito de todos, que ainda não está escrito. Direito que também reclamou outro grande brasileiro: Antonio Candido.

Ordenação do caos, forma de conhecimento existencial e humano, reconhecimento do outro, estímulo à reflexão, possibilidade de tomar distância diante do mundo, encontro de uma posição, como disse Sartre, entre “um universalismo dogmático e um relativismo pragmático”, forma de tornar própria uma das heranças mais importantes da humanidade – e de conectar-se com ela – de dotar com palavras o silêncio e a angústia das crianças e jovens. A literatura nos oferece tudo isso e muito mais: um prazer que advém de tudo o que foi dito antes. Não é prazer transcendente o que se propõe quando se oferece como forma de diversão ou recreação, como mercadoria ou bem de consumo.

Por tudo isso, a escola deveria ser a “grande ocasión” como diz Graciela Montes e, para tal, segundo ela, deve:

Garantir um espaço e um tempo, textos, mediadores, condições, desafios e companhia para que o leitor se instale em sua posição de leitor (…) (que é uma postura única, inconfundível, que supõe certo recolhimento e um distanciamento, um por-se à margem para, então, produzir observação, consciência, viagem, pergunta, sentido, crítica, pensamento) (…)
A escola deve incentivar as audácias [de crianças e jovens], acompanhar suas dúvidas, contribuir com a sua poética, fortalecer sua qualidade de sujeitos de uma experiência, ajudá-los a ampliar essa experiência, ouvir as narrações, as intervenções, os registros, facilitar seu ingresso ao universo cultural e dar-lhes possibilidades para misturar-se em sua trama…

E, em certa medida: “enfrentar o aluno com a alteridade, com aquilo que não é ele, para que compreenda melhor a si mesmo”, como disse a professora francesa Cécile Ladjali, em um diálogo com George Steiner. Dando, ao mesmo tempo, sentido às palavras silêncio, escuta e cortesia.

Creio nisso e penso que a melhor maneira de consegui-lo é por meio da biblioteca escolar, que está conclamada a realizar um trabalho em sintonia coma a sala de aula e com todos os professores. E é o bibliotecário, leitor convencido da necessidade da literatura, a quem cabe convocar os professores e diretores para esse propósito, se não quisermos que a maioria de nossas crianças seja excluída desse direito à literatura. E à melhor literatura.

(*) Especialista em políticas públicas de apoio à leitura e escrita, trabalha na concepção e implantação de projetos e campanhas de fomento ao livro e à leitura e bibliotecas públicas e escolares.
Texto apresentado na FLIP 2012, na mesa Biblioteca da Escola, promovida pelo Movimento por um Brasil Literário. Publicado na Revista Emília. Tradução de Thaís Albieri.