“Livro impresso dá permanência à obra”

17/12/2015 – 18:08h

Entrevista

Rodrigo Lacerda – escritor, professor, jornalista, tradutor e editor

Rodrigo Lacerda: “Todo livro e todo personagem são resultados de uma grande mistura de experiência e observação”

P: Você escreve romance, contos e obras para crianças e jovens. O que pulsa mais forte?

R: O romance, sem dúvida. A sensação de mergulhar bem fundo, prender a respiração e só respirar mais adiante é a que mais gosto como leitor e, por consequência, como escritor também. Tudo o mais é um pouco acidental. Faço ou por encomenda ou porque nem sempre controlamos o formato daquilo que produzimos. No entanto, meu livro mais bem sucedido é um livro juvenil, “O Fazedor de Velhos”. Mas considero isso uma pequena ironia do destino.

P: Quando começou a escrever?
R: Aos 25 anos, ao fazer um curso de pós-graduação sobre as fronteiras entre literatura e história, fui instado a transformar meu projeto de tese sobre a concepção de destino em Shakespeare em um conto. Assim escrevi o primeiro livro, “O Mistério do Leão Rampante”, e desisti de seguir a carreira de historiador.

P: Você foi uma criança leitora?
R:
Eu diria que fui sobretudo uma criança que gostava de ler e que gostava dos livros. Mas hoje acho que li até pouco e gostaria de ter lido muito mais.

P: De onde vem a inspiração?
R:
De tudo, pessoas, lugares, lembranças, diálogos, histórias etc. Todo livro e todo personagem são resultados de uma grande mistura de experiência e observação. Sem esse liquidificador emocional tanto o livro quanto o personagem soam artificiais, duros e esquemáticos.

P: Você ganhou vários prêmios. Premiação vende livros no Brasil?
R:
Não, não vende. É um mistério, mas não vende. O prêmio serve ao escritor como currículo, como carta de recomendação para convites, bolsas etc, mas não como impulsionador de venda ou da popularidade.

P: Qual é o maior desafio: traduzir ou escrever?
R:
Escrever, disparado, é bem mais difícil. A tradução, por mais complicada que seja, não envolve o enfrentamento da página em branco, o que diminui drasticamente a ansiedade e o desafio. Na tradução, a história, a psicologia dos personagens, já está tudo lá. Enquanto que, ao escrever, você precisa encontrar a emoção dentro de você e a história.

P: Quem são seus escritores preferidos?
R:
João Ubaldo Ribeiro, Eça de Queiroz, William Shakespeare e William Faulkner. Em diferentes momentos da vida, todos eles mudaram minha visão de mundo, minha compreensão das coisas. É mais do que gostar dos livros, eles tiveram um impacto real na minha vida como um todo.

P: Como incentivar crianças e jovens, nativos digitais para a leitura?
R:
O primeiro passo é não ter preconceitos contra o que eles gostam de ler para que eles não nos devolvam o mesmo preconceito. O segundo passo é não apresentar a literatura como um jogo de cartas marcadas, regido por um cânone rígido e sim apresentá-la como o que ela realmente é: um território fluido de afinidades eletivas, no qual eles terão sempre a liberdade de dizer “Não gostei”, mesmo que se trate de um grande autor consagrado ou de um clássico.

P: Acha que essa nova geração vai deixar o livro impresso de lado?
R:
Duvido muito. Há anos se fala disso, mas continuamos produzindo mais e mais livros impressos. Acho que para se acreditar nisso teríamos de ser um pouco autistas. Basta ver que mesmo os autores que nascem e constituem leitores nos seus blogs veem como um ritual de passagem importante o momento em que têm seu primeiro livro impresso. O livro dá uma permanência à obra.

P: A escola ou a família influencia mais o hábito de leitura?
R:
Ambos influenciam e, ao mesmo tempo, ambos são impotentes, caso o jovem não tenha vocação para ler. Mas é um trabalho conjunto. O que não dá é pai e mãe que dizem ser importante ler, mas eles mesmos não lerem. Assim como não dá para a escola tentar impor hierarquias literárias muito rígidas, que não guardam espaço para as afinidades eletivas de que falei.

P: O que acha da literatura infantil e juvenil brasileira?
R:
Acho boa. No caso da juvenil, contudo, acho que subestima um pouco o fôlego leitor dos nossos jovens. Jamais um autor brasileiro faria um Harry Potter, com 500 páginas, centenas de personagens, dezenas de tramas embricadas etc. Subestimamos a inteligência dos jovens apesar de todas as demonstrações de que poderíamos exigir mais deles.

P: Como você vê o interesse despertado pela ilustração de livros infantis agora até como categoria do Jabuti? Como foi a experiência de participar da última Bienal como curador do Café Literário?
R:
Foi divertido. Vivo muito sozinho, trabalhando em casa, e foi bom entrar em contato com tantas pessoas, fazer convites a artistas que eu admirava sem conhecer pessoalmente etc. Foi uma boa experiência.

P: Para você, escrever é uma tarefa solitária ou você consegue escrever durante a rotina diária?
R:
Sim, é solitária. Mas eu gosto disso. Enquanto trabalhava dentro de editoras, sempre tive a sensação de que a parte mais desgastante não era o trabalho em si, mas lidar com as neuroses alheias – a competição, as inseguranças etc. E também prefiro trabalhar em casa, porque jogo com o tempo com mais liberdade, trabalhando nos meus livros na hora em que bate a vontade e não nos restos do dia após o expediente.

P: Qual é o seu grande sonho na literatura?
R:
Meu grande sonho? Acho que já tive grandes sonhos. Agora não mais, quero só me divertir e me desafiar sempre. Gosto de mudar meu jeito de escrever constantemente.

Fonte: Ivani Cardoso – Fonte: Publishing Perspectives/Contec Brasil