Dia de proclamar o direito ao livro

15/4/2016 – 22:29h

Na abertura da 5ª Bienal do Livro de Minas Gerais, Rosana Mont´Alverne, presidente da Câmara Brasileira do Livro, entidade responsável pelo evento, homenageou o patrono Murilo Rubião e defendeu que o direito ao livro e à leitura, especificamente, deveria ser previsto na Constituição Federal, no rol dos direitos e garantias fundamentais. O blog divulga a íntegra do pronunciamento:

Rosana Mont´Alverne Neto *

Para tudo há uma ocasião e um tempo para cada propósito debaixo do Céu: tempo de nascer e tempo de morrer, tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou; tempo de matar e tempo de curar, tempo de derrubar e tempo de construir; tempo de chorar e tempo de rir, tempo de prantear e tempo de dançar, tempo de espalhar pedras e tempo de ajuntá-las, tempo de abraçar e tempo de se conter; tempo de procurar e tempo de desistir, tempo de guardar e tempo de lançar fora; tempo de rasgar e tempo de costurar, tempo de calar e tempo de falar; tempo de amar e tempo de odiar, tempo de lutar e tempo de viver em paz.

Que bela literatura há na Bíblia! Seus versos sempre me socorrem, desde as dúvidas mais simples às mais agudas preocupações. O fato é que vivemos tempos graves, sombrios, chegamos mesmo a duvidar se é hora de rasgar ou costurar, se de calar ou falar ou se é tempo de chorar ou de rir. Ou de rir para não chorar.

Pesquisando, descobri que o escritor Murilo Rubião, Patrono da 5ª Bienal do Livro de Minas, costumava abrir cada um dos seus contos com uma epígrafe da Bíblia. Disse em sua última entrevista (publicada na Folha de São Paulo de 5 de outubro de 1991) que só citava versos do “Antigo Testamento, que é exatamente o mais mitológico, o mais forte e de uma religiosidade violenta… Não tem aquela coisa de multiplicar pães nem peixes. E aquela violência das profecias, do mundo acabar, do castigo, de Deus castigar violentamente os infiéis, um Deus que expulsa Adão e Eva do paraíso, que é pouco compreensivo, mas autêntico”.

Há hoje quem deseje esse Deus bem severo a lançar raios exterminadores sobre aqueles que insistem somente na desagregação e no ódio. Outros, mais delicados, prefeririam outro tipo de raio, aquele raio ordenador a que se referiu Drummond em seu poema “Prece de um mineiro no Rio”. Ambos autênticos, como queria Murilo Rubião.

“Acredito que a literatura pode ajudar a manter vivo o desejo de inventar outra história para uma nação e outra utopia como saída”, disse o escritor moçambicano Mia Couto, quando meditava sobre uma nação leitora como utopia.

Também o escritor francês Daniel Pennac nos lembra em seu delicioso livro “Como um romance”, Editora Rocco: “O verbo ler não suporta o imperativo. Aversão que partilha como alguns outros: o verbo amar… o verbo sonhar… Bem, é sempre possível tentar, é claro. Vamos lá: ‘Me ame’! ‘Sonhe’! ‘Leia’! ‘Leia logo, que diabo, eu estou mandando você ler’! ‘Vá para o seu quarto e leia’! Resultado? Nulo”.

Pennac é um autor que defende a leitura como um direito, não como um dever.

Tenho visto inúmeras iniciativas de promoção da leitura pelo país. Fala-se muito em “prazer de ler”, “paixão de ler”, “viajar na leitura”, significados que, sem dúvida, combinam com o leitor pronto, o leitor que já escolheu ser leitor. Preocupa-me o ainda não leitor, aquele que desconhece o seu direito à leitura. Aliás, nos tempos corridos de hoje, até os leitores “veteranos” precisam ser lembrados desse direito. Quem já não sentiu uma ponta de culpa por dedicar algumas horas a um livro em um dia de semana?

Galhofa à parte, a leitura como um direito precisa entrar na pauta nacional de debates da cultura, da educação e da inclusão social. Num país onde 60% da população não lê nem um livro por ano, as políticas públicas do livro e da leitura não podem sofrer cortes, retrocessos, suspensões ou mesmo encerramentos. Antes, precisam ser ampliadas, fortalecidas e diversificadas. Penso mesmo que o direito ao livro e à leitura, especificamente, deveria ser previsto na Constituição Federal, no rol dos direitos e garantias fundamentais.

A Câmara Mineira do Livro vem acompanhando com muito interesse tudo o que se produz sobre indicadores e estratégias de promoção e mediação de leitura. Temos permanente diálogo com as Secretarias de Estado da Cultura e da Educação e com os órgãos de educação e cultura dos municípios, além dos pleitos que temos levado aos Ministérios da Cultura e da Educação. Nosso objetivo é contribuir na elaboração e implantação de políticas públicas de caráter permanente, concernentes à cadeia produtiva do livro, à aquisição de obras literárias e sua distribuição nas escolas e bibliotecas, além da sistematização do apoio às feiras e festivais literários e aos diversos programas de incentivo e formação de professores, bibliotecários e mediadores de leitura.

“As coisas mudam no devagar depressa dos tempos”, disse Guimarães Rosa. 45 anos depois da criação da Câmara Mineira do Livro, aqui estamos lutando pela mesma causa. Há muito ainda a fazer e desejo que não nos falte alegria e coragem para seguir acreditando na utopia de um país leitor. Já disseram que as utopias servem para isso: para nos fazer caminhar. Parece que está funcionando. Continuamos caminhando, recolhendo as pedras do caminho, semeando e observando o crescimento do que se plantou.

Estejam certos de que o que aqui se realiza é algo de grandioso, importante, cujos efeitos positivos transcendem e muito os 10 dias de realização desta Bienal. Aos apoiadores e patrocinadores quero dizer que vale cada vez mais a pena apostar em um país leitor, vale a pena acreditar nas possibilidades de um livro aberto nas mãos de crianças, jovens e adultos. Vale a pena acreditar na literatura como caminho cidadão. Vale a pena continuar preservando.

Se em algum momento da história o equívoco humano foi capaz de levar o planeta e as sociedades ao ponto crítico em que se encontram, talvez seja chegada a hora de refletir e agir em torno da mensagem de esperança que nos legou Fernando Brant, o nosso poeta de tanta saudade: “ Vou seguindo pela vida/ Me esquecendo de você/Eu não quero mais a morte,/Tenho muito que viver/Vou querer amar de novo/E se não der não vou sofrer/Já não sonho, hoje faço/Com meu braço meu viver”.

* Presidente da Câmara Mineira do Livro