“Filhos de Peixe”

18/5/2016 – 20:53h

O título acima é de um livro que será lançado no dia 22 de maio, próximo domingo, às 10h, durante a Primaverinha dos Livros, promovida pela LIBRE, no Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Estará a venda no estande da Editora Mar de Ideias ao longo do evento e poderá ser encomendado na editora ou em suas distribuidoras após a data.

Até aí, a notícia parece corriqueira. Mas daqui prá frente, o leitor vai perceber que por trás dela tem uma ideia muito legal de incentivo para o surgimento de novos autores, além de uma rica oportunidade de interação entre familiares. São 10 autores mirins, sendo 9 escritores de até 12 anos de idade e um ilustrador de 14 anos. E oito deles já confirmaram presença no lançamento, quando darão autógrafos e falarão sobre seus processos de criação _ está descrito o incentivo.

O que ainda não foi dito ainda é que essas crianças escreveram ao lado de uma espécie de personal-editor e, segundo o dono da boa ideia, o escritor Alexandre de Castro Gomes, presidente da Associação de Escritores de Literatura Infantil e Juvenil (AEILIJ), essa é a maior diferença entre este livro e outros escritos por crianças: um livro com textos escritos por filhos e netos de autores renomados: “Aproveitamos a experiência dos pais e avós na criação dos textos. Não para ditar os rumos das histórias, até porque o que me interessava era justamente as soluções criadas pelos autores mirins, mas para orientar sobre estrutura narrativa, vícios de linguagem, repetições e passagens desnecessárias que podem alterar o ritmo da leitura.  Os pais e avós foram os primeiros revisores”, explica.

O escritor cita a experiência com sua filha: “É natural que os filhos queiram experimentar o trabalho dos pais. Foi assim aqui em casa. Minha filha Nina criou seu primeiro livro aos 5 anos de idade. Ela desenhou uns monstrinhos, grampeou tudo e me contou a história até o fim, apontando para cada desenho enquanto me ditava maravilhas inocentes. Passou anos me pedindo ajuda para publicar. Mudou uma coisa ou outra. Trocou o título, deu outro destino aos personagens, desenvolveu a trama. No final tinha um texto inteligente, engraçado e muito interessante. Nesse meio tempo dei sugestões. Falei sobre a importância de trabalhar a construção do enredo, incluindo apresentação, conflito, clímax e desfecho”.

E conta como surgiu a ideia de “Filhos de Peixe”: “No final do ano passado encontrei a editora Daniella Riet em um lançamento e comentei sobre o texto da minha filha. Na hora pensei na autora Alessandra Roscoe, que publicou uma obra junto com sua filha mais velha. Sugeri que lançássemos um livro com textos escritos por filhos e netos de autores. Busquei autores amigos com filhos de até 12 anos de idade. Convidei meu filho Guigo para ilustrar. O resultado é um livro que combina a imaginação infantil com a experiência dos veteranos. Uma obra sem similar no Brasil, que surpreende pela ousadia e pela qualidade literária”, conclui o escritor.

Quem são os pequenos escritores e seus personal-editors

Nina Gomes lida com o bullying através do humor negro (O menor monstro do planeta Rof). Filha do escritor Alexandre de Castro Gomes e da ilustradora Cris Alhadeff.

André Cunha, em um texto muito bem humorado, compara uma tartaruga a um abacaxi (A tartaruga que confundiu o pai com um abacaxi). Filho do escritor Leo Cunha.

Amelie Nina descreve a versão da maçã de uma história que já ouvimos falar (A famosa maçã da princesa).  Filha de Cláudia Nina.

Nina Krivochein descobre uma barata super diferente (Bete, a barata). Filha de Joana Cabral.

Olívia Milliet Lisboa apresenta um mundo perfeito para uma criança com baixa tolerância à lactose (Olivialândia). Neta de Luiz Antonio Aguiar.

Lucas Benevides nos presenteia com uma prosa poética (Leandro, seu macaco João e a história da fruta-pão).  Filho de Ricardo Benevides.

João Victor Souza nos envolve com o mistério de uma moeda (O tesouro de Tom). Filho de Otávio Cesar Jr.

Luiza Roscoe Cavalcante revela o sonho de estrelas (A estrela do mar que não sabia nadar e nem queria).  Filha de Alessandra Roscoe.

Guilherme Albuquerque é chegado em um cachorro falante (Barney, o cachorro poliglota). Neto de Luciana Savaget.

Guigo trabalha ângulos diferentes e tempera tudo com cores e sombras, mostrando uma técnica admirável. filho da ilustradora Cris Alhadeff e do escritor Alexandre de Castro Gomes.

O pequeno escritor Dedé e seu 'personal-editor', papai Leo Cunha - Foto: Divulgação

Literatura pulsa na família

O escritor, professor e jornalista Leo Cunha, nome consagrado na literatura infantil e para jovens, é filho de Antonieta Cunha, outra referência no Brasil. Ela é doutora em literatura, foi professora universitária até se aposentar na UFMG. Escreveu vários livros didáticos e teóricos. Foi fundadora e proprietária da livraria e da editora Miguilim, das quais se desligou há mais de 20 anos. Continua atuando, eventualmente, como editora. Foi criadora e primeira diretora da Biblioteca Pública Infantil e Juvenil de Beagá. Foi Secretária Municipal de Cultura, de BH, em duas oportunidades.  A irmã de Leo, Ana Carolina Antunes Cunha de Oliveira (ela assina as traduções como Ana Carolina Oliveira) também está na área da literatura: é tradutora e já traduziu vários livros, para editoras como Autêntica, Record, Dimensão, Nemo, Rovelle, entre outras.

A revelação, agora, é André Cunha, filho que o Leo chama carinhosamente de Dedé: ele tem 7 anos e é o caçulinha. O pai conta que desde os 2 anos ele estuda no Balão Vermelho, escola que valoriza muito as artes, e em especial a literatura. Todo ano tem uma Feira de Livros muito bacana no Balão, a “Giroletras”, e a diretora da escola já convidou o Dedé pra fazer um lançamento do “Filhos de Peixe”, na próxima edição da feira.

Leo prossegue: “Costumo ter um pé atrás com livros publicados por crianças. Nem sempre funciona, a meu ver, pois as crianças são muito imaginativas, criativas, divertidas, mas não têm ainda traquejo na construção de um texto literário: como elaborar a estrutura narrativa, os personagens, a linguagem. Por isso achei muito interessante a ideia do Alex Gomes, de reunir vários filhos (ou netos) de escritores e propor que cada um escrevesse uma história, mas com o acompanhamento do escritor da família. É isso que eu tenho chamado, na brincadeira, de “personal editor”: cada criança teve alguém bem próximo – pais ou avós – que pôde dar essa consultoria e ajudar na condução do texto. O mesmo valeu para o Guigo, que fez as imagens, pois a mãe dele é a ilustradora Cris Alhadeff”.

Dedé e Leo

Enquanto Dedé ia criando e escrevendo sua história “A tartaruga que confundiu o pai com um abacaxi”, o pai explica que foi fazendo perguntas e provocações para ele: “assim como faço em oficinas literárias para crianças. Coisas do tipo: onde a personagem (a tartaruga) estava? O que ela pensou nesse momento? O que aconteceu então?”

Por outro lado, Dedé gostou da experiência: “Achei muito legal, porque eu ainda estou começando a escrever e já escrevi uma história pra um livro. Na escola, eu já escrevi histórias também, mas é em grupo. A gente faz recontos de livros. Alguns colegas e pais dos colegas já leram minha história e gostaram muito”.

Dedé é um bom leitor e aponta os livros que mais gosta: os dos irmãos Grimm, “Histórias de bobos, bocós, burraldos e paspalhões” (Ricardo Azevedo),  “As aventuras do pequeno Nicolau” (Sempé e Goscinny) e  “Vira-lata” (do meu pai, junto com o Luiz).

Sobre a expectativa de Dedé ou a filha Sofia também se alinharem com a literatura conforme parece ser a tradição familiar, Leo explica: “Eu já adianto que não tenho expectativa de que o Dedé ou a Sofia (que já está com 16 anos) venham a ser escritores quando adultos. Ambos gostam de livros, filmes, música, mas não vejo neles – ainda, pelo menos – o prazer imenso que eu tenho em criar histórias, poemas ou crônicas, o gosto de ficar horas a fio pensando numa frase, num personagem, no ponto de vista de uma narrativa. A Sofia é uma grande contadora de causos, mas acho que o talento dela é mais teatral do que literário”.