“Bárbara”

Este é o nome de um conto de Murilo Rubião em versão ilustrada pela mineira Marilda Castanha. No estilo de literatura fantástica e com as belas metáforas visuais da artista, o livro foi lançado no final do ano passado pela Editora Positivo especialmente para os jovens leitores.

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Imaginem uma mulher que tem fome insaciável de coisas. Esta mulher é Bárbara que só sabe querer, pedir e engordar. Agora, imaginem o seu marido. É ele quem narra a história e relata detalhadamente cada pedido da esposa. Movido por um amor igualmente estranho, o marido esforça-se de todas as formas para atender os desejos de sua amada. Esta é a base do conto “Bárbara” de Murilo Rubião.

Na visão da poetisa e mestre em Literatura e Crítica Literária, Mariana Ianelli, que prefacia o livro, o conto bem que poderia ter um dos dois títulos: “Uma história de sombras” ou “A fábula de um amor louco”.

Observem o primeiro relato do marido:

“Por mais absurdo que pareça, encontrava-me sempre disposto a lhe satisfazer os caprichos. Em troca de tão constante dedicação, dela recebi frouxa ternura e pedidos que só renovavam continuamente. Não os retive todos na memória, preocupado em acompanhar o crescimento do seu corpo, se avolumando à medida que se ampliava a sua ambição. Se ao menos ela desviasse para mim parte do carinho dispensado às coisas que eu lhe dava, ou não engordasse tanto, pouco me teriam importado os sacrifícios que fiz para lhe contentar a mórbida mania”.

Grávida, a esposa “Bárbara” pediu ao marido o oceano. Ele foi buscar.

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“Não fiz nenhuma objeção e embarquei no mesmo dia, iniciando longa viagem ao litoral. Mas, frente ao mar, atemorizei-me com seu tamanho. Tive receio de que a minha esposa viesse a engordar em proporção ao pedido e lhe trouxe somente uma pequena garrafa contendo água do oceano”.

Este marido assustado ainda teve que atender a outros pedidos. Imaginem como ele se virou para levar um baobá para a esposa! Mesmo depois de o filho nascer, Bárbara continuou exigindo excentricidades do marido. “Dizem dos contos de Murilo Rubião que são fantásticos, misteriosos, absurdos, maravilhosos. Não menos misteriosos e absurdos do que a vida, diria o próprio autor”, afirma Mariana Ianelli.

Segundo ela, “isso é o que percebem aqueles que, em seu livre entendimento, não deixam brigar entre si fantasia e razão: que nos contos de Murilo tanto quanto na vida, o fabuloso é dado por nossos olhos, pela intensidade com que temperamos as histórias que nos acontecem, numa realidade que sempre se desenha em parceria com nossa imaginação”.

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A ilustradora

Marilda Castanha é natural de Belo Horizonte, onde estudou Belas Artes na Universidade Federal de Minas Gerais. Ela começou a ilustrar livros infantis no final dos anos de 1980. Em 1997, participou de um Seminário de Ilustração na Bratislava (capital da Eslováquia). Ilustrou vários autores, participou de exposições e, em 2000, ganhou o prêmio “Runner Up” Japão), “Prix Octogone” (Paris) e “Jabuti” pela ilustração do livro “Pindorama, terra das palmeiras”. Em 2011, ganhou novamente o Prêmio Jabuti com o livro “Mil e uma estrelas”. Também participou de várias mostras da exposição “Le Immagini della Fantasia”, em Sármede, norte da Itália. Este ano, foi a única representante do Brasil selecionada na primeira fase do “Nami Concours 2017”, um concurso internacional que, a cada dois anos, seleciona e premia os maiores expoentes dos livros ilustrados do mundo. Marilda Castanha participa do concurso com o livro de imagens “Sem fim”, Editora Positivo.

A ilustradora mora na cidade mineira de Santa Luzia com o marido Nelson Cruz, que também é ilustrador, e seus dois filhos.

Por email, entrevistei Marilda Castanha sobre sua experiência de ilustrar um conto de Murilo Rubião.

2. Marilda Castanha

A entrevista

Rosa Maria: Comente sobre este conto e sobre Murilo Rubião. 

Marilda Castanha: Murilo Rubião, para mim, é um autor que quando se descobre não esquece nunca! Lembro de ter lido, entre outros contos, “O Pirotécnico Zacarias” e “O Ex-Magico da Taberna Minhota” ainda adolescente, nos tempos de colégio. Fiquei impressionada. Hoje, percebo que o universo fantástico, em seus contos, soa como uma metáfora de temas ao mesmo tempo corriqueiros e atemporais. E o conto “Bárbara”, que ilustrei, é exatamente isto: uma metáfora de alguém que é puro desejo, que não se sacia jamais. E que se alimenta destes mesmos desejos. Isto em contraposição a outro exagero, que é o amor desmedido do marido, que tudo faz para agradá-la. É um conto de uma lucidez tamanha. Mesmo tendo sido escrito há quase 70 anos é atual, contemporâneo.

 

RM: Como você analisa a “literatura fantástica” com o qual o trabalho deste autor é qualificado?

MC: Penso que todos nós, sem exceção, vemos, ou mesmo vivemos no dia a dia com uma realidade que muitas vezes é tão absurda que parece pura imaginação.  Ou seja, o princípio da literatura fantástica é este incômodo ou espanto diante da própria realidade. Quem não conhece alguém que muda a personalidade, como esta mulher Bárbara que rejeita o filho, porque este não foi fruto de um desejo seu? A literatura fantástica, ou realismo mágico, consegue ser, ao mesmo tempo, real e imaginária. E como a leitura dos contos de Murilo Rubião desencadeia imagens surpreendentes, é muito instigante, para um ilustrador, compor, organizar e dar visibilidade para estas imagens.

 

BarbaraRM: Como o conto pode surpreender a criança ou jovem?

MC: Penso que pode surpreender todo mundo: criança, jovem e adulto. Principalmente o jovem e o jovem de hoje. De certa forma, este jovem já é atraído por uma avalanche de personagens literários incomuns (como vampiros, bruxos, etc). Mas diante do universo de Murilo Rubião ele não vai encontrar uma galeria de personagens extravagantes, “fantásticos”. E sim personagens que são pessoas comuns que repentinamente cruzam com situações aparentemente inacreditáveis, surreais, dentro de certa “normalidade”. Tudo isto com um texto primoroso, extremamente cuidado. Um universo muito rico onde Telecos, mágicos, pirotécnicos e edifícios poderão ser chaves para, no mínimo, nos espantarmos (e às vezes nos encantarmos) não só com o mundo criado por Murilo Rubião, mas com o mundo em que vivemos.

 

RM: Como foi ilustrar o livro e qual foi o estilo que adotou?

MC: Foi muito prazeroso. Na verdade, ilustrar um conto dele era um sonho antigo. Como comentei acima, é um universo muito rico em imagens. E gosto muito de trabalhar com metáforas visuais. Foi isto que fiz. Trabalhei com tinta acrílica e pastel oleoso. Usei também, como pesquisa, fotos de época (anos 40). E o tempo todo eu fazia perguntas para mim mesma para tentar entender o conto e achar imagens que o traduzissem.

Para finalizar recomendo, não só a leitura de todos os contos de Murilo Rubião (Obras completas, Cia das Letras) como também os outros contos desta  trilogia ilustrada: “Teleco o coelhinho” (Odilon Moraes) e o “Edifício”, (Nelson Cruz) todos da Editora Positivo.

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