“Teleco, o coelhinho”

Este é um conto ilustrado que trata da existência humana e as transformações possíveis para cada um conseguir suportar, viver ou até mesmo sobreviver de acordo com as circunstâncias do dia a dia.

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O conto é de Murilo Rubião. A ilustração é de Odilon Moraes. O lançamento é da Positivo. “Teleco, o coelhinho” faz parte de uma trilogia desta editora, de Curitiba, que contempla ainda “O edifício” e “Bárbara” ambos de Murilo Rubião, considerado o precursor da literatura fantástica do Brasil, e ilustrados respectivamente por Nelson Cruz e Marilda Castanha.

Entre os diferenciais das publicações está justamente o formato, ou seja, a ilustração e o projeto gráfico contribuem para ampliar ainda mais o peso das obras. Segundo Cristiane Mateus, Editora de Literatura da Positivo, o objetivo do lançamento da trilogia é aproximar ainda mais as novas gerações da obra deste escritor mineiro e do seu gênero literário, além de estimular o gosto por este tipo de leitura entre o público jovem e adolescente.

Assim começa a apresentação do livro elaborada pela escritora, pesquisadora e professora Nilma Lacerda para “Teleco, o coelhinho”.

“Como era você ao acordar pela manhã? A mesma pessoa de sempre ao espelho? E um pouco mais tarde? Passou do mau humor terrível com que acordara a um estado de total felicidade, por que uma borboleta azul entrou pela janela da cozinha? Ou saiu de um bom humor incrível para um ódio geral à humanidade, por estas coisas tão comuns e que nos fazem passar de cãozinho afável a tigre enjaulado?”

“Em geral, não nos damos conta, mas um dia inteiro pode mostrar que existe em nós o médico e também o monstro. E a mudança pode ser tão rápida que as pessoas duvidem dela. Mas duvido que, por mais mudanças que possa haver, consiga ser como Teleco, um personagem instigante que um dia aparece na vida de um sujeito pacato”.

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O personagem é de fato instigante: um coelho que fala, engana pelo olhar manso e triste e sabe tomar decisões, entre elas a de aceitar o convite de um homem solitário para viver no apartamento dele. Mais: é capaz de se transformar em vários animais. Quer mais? No corpo de um canguru, ele apaixona-se por uma humana e é correspondido.

Este é Teleco. Ele vai viver uma aventura cada vez que deixar de ser coelho para ser outro bicho. O ilustrador Odilon Moraes criou um coelho que se apresenta com muita naturalidade independente de ser canguru ou outro bicho qualquer. Esta naturalidade também se vê na forma como Murilo Rubião fala das mudanças do personagem.

“Depois de uma convivência maior, descobri que a mania de metamorfosear-se em outros bichos era nele simples desejo de agradar ao próximo. Gostava de ser gentil com as crianças e velhos, divertindo-os com hábeis malabarismos ou prestando-lhes ajuda. O mesmo cavalo que, pela manhã, galopava com a gurizada, à tardinha, em lento caminhar, conduzia anciãos ou inválidos às suas casas”.

Coelho e o homem solitário viveram muito bem durante um ano até que a necessidade de mudança fez Teleco se transformar num canguru apaixonado e levar sua amada para morar junto com eles no mesmo apartamento. O homem solitário se apaixona também. Cheio de ciúmes e atormentado pelo desprezo da amada, que prefere o animal, o homem sente vontade de tirar coelho de circulação. Será?

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O ilustrador

Odilon Moraes é graduado em Arquitetura pela USP. Ele iniciou sua atuação em literatura como ilustrador no ano de 1990. Recebeu dois prêmios Jabuti pelas imagens de “A saga de Sigfried” em 1994 e “O matador” em 2009. Em 2002, escreveu seu primeiro livro ilustrado “A princesinha medrosa”, que recebeu o prêmio de Melhor Livro do Ano para Crianças da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ). Em 2004, recebeu novamente o prêmio de Melhor Livro do Ano para Crianças com a obra “Pedro e Lua”. Em 2012, seu livro “Traço e Prosa” recebeu o prêmio Melhor Livro Técnico do Ano também pela FNLIJ.

Este ilustrador possui vários livros agraciados com o selo “White Raven” da Biblioteca Internacional do Livro para Crianças de Munique. Em 2014, ele entrou para a lista de honra do International Book Board for Youth (IBBY). Desde 2005, Odilon Moraes realiza palestras e oficinas; escreve artigos sobre história e conceito do livro ilustrado em instituições como o Instituto Tomie Ohtake, Fundação Lasar Segall, Instituto Europeu de Design e Sesc; mais recentemente, Instituto Vera Cruz e Unicamp.

A entrevista

Rosa Maria: Comente sobre este conto de Murilo Rubião.

Odilon Moraes: Acredito que em um conto ilustrado há sempre duas histórias: a do texto escrito pelo escritor e a outra construída pelas imagens que são a interpretação que o ilustrador faz da história. Em nossa interpretação, jogam os limites de nossas experiências pessoais. Teleco é o tipo de conto que pede muito de seu intérprete. Pode significar muita coisa aos olhos de pessoas diferentes. É a história de uma metamorfose, tal qual a barata / besouro / inseto de Kafka. Nosso personagem bicho também não é o senhor de sua transformação e vive o desespero dessa condição. Para alguns pode ser lido como a perda de uma identidade. Para outros é a própria busca dela. O que mais me impressionou em Teleco foi a maneira natural com que Murilo Rubião construiu seu universo fantástico. Não nos interrogamos sobre o fato de um coelho pedir um cigarro a um transeunte. Aceitamos o fantástico com a naturalidade do cotidiano, até que, pouco a pouco, vamos sendo sufocados por ele. Quando nos damos conta já nos tornamos o próprio Teleco.

RM: Como você analisa a literatura fantástica com a qual o conto deste autor é qualificado?

OM: Não sou especialista na obra de Murilo Rubião e tampouco na chamada literatura fantástica, mas pude sentir em alguns poucos contos que li o que mencionei anteriormente a respeito do Teleco. Não sei se isso se aplicaria a toda a sua obra, mas fui envolvido pela maneira que ele constrói o fantástico com o sabor de quem narra o cotidiano. Nos faz aceitar com naturalidade essa supra-realidade.

RM: Como a literatura pode surpreender a criança ou jovem?

OM: Não acho que esse conto seja mais ou menos adequado para certa faixa etária. Entendo como uma grande qualidade de um bom texto literário a possibilidade de ganhar outro sentido à medida que o tempo passa e nós, leitores, também nos tornamos outros. Só textos fracos não permitem isso. E esse não é o caso de Teleco.

thumbnail_TELECO-O-COELHO (1)RM: Como foi ilustrar “Teleco, o coelhinho” e o que você adotou?

OM: Procurei guardar o ritmo do texto ao longo do livro. Também tentei criar um aspecto de naturalidade no personagem que, seja com coelho, canguru ou outro bicho qualquer parece se integrar naturalmente à cena do cotidiano. Mas o que significa ritmo de um livro? É a maneira como as palavras do texto e as imagens vão se entrelaçando ao longo das páginas. É quando ambas parecem querer conduzir juntas a narrativa. A isso se dá o nome de livro ilustrado ou álbum ilustrado. Alguém já disse que se parece com cinema encadernado. Gostei da definição. Penso que ao invés de fazer um filme (a história deve dar água na boca de vários cineastas) fiz meu cinema encadernado. Só espero que as pessoas não digam “o  livro é melhor que o filme”. Gostaria que as pessoas entendessem a tentativa de amarrar as imagens e entrelaçá-las nas palavras.

O projeto Murilo Rubião, publicado pela Editora Positivo e ilustrado por três ilustradores diferentes, foi um exercício também de curiosidade. Além de dividirmos a mesma profissão, somos também unidos pela amizade. Fiquei muito curioso sabendo que, enquanto eu trabalhava em meu conto, Nelson Cruz e Marilda Castanha também eram desafiados por Murilo Rubião. Fiquei o tempo todo na expectativa de ver o que estariam aprontando lá pro lado deles e imagino que o mesmo se passou do lado de lá.

3 pensamentos sobre ““Teleco, o coelhinho”

    • Paula, como vai?
      Toda boa leitura nos leva a uma reflexão.
      Sugiro você convidar outra pessoa para ler a história e trocar ideia com ela.
      Vocês poderão ter uma conclusão diferente da minha, porém, será mais importante, pois foi uma descoberta de vocês.
      Parabéns por ter lido o livro. Murilo Rubião foi um grande escritor.
      Um abraço

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