Sandra Lane: encanto da contadora de histórias

A imagem de contadores de histórias remete as crianças para o mundo das fantasias. As roupas, adornos, objetos cênicos, a voz, a música _ nada pode tirar o brilho das histórias, mas são recursos para conduzirem a plateia para os sonhos, a alegria, o encantamento que, mais tarde, vão resultar numa paixão pelos livros. Hoje, o blog apresenta uma matéria com Sandra Lane de Oliveira Marques, uma pessoa muito especial, com uma bela história de vida e principalmente muito comprometimento com a sua profissão. Afinal, como é ser e viver como uma contadora de histórias infantis?

Sandra Lane pronta para uma apresentação

Sandra Lane pronta para uma apresentação

“Não muito raro de acontecer, as pessoas quando me veem contando histórias, acham-me mais jovem e mais bonita do que no dia a dia. Ao refletir sobre isso, penso que muito mais do que um figurino ou uma boa maquiagem é o encantamento do tempo do “Era uma vez…” Esse momento mágico que é evocado na contação de histórias, carrega em si uma aura que nos transforma aos olhos de quem nos vê e na fantasia que o coração do ouvinte deseja. Por isso, acredito que o vestuário de um(a) contador(a) de histórias deve estar em sintonia com os seus sentimentos e ao propósito a que se destina.”

Como você escolhe seus trajes?

“Eu aposto na simplicidade. Não gosto de figurinos que chamem mais atenção do que a história que proponho contar. Os meus figurinos buscam uma   atmosfera de encantamento. Tenho cuidado com os excessos, pois eles podem induzir a plateia a prestar atenção neles, fazendo-a  se dispersar com o fundamental: a história. Além da simplicidade, os meus figurinos trazem em todos, ou em alguns desses, as seguintes alusões: a água (representada nas conchas, flexibilidade e nas cores azul e branco); o ar (por meio da leveza dos tecidos) e  Minas Gerais (nos detalhes artesanais”).

“Já tive o privilégio de ter figurinos elaborados pelos artistas Iasmim Marques e Jordan Baesso. Eu também customizo algumas peças e conto com a ajuda da costureira Maria, que tem o seu atelier no Bairro Teixeira Dias”, acrescenta Sandra Lane.

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A mala mágica de um contador

O (a) contador (a) de histórias deseja seduzir a sua plateia, conquistar a sua atenção. Por isso, essas “Gentes das Maravilhas” (como são chamados pelos árabes) carregam para as suas performances recipientes que parecem mágicos, tais como: malas, sacolas, caixas, livros, baús, mochilas, roupas com bolsos, enfim, algo que possa causar impacto, gerar curiosidade _ explica Sandra Lane. Porém, trazer um objeto para dentro de uma contação de histórias, é algo que deva ser muito pensado e pesquisado.

“É importante que o objeto escolhido tenha um valor simbólico para o (a) contador (a). Quando um objeto é escolhido aleatoriamente, a plateia percebe que ele não faz parte da história e principalmente do contador de histórias”.

“O que tem dentro de qualquer objeto utilizado por um (a) contador (a) de histórias, não deve ser mais importante do que a palavra, por que ela é que vai levar o ouvinte a se transportar para outra dimensão mesmo tendo os olhos abertos no momento presente”.

Sandra Lane explica que, desde ela criança, os objetos já se faziam presentes nas suas contações de histórias. E, assim, ela continua mesclando a palavra contadora de histórias, com a  animação de bonecos, de silhuetas, de desenhos e de objetos numa proposta de proximidade e intimidade com a plateia.

“Toda história que me proponho a contar traz em si o desejo de entrar não pela razão, mas pela porta do coração de cada ouvinte”.

“Não utilizo objetos com o objetivo de ilustrar a minha fala. Busco neles a poesia, a metáfora, a ludicidade, o encantamento para que a história contada seja inesquecível e prazerosa”.

Os objetos com os quais trabalha, muitas vezes, saltam da história e brincam com o público, principalmente infantil, que, por sua vez, quase sempre estica o braço e abre as mãos para receber por alguns segundos um pequeno objeto que pula, ri e brinca.

Segundo Sandra Lane, “existe uma atmosfera de cumplicidade solta no ar, os sorrisos são abertos e as estrelas fazem pouso nos olhares. Naquele momento, eu não sei dizer se eu dou vida aos objetos ou os objetos é que me dão vida. E quando falo isso, quero dizer no sentido mais profundo da minha existência”.

Ela acredita que as crianças curtem muito, quando conseguem entrar na história e passam a contar com o (a) contador (a) de histórias. E em cada nova ação ambos são surpreendidos.

Para as suas apresentações, Sandra Lane de prepara sozinha ou com parceiros de trabalho e procura manter as expectativas para a apresentação em um nível saudável e equilibrado. Antes de qualquer atividade, ela e os parceiros se concentram com as energias do amor.

“Agradecemos a oportunidade por aquele trabalho, pedimos humildade para aprendermos com os nossos erros e mentalizamos para que as pessoas presentes possam nos receber com o coração aberto assim como nós estamos e que regressem em paz para os seus lares”.

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Uma história encantada e real

Sandra Lane conta uma história de vida encantadora e que nos leva a crer de fato que há pessoas que nascem predestinadas. “Ao ver um pouco da minha trajetória, enquanto contadora de histórias, posso afirmar que, muito mais que uma opção profissional, ela é um sentido para a minha vida”.

“A minha trajetória de contadora de histórias começou, quando eu era uma menininha, por volta dos seis anos de idade.  Igual a várias crianças neste país, eu enfrentei a dor da separação dos meus pais e, para ajudar na sobrevivência, minha mãe teve que trabalhar longe de mim. Por isso, aos seis anos de idade, fui morar de favor em uma casa onde viviam mais quatro crianças. Por ser a mais velha, caía sobre meus ombros a responsabilidade de olhar as demais”.

“Eu tinha que ser o Pedrico da história “Os Três Porquinhos” (o porquinho ajuizado). Mas eu estava mais pra Palhaço ou Palito (aqueles porquinhos que só queriam brincar). Ainda bem que vivíamos em um tempo em que criança podia brincar na rua: o “Lobo Mau” estava na floresta. Assim sendo, eu e meus amiguinhos de infância podíamos recolher nas ruas, saquinhos de leite, jornais velhos e estrume, para serem trocados por maravilhosos picolés de k-Suco ou leite e pão para o lanche da tarde”.

“Nessas andanças, com a astúcia de Pedro Malazartes, encontrava partes de um grande tesouro espalhado pelo chão: eram objetos velhos, sujos, que passavam a ser protagonistas de criativas histórias que somente a minha imaginação e da minha pequena plateia conseguiam ver. E no quintal de terra batida, à sombra de um limoeiro, eu distraía a meninada contando histórias que eram recriações dos fragmentos da radionovela que, às vezes, escutava pelo radinho de pilha que ficava perto da máquina de costura da filha da  dona  da casa que eu morava.

“Ufa! Ainda bem que, ao contar histórias, o meu nariz não cresceu como o do Pinóquio. Lembro-me que a minha plateia, sempre muito atenta, enxergava junto comigo diamantes nos caquinhos de para-brisa quebrado; olhos mágicos do Cavalo Dourado, nos botões enferrujados; e até mesmo um cinturão de um rei gordo e poderoso, na antiga fivela”.

“Durante a adolescência, a contadora de histórias que habitava em mim dormiu feito “A Bela Adormecida”. E no ano de 1995 fui despertada para a arte de contar histórias profissionalmente, após participar de um curso de contação de histórias com a Gislayne Matos e Cecília Caram, na cidade de Ouro Preto. Ao chegar a Belo Horizonte, eu me inscrevi em um concurso de contação de histórias da Biblioteca Pública Infantil e Juvenil da cidade e fiquei com o primeiro lugar em contos da Tradição Oral. Imediatamente, foram surgindo convites para que eu me apresentasse em diversos espaços”.

“Paralelo a este ofício, tornei-me professora primária em uma região de grande vulnerabilidade social. E, desde então, uni a arte de ser professora com a de contadora de histórias, passando a desenvolver vários projetos de contação de histórias a partir da sala de aula”.

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Os projetos literários e sociais

O primeiro foi o Projeto “O Conto da Aranha”. Por meio de um conto acumulativo africano, Sandra Lane conseguiu despertar para o prazer de ler e escrever uma turma de alunos com grandes dificuldades cognitivas. Três anos depois, alguns desses ex-alunos a procuraram interessados em continuar ouvindo e contando histórias. Dessa demanda, nasceu o Projeto “Passaredo Contadores de Histórias”. Ao final de 13 anos de trabalho voluntário, centenas de pessoas (por um prazo curto ou longo) haviam integrado o projeto, que sempre teve como base a contação de história. No ano de 2000, O “Passaredo” recebeu da Prefeitura Municipal de Belo Horizonte o troféu “BH Em Defesa da Vida”. E participou de dois CDS Infantis.

“No meu cotidiano escolar, percebia que muitas crianças e jovens tinham a autoestima baixa por não se reconhecerem, enquanto negros (as), índios (as) etc. Fiz um mergulho na nossa cultura, na tentativa de valorizar personagens do Brasil com destaque para os povos africanos e indígenas. Desta pesquisa, configurou-se o projeto: “Histórias da Nossa Gente” que, além do livro, CD, trabalho acadêmico, deu origem a um espetáculo de contação de histórias em parceria com o músico Vilmar de Oliveira. O livro, que está em sua terceira edição, faz parte do Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE) do Ministério da Educação (MEC).

O Projeto “Primavera de Histórias” nasceu a partir do incentivo que dei aos meus alunos para que pesquisassem com seus parentes, vizinhos e amigos, as brincadeiras, as simpatias, as cantigas e as histórias da tradição popular. Posteriormente, o projeto deu origem aos CD/Livro “Primavera de Histórias” e “Primavera de Histórias 2, que possibilitou dar voz para contadores de histórias natos de mais de dez cidades mineiras.

Juntamente com o escultor Leandro Gabriel, a narradora também coordenou, durante sete anos, o Projeto Escultórias que buscava promover a inclusão social, artística e cultural de comunidades com baixa renda no universo da criação artística, através das esculturas e a arte de contar, ouvir, criar e recontar histórias. Este projeto itinerante publicou quatro livros e, no ano de  2009, foi finalista do IX Prêmio Nacional Arte e Escola Cidadã.

Paralelamente a estes projetos, os convites sempre foram aparecendo para atividades ligadas à contação de histórias: oficinas, seminários, workshops, palestras, aula-espetáculo e apresentações artísticas para públicos de diferentes faixas etárias e classes sociais sejam em hospitais, escolas, praças, shoppings, centros comunitários, teatros, televisões, rádios, universidades, ginásios, empresas, clubes, eventos religiosos e festas populares.

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 Próximas apresentações

Para o leitor que, neste momento, já está na aura mágica de Sandra Lane, o blog deixa a dica de dias e horários de suas próximas apresentações em Belo Horizonte:

8/3 – Apresentação de contação de histórias: Depende de Nós – Evento particular da Prefeitura de Belo Horizonte- Cine Santa Tereza – 8h30

14/3- Curso da Aletria “A Arte de Contar Histórias” – Início: 14 de março  -Término: 13 de junho -Horário: das 15 às 18h – Local: Instituto Cultural Aletria Fone 3296- 7903

22/3- Oficina de Contação de Histórias – Biblioteca Pública Infantil e Juvenil de BH – 18h às 21h – Gratuita  – Fone 3277-8656

25/3 – Apresentação “Baú de Histórias” – Biblioteca Pública Infantil e Juvenil de BH= 11h – Entrada gratuita – Fone 3277-8656

1/4- Oficina no Projeto Entrelinhas – Contagem – Particular

8/4 – Oficina “Sombras que contam Histórias” – Paulinas Livraria – 8h às 12h – Fone 3269-3700

“A arte de contar histórias está além dos palcos… Neste exato instante, só de se fazer presente para alguém que necessita se sentir alguém, não é preciso dizer nada. O momento já é uma história”. Sandra Lane

A importância dos gibis na alfabetização

“Só Escola” relata sobre a aceitação das histórias em quadrinhos em sala de aula.

images 2As histórias em quadrinhos contribuem para despertar o interesse pela leitura e pela escrita nas crianças e para sistematizar a alfabetização. Como as HQs em geral unem palavra e imagem, elas contemplam tanto alunos que já leem fluentemente quanto os que estão iniciando, pois conseguem deduzir o significado da história observando os desenhos. A curiosidade em saber o que está escrito dentro dos balões cria o gosto pela leitura e, assim, os gibis podem ter grande eficácia nas aulas de alfabetização.

Se hoje essa visão é consagrada entre professores e pesquisadores, nem sempre foi assim. Os quadrinhos usados atualmente em sala de aula eram vistos como concorrentes dos livros de alfabetização, entendidos, portanto, como uma distração prejudicial ao aprendizado. “Os quadrinhos apareceram com mais frequência dentro da escola a partir da metade do século passado. Primeiro, porque quase não existiam. Segundo, porque havia esse preconceito contra eles”, diz Maria Angela Barbato Carneiro, professora titular do Departamento de Fundamentos da Educação e coordenadora do Núcleo de Cultura e Pesquisas do Brincar da Faculdade de Educação da PUC-SP.

Falta de hábito
Maria Angela acredita que, dentro da escola, os professores ainda usam predominantemente muitos materiais mais tradicionais, como é o caso do livro didático, em detrimento de outros recursos. “Penso que o professor não está habituado com outros procedimentos – como um jornal, uma revista –, e o fato de não estar habituado não lhe traz segurança”, diz. Outro ponto que pode inibir a presença das HQs na alfabetização é o entendimento de que os gibis são meros passatempos e, por isso, serem deixados de lado por conta da crença de que eles serão lidos pelas crianças em casa de todo modo.

Lucinea Rezende, professora do Departamento de Educação da Universidade Estadual de Londrina (UEL-PR), que desenvolve e orienta trabalhos na área de formação de leitores, concorda que ainda que se tenha avançado bastante na direção de usar múltiplas formas de leitura em sala de aula, fugindo do monopólio do livro didático, ainda se está voltado predominantemente para o texto escrito. “Todos os gêneros que empregam outras linguagens entram devagarinho nas salas de aula”, diz.

untitledOs benefícios da história em quadrinhos para a educação, em particular no ensino fundamental e na alfabetização, são oficialmente reconhecidos. As HQs fazem parte do Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE), que possibilita a professores e alunos o acesso a obras distribuídas em escolas públicas. Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) também incentivam o uso de quadrinhos e indicam que nas bibliotecas é necessário que estejam à disposição dos alunos textos dos mais variados gêneros (livros de contos, romances, jornais, quadrinhos, entre outros). O PCN lista ainda a HQ como um gênero adequado para o trabalho com a linguagem escrita.

“Alguns professores olham para a HQ e veem algo distante. Assim não têm entusiasmo, não conseguem comentar sobre aquilo com os alunos”, acredita José Felipe da Silva, professor de Libras (Linguagem Brasileira de Sinais) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) – a disciplina é oferecida a diversos cursos de graduação na Universidade. Ex-professor do ensino fundamental e colecionador de HQs, Felipe da Silva afirma que os quadrinhos foram um impulso para ele mesmo se alfabetizar quando criança. Na escola em que dava aula, na rede municipal de Natal, costumava fazer exposições com revistas e bonecos dos personagens das HQs para atrair a atenção dos alunos.

Imaginação e fantasia
Luciana Begatini Silvério, professora de pós-graduação na área de educação, lembra ainda que o PCN pede que o leitor seja formado como alguém capaz de ler, compreender e interagir com a leitura – entendida não só por meio de palavras e frases, mas, também, por diferentes tipos de linguagem. Com os quadrinhos, a criança em fase de alfabetização que ainda não domina a leitura e a escrita do alfabeto consegue fazer uma leitura competente com o recurso das imagens. “Além disso, a criança precisa muito ser formada no concreto. E nas HQs, os recursos de imagens, expressões dos personagens, letras, metáforas visuais ajudam a ter maior compreensão do que ela está lendo”, afirma.

Entre os elementos que se reconhecem como mais atrativos para as crianças nas histórias em quadrinhos estão aspectos lúdicos, como cores, onomatopeias, personagens e traços. Na dissertação de mestrado de Luciana Begatini Silvério, defendida em 2012 – orientada por Lucinea Rezende, na UEL –, ela fez uma pesquisa de campo com professores e alunos da rede municipal da cidade Primeiro de Maio, no Paraná. A pesquisa não foi feita com alunos em alfabetização e, sim, com estudantes do segundo ciclo do EF. Dos 58 alunos participantes, 30 listaram as HQs entre seus gêneros de leitura preferidos. E três, apenas, afirmaram não gostar de HQs (dois deles alegaram que os quadrinhos são para serem lidos em casa).

images 1Luciana Novello, professora do 1o ano do EF no Colégio Ofélia Fonseca, em São Paulo, destaca justamente o caráter lúdico como um dos elementos de atratividade dos quadrinhos. “As histórias em geral são divertidas, somadas ao colorido das imagens. E temos gibis com histórias bem curtas, de uma página, e para a criança ler fica uma leitura mais prazerosa”, diz. Além disso, a professora afirma que, entre seus alunos, o gibi já faz parte do cotidiano fora da escola: por isso, a familiaridade com os personagens por si só já desperta o interesse das crianças.
Os quadrinhos podem, ainda, ser trabalhados com as crianças em idade de alfabetização em relação com o brincar – como, por exemplo, uma forma de trabalhar a imaginação, o “faz de conta”. “Alguns quadrinhos fazem parte da literatura infantil, e a literatura infantil se alia à brincadeira justamente através do simbólico, da fantasia. Quando você permite que atuem a imaginação e a fantasia da criança é possível que isso faça parte das atividades lúdicas”, diz Maria Angela Barbato Carneiro.

Corrigindo a Mônica
Professor da Escola Polo Municipal Venita Ribeiro Marques, em Aral Moreira (MS), Gilson Matoso considera a HQ uma das melhores maneiras para chamar a atenção das crianças. Pós-graduado em Mídias na Educação pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), ele costuma aliar o trabalho com os quadrinhos a datas especiais – como as festas juninas. E, no segundo ano do EF, trabalha também a gramática. Personagens conhecidos das HQs da Turma da Mônica, de Mauricio de Sousa, o Cebolinha troca o “R” pelo “L” e o Chico Bento tem o registro da sua fala acaipirada, com erros ortográficos. “Fazemos exercícios em que corrigimos algumas palavras dos personagens, passando para a norma culta”, diz Matoso.

Antes de o aluno desenvolver a leitura das palavras e dos desenhos em si – como personagens e cenários – há outros elementos típicos das HQs que as crianças aprendem a ler e a interpretar. “O texto está ali, não podemos ignorá-lo, mas mesmo que as palavras escritas sejam estranhas para o aluno, ele vai fazer a leitura visual­ da narrativa e vai entender que aquilo pode ser uma fala, um grito”, diz José Felipe da Silva.

A leitura do texto em si é facilitada ainda por conta do tipo de letra normalmente grafada dentro dos balões, que é a letra em bastão. Como na maior parte das escolas, a professora Luciana Novello explica que no Colégio Ofélia Fonseca a letra bastão é usada desde o ensino infantil até o primeiro ano, quando é introduzida então a letra cursiva, entre o final do primeiro ano e o segundo ano do EF.

images 3Lucinea Rezende, da UEL, afirma que é importante ainda ter como premissa o tratamento da leitura como algo a ser construído continuamente. Ela ressalta que isso é válido não somente na alfabetização e no ensino fundamental, mas até mesmo na universidade. “Alguns estudantes gostam de ler, outros, não – ou porque não puderam ou porque não se interessaram suficientemente. Nesse caso, a gente precisa usar todos os recursos possíveis: se a criança já lê HQ, o que a escola pode fazer para a criança ler melhor, explorar outras possibilidades?”, questiona. A professora e pesquisadora defende que a escola deve trabalhar, sempre, com uma boa multiplicidade de textos, incluindo as HQs.

Além disso, Lucinea lembra que os alunos acabam desenvolvendo gostos por diferentes tipos de leitura. Por isso, a escola precisa se apropriar de todos os recursos possíveis. “Precisamos pensar ainda o que o professor está almejando quando trabalha a leitura. Quanto à HQ, por exemplo, o que se consegue ver nesse gênero literário? Pensamos na palavra, na imagem, nos personagens?”. A reflexão sobre os materiais usados pelos educadores deve levar em conta, afirma Lucinea, não somente questões da linguagem, mas também, de fundo social das narrativas. “É a partir dessa compreensão que se devem usar as HQs na alfabetização. Alfabetizar é trazer para o mundo da escrita, dos números, para que o aluno possa dialogar e interagir com o mundo”, explica.

Produção do texto
Com as HQs pode-se ainda propor a construção de histórias. “Para a produção de texto os alunos em geral gostam muito dos quadrinhos, por conta do desenho. É uma boa ferramenta para a sequência didática, em que é preciso ter um resultado final da produção deles”, diz Gilson Matoso.

Além de desenhar, pode-se tra­balhar com o texto produzido sobre histórias já feitas, com os ba­lões em branco. “Nesse caso o objetivo não é pensar em inventar a história, mas na escrita, na língua”, diz Luciana Novello, do Ofélia Fonseca. “No 1o ano, a principal ideia do uso do gibi é a aquisição de leitura e escrita. E, eventualmente, um trabalho com arte e ilustrações”, completa.
A professora afirma que os gibis são trabalhados em aula como um gênero textual. Em momentos de leitura planejada, cada aluno escolhe um exemplar para ler – seja ela leitura convencional (fluente) ou não. “Também se lê em dupla, um leitor mais fluente com outro menos fluente”, explica.

Gêneros e interdisciplinaridade
O quadrinho é um gênero em si mesmo, mas, dentro dele, há subgêneros – como romances adaptados e até reportagens em forma de HQ, o que se torna uma vantagem para apresentar outros gêneros de narrativa. “Claro que é preferível ampliar a leitura dos gêneros para outros textos, não somente os quadrinhos. Mas é importante que o professor apresente uma diversidade de gêneros de HQ”, diz José Felipe da Silva, da UFRN.

Além dos gêneros, as diferentes temáticas dos quadrinhos também são um elemento importante em sala de aula – e podem ser trabalhadas tanto com crianças em idade de alfabetização quanto com as maiores. “O foco de minha pesquisa foi buscar a interface entre HQ e a literatura, mas há outros aspectos transversais também, como noções de higiene, temas culturais e históricos”, diz Luciana Begatini Silvério.

Se na alfabetização os quadrinhos podem atrair a atenção das crianças para ler e escrever, nessa mesma fase as HQs podem servir como suporte ou tema para desenvolver outras habilidades – como adivinhas. “Existem também várias atividades que podem ser feitas com a linguagem dos quadrinhos, como noções abstratas de química. Pensamos no Asterix e na sua poção mágica, por exemplo, à qual podemos relacionar uma receita – um suco de laranja – e fazer essa brincadeira”, diz Maria Angela Barbato Carneiro, da PUC-SP.

O belo céu dos mineiros

BOOKILL KATALOG 2017“DesNuvem” é a única arte literária brasileira selecionada pelo BookILLfest, que começa dia 7 de março, na Sérvia. Assinam o trabalho a Editora Miguilim com as ilustrações e fotografias respectivamente de Maurizio Manzo e Juninho Motta. O texto é de Adriano Bitarães. Parabéns para este seleto grupo de artistas atuantes em Minas Gerais sob a coordenação do editor Alexandre Machado, da Miguilim.

 

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Cerca de 2000 ilustrações de 28 países, incluindo a Sérvia, foram enviadas para o concurso de ilustração Festival “BookILLfest” Livro Ilustrado, que será realizado pela sexta vez, durante a 23ª Feira Internacional do Livro promovida pelo Centro Cultural de Novi Sad, cidade da Sérvia.

Destas, o júri constituído por Slobodan Ivkov (presidente), Sibila Petenji Arbutina e Senka Vlahovic Filipov selecionou ilustrações de 150 autores para a exibição. Nesta edição do festival, o único representante selecionado do Brasil foi o livro “DesNuvem”, Editora Miguilim com as ilustrações/imagens/fotografias de Maurizio Manzo e Juninho Motta.

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Maurizio Manzo é selecionado pela segunda vez por esse jurado especialíssimo em ilustrações. Ele explica o trabalho: “Para ilustrar este livro, me lembrei das fotos de nuvens do Juninho Motta, que ele faz há alguns anos. Daí, eu manipulei algumas imagens, sobrepondo 2 ou 3 ou delas ao mesmo tempo”.

O anúncio dos vencedores e a cerimônia de premiação serão realizadoa na próxima terça-feira, 7 de março, às 13:00, durante a feira de Novi Sad. Nesta ocasião, serão abertas duas exposições: a de ilustrações selecionadas e premiadas e a de comentários de ilustrações da Bienal de Ilustrações de Bratislava, Eslováquia: “Prêmio do júri infantil BIB 1993-2015”.

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O livro “DesNuvem” será lançado em Belo Horizonte, brevemente, pela Editora Miguilim.

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“Tenho monstros na barriga”

Educadora Tonia Casarin aborda como as crianças interpretam os sentimentos neste audiolivro lançado pelo Ubook.

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A maneira como as crianças interpretam os sentimentos interfere no modo como elas irão decodificar diversos acontecimentos que terão ao longo da vida. Saber lidar com estas emoções é importante para a formação de qualquer indivíduo, mas também é essencial para que as crianças obtenham maiores oportunidades de êxito pessoal, social e até mesmo acadêmico.

Para tratar deste assunto de forma leve e descontraída com os pequenos, a educadora Tonia Casarin lançou o livro ‘Tenho monstros na barriga’. A obra conta a história de Marcelo, um menino que sente “várias coisas” na barriga e não sabe o que significa. Quando descobre que são sentimentos, Marcelo resolve chamá-los de monstrinhos. Ao longo da história, o menino narra os seus sentimentos e mostra oito monstrinhos: Alegria, Tristeza, Raiva, Medo, Coragem, Curiosidade, Orgulho e Ciúmes. “O livro busca aumentar a consciência dos sentimentos, aproximando as crianças dos seus pais e professores, possibilitando brincar e estimular a imaginação das crianças”, diz a autora.

A novidade é que os monstrinhos aderiram à tecnologia e chegam aos consumidores no formato em áudio, que pode ser acessado por celulares e computadores, seja através do aplicativo Ubook ou pelo site da empresa (www.ubook.com). “Em nossa versão em áudio, também incluímos um trabalho de sound design, que acrescenta trilha e efeitos sonoros para que a audição da criança seja ainda mais estimulada, favorecendo a imaginação e a interpretação da história narrada”, explica Marta Ramalhete, Gerente de Produção do Ubook.

“É uma forma lúdica de interagir com as crianças para auxiliá-las a desenvolver a habilidade de identificar e gerenciar emoções, estabelecer relacionamentos saudáveis e contornar comportamentos destrutivos, isto é, qualquer ação que a pessoa realize em prejuízo de si mesma. Dessa forma, quando confrontadas com situações difíceis, no futuro, elas terão as ferramentas para buscar soluções por conta própria”, comenta Tonia, que também foi responsável pela narração do audiolivro.

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“Apresentar esta versão em audiolivros para as crianças é interessante também,  pois um dos pontos cruciais de uma boa comunicação é ensinar as crianças a ouvirem. E é através do diálogo que elas saberão pedir ajuda e dizer o que desejam em situações difíceis, o que acaba contribuindo para a resolução de conflitos e auxilia, inclusive, em situações de bullying”, avalia Eduardo Albano, Diretor de Conteúdo do Ubook.

Os benefícios de uma boa educação emocional também podem ser refletidos no aprendizado escolar. Quem sabe lidar melhor com as emoções tem mais facilidade para planejar e estabelecer metas a longo prazo. “Trabalhar bem os sentimentos também estimula a aquisição de habilidades sociais tão importantes como a empatia, isto é, torna as crianças capazes de se colocarem no lugar do outro, reconhecer e aceitar suas diferenças físicas, culturais ou emocionais. As vantagens permanecem na vida adulta, implicando em vidas profissionais bem sucedidas, casamentos saudáveis e menos propensão à depressão e outras doenças”, complementa a educadora.

Um estudo americano com 300 mil crianças mostrou que aquelas que estavam inseridas em programas de desenvolvimento de habilidades emocionais apresentaram rendimento escolar de 11 a 17% superior do que as que não participaram. Outra pesquisa da Unesco na  America Latina também aponta a importância do desenvolvimento emocional nas crianças: projeto que abrangeu 54 mil estudantes concluiu que quem convive harmoniosamente com os colegas pode atingir notas até 46% mais altas do que aqueles que habitam ambientes de conflito.

A autora/narradora

imagem_release_856837Tonia Casarin formou-se em Administração pela PUC-Rio, em 2007, e é mestre em Educação pelo Teachers College em Columbia University, em Nova York, Estados Unidos. Já atuou no setor público, como na prefeitura do Rio de Janeiro e no governo do Estado do Rio, e privado. É professora de pós-graduação do Instituto Singularidades de São Paulo, coach e consultora em Educação.

Apaixonada por crianças e pelas emoções, Tonia focou os seus estudos na inteligência emocional e social e como desenvolvê-la em adultos, adolescentes e crianças. Em suas pesquisas, aprendeu que o primeiro passo para desenvolver as competências do século 21 é saber identificar os sentimentos. Nesse contexto, Tonia escreveu o livro “Tenho monstros na barriga”, uma ferramenta para as crianças aprenderem a identificar as próprias emoções.

Lançado no início de outubro de 2014, o Ubook é o primeiro serviço de assinatura de audiolivros por streaming do Brasil. Ele funciona como o Netflix para vídeos ou o Spotify para música: por um valor mensal, ou semanal, é possível ter acesso ilimitado a todo o catálogo através do aplicativo. A plataforma, que já conta com mais de 1,5 milhão de usuários cadastrados e possui mais de 10 mil títulos em seu catálogo, está disponível para Web, iOs, Android e Windows Phone.