Poesia em quatro atos

A escritora, doutora em Literatura Brasileira e consultora da Editora Positivo, Marta Morais da Costa, fala sobre poesia para as crianças, sugere e analisa alguns títulos.

A especialista Marta Morais da Costa comenta sobre o valor da poesia para as crianças - Foto: Divulgação

A especialista Marta Morais da Costa comenta sobre o valor da poesia para as crianças – Foto: Divulgação

“Crianças gostam de jogos verbais que brinquem com sonoridades e ritmos. A atração que exercem sobre os pequenos revela-se nas parlendas, nos trava-línguas e na poesia. O corpo das crianças é demonstração concreta desse prazer. O movimento da dança, o olhar fixo e brilhante, a boca sempre pronta a emitir sons cantarolados e a sorrir expõem claramente o quanto a provocação dos textos poéticos encontra seus interlocutores mais apropriados”, afirma a especialista Marta Morais da Costa.

Segundo ela, “a poesia para crianças atende aos mais diferentes objetivos, desde os fins escolares pedagógicos ao mais descompromissado poema lúdico; dos textos cívicos à poesia do cotidiano. Um projeto destinado à formação de leitores de literatura não pode ignorar a edição de obras poéticas”.

A Editora Positivo, onde Marta atua como consultora, criou uma série especial para estas obras, denominada “De fio a pavio”. Ela explica o nome dizendo que o mesmo “traz na marca da rima a evocação de poesia. Também o sentido dos substantivos (fio e pavio) aponta para a transformação da matéria prima em possibilidade de luz, de iluminação”.

Quanto aos títulos editados, segundo Marta, ela “atendem a diversidade, não apenas de autores ou assuntos, mas a diversidade de modos de tratar o fato poético e suas funções junto ao público leitor”. Das publicações dessa série foram selecionados alguns exemplos, sem demérito aos não mencionados.

Sugestões de leitura

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O primeiro livro escolhido foi “Viva voz!” (R$39,80), de Léo Cunha, com ilustrações de Flávio Fargas. O poema inicial já define uma proposta de leitura:

Leia este livro em viva voz,

deixe o estilo pra depois,

deixe a timidez na gaveta.

 

Solte a garganta sem medo,

que poesia é sopro e vento,

não é só papel e caneta.

“Para demonstrar a viva voz dos textos, os poemas curtos são rimados, geralmente em versos curtos de sete sílabas poéticas, que é o verso mais popular e musical da língua portuguesa. E os assuntos tratam de curativos e machucados de lobos e pinguins, de ioiô e dominós, de mistério, bagunça e piada. O que sobressai nas provocações dos poemas é um convite para a brincadeira com sons e palavras e, acima de tudo, propõe o diálogo do poeta com a criança, inteligente, alegre e livre”, explica a consultora da Positivo. Livre até para apontar defeitos no adulto: “Só gente grande consegue/ mentir sem piscar o olho.”

Retomando a tradição das adivinhas, Adriano Messias escreveu “Que bicho está no verso?” (R$39,80), com ilustrações de Cris Eich. “Desfilam nesse livro 15 animais, apresentados por uma quadrinha enigmática, cuja resposta aparece na página seguinte, no verso dos versos. E as apresentações se fazem por meio de imagens coloridas, de referências a situações do cotidiano infantil. A linguagem prima pela simplicidade e extrema oralidade, demonstrando que a poesia está em todo lugar e sua expressão verbal busca qualquer leitor, sem erudições”, ressalta Marta.

Nunca usou sapatinhos

e nunca teve chulé.

São mesmo muitos pezinhos.

Que bicho será que é?

Ela acrescenta que “é marcante neste livro a associação da poesia à natureza, criando um ambiente de leitura que aproxima texto e leitor, dada a reconhecida atração do público infantil por animais e plantas. Desta forma, o livro une a curiosidade, o conhecimento e a ligação dos leitores infantis com sua realidade e interesses”.

Marcos Bagno escreveu “O tempo escapou do relógio e outros poemas” (R$35,50), livro que Marilda Castanha ilustrou magistralmente. “São poemas direcionados a leitores mais amadurecidos. Por isso, têm maior extensão, metáforas mais complexas e profundidade de pensamento. Sua inspiração são cantigas de roda, parlendas e adivinhas e uma variedade de recursos poéticos que fazem da palavra – desenhada, sonora, lúdica – a matéria-prima do fazer poético”, continua.

“São poemas que investem em assuntos e situações desafiadores, como “Dia dos pais”, em que o menino homenageia seus dois pais, Pedro e João. Ou “Algazarra” em que a base é a montagem/desmontagem de palavras, para iluminar com novos sentidos cada vocábulo: “Algazarra é um tipo de alga?”, “Poesia é que tipo de pó?”, “Amargar é sofrer por amar?”. Ou o poema título em que o tempo ao fugir revoluciona o universo. Enfim, o jogo de palavras, a inovação e a provocação constituem o modo de apresentar a poesia para os leitores em formação”.

Em “Estações da poesia” (R$39,80), o poeta Luís Dill e as aquarelas de Rubens Matuck constroem pra os leitores infantis uma natureza poética entrevista nas quatro estações do ano. Marta analisa: “são poemas curtos, em três versos, de tradição japonesa e denominados haicais. O tratamento dado à natureza é delicado, metafórico, colorido e extremamente musical. Sem seguir à risca o molde dos poemas japoneses em relação ao tamanho dos versos, nem por isso os textos de Luís Dill perdem sua natureza de fotografias poéticas.

Telefone sem fio:

brisa que enche a luva

vira vento de chuva

………………..

Gato de rua

na poça d’água

bebe a lua

“São fragmentos de realidade que encantam os olhos, a imaginação e o pensamento. É força da poesia infantil a conquistar novos leitores e a dar continuidade à tradição poética milenar. Do fio das palavras à iluminação da sensibilidade e da apropriação do mundo”, conclui Marta Morais da Costa, que também é membro da Academia Paranaense de Letras, autora de “Mapa do mundo” (2006), “Palcos e jornais” (2009), “Sempre viva” (2009) e “Hoje tem espetáculo? Tem, sim, senhor!” (2016) entre outros. 

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