Sandra Lane: encanto da contadora de histórias

A imagem de contadores de histórias remete as crianças para o mundo das fantasias. As roupas, adornos, objetos cênicos, a voz, a música _ nada pode tirar o brilho das histórias, mas são recursos para conduzirem a plateia para os sonhos, a alegria, o encantamento que, mais tarde, vão resultar numa paixão pelos livros. Hoje, o blog apresenta uma matéria com Sandra Lane de Oliveira Marques, uma pessoa muito especial, com uma bela história de vida e principalmente muito comprometimento com a sua profissão. Afinal, como é ser e viver como uma contadora de histórias infantis?

Sandra Lane pronta para uma apresentação

Sandra Lane pronta para uma apresentação

“Não muito raro de acontecer, as pessoas quando me veem contando histórias, acham-me mais jovem e mais bonita do que no dia a dia. Ao refletir sobre isso, penso que muito mais do que um figurino ou uma boa maquiagem é o encantamento do tempo do “Era uma vez…” Esse momento mágico que é evocado na contação de histórias, carrega em si uma aura que nos transforma aos olhos de quem nos vê e na fantasia que o coração do ouvinte deseja. Por isso, acredito que o vestuário de um(a) contador(a) de histórias deve estar em sintonia com os seus sentimentos e ao propósito a que se destina.”

Como você escolhe seus trajes?

“Eu aposto na simplicidade. Não gosto de figurinos que chamem mais atenção do que a história que proponho contar. Os meus figurinos buscam uma   atmosfera de encantamento. Tenho cuidado com os excessos, pois eles podem induzir a plateia a prestar atenção neles, fazendo-a  se dispersar com o fundamental: a história. Além da simplicidade, os meus figurinos trazem em todos, ou em alguns desses, as seguintes alusões: a água (representada nas conchas, flexibilidade e nas cores azul e branco); o ar (por meio da leveza dos tecidos) e  Minas Gerais (nos detalhes artesanais”).

“Já tive o privilégio de ter figurinos elaborados pelos artistas Iasmim Marques e Jordan Baesso. Eu também customizo algumas peças e conto com a ajuda da costureira Maria, que tem o seu atelier no Bairro Teixeira Dias”, acrescenta Sandra Lane.

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A mala mágica de um contador

O (a) contador (a) de histórias deseja seduzir a sua plateia, conquistar a sua atenção. Por isso, essas “Gentes das Maravilhas” (como são chamados pelos árabes) carregam para as suas performances recipientes que parecem mágicos, tais como: malas, sacolas, caixas, livros, baús, mochilas, roupas com bolsos, enfim, algo que possa causar impacto, gerar curiosidade _ explica Sandra Lane. Porém, trazer um objeto para dentro de uma contação de histórias, é algo que deva ser muito pensado e pesquisado.

“É importante que o objeto escolhido tenha um valor simbólico para o (a) contador (a). Quando um objeto é escolhido aleatoriamente, a plateia percebe que ele não faz parte da história e principalmente do contador de histórias”.

“O que tem dentro de qualquer objeto utilizado por um (a) contador (a) de histórias, não deve ser mais importante do que a palavra, por que ela é que vai levar o ouvinte a se transportar para outra dimensão mesmo tendo os olhos abertos no momento presente”.

Sandra Lane explica que, desde ela criança, os objetos já se faziam presentes nas suas contações de histórias. E, assim, ela continua mesclando a palavra contadora de histórias, com a  animação de bonecos, de silhuetas, de desenhos e de objetos numa proposta de proximidade e intimidade com a plateia.

“Toda história que me proponho a contar traz em si o desejo de entrar não pela razão, mas pela porta do coração de cada ouvinte”.

“Não utilizo objetos com o objetivo de ilustrar a minha fala. Busco neles a poesia, a metáfora, a ludicidade, o encantamento para que a história contada seja inesquecível e prazerosa”.

Os objetos com os quais trabalha, muitas vezes, saltam da história e brincam com o público, principalmente infantil, que, por sua vez, quase sempre estica o braço e abre as mãos para receber por alguns segundos um pequeno objeto que pula, ri e brinca.

Segundo Sandra Lane, “existe uma atmosfera de cumplicidade solta no ar, os sorrisos são abertos e as estrelas fazem pouso nos olhares. Naquele momento, eu não sei dizer se eu dou vida aos objetos ou os objetos é que me dão vida. E quando falo isso, quero dizer no sentido mais profundo da minha existência”.

Ela acredita que as crianças curtem muito, quando conseguem entrar na história e passam a contar com o (a) contador (a) de histórias. E em cada nova ação ambos são surpreendidos.

Para as suas apresentações, Sandra Lane de prepara sozinha ou com parceiros de trabalho e procura manter as expectativas para a apresentação em um nível saudável e equilibrado. Antes de qualquer atividade, ela e os parceiros se concentram com as energias do amor.

“Agradecemos a oportunidade por aquele trabalho, pedimos humildade para aprendermos com os nossos erros e mentalizamos para que as pessoas presentes possam nos receber com o coração aberto assim como nós estamos e que regressem em paz para os seus lares”.

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Uma história encantada e real

Sandra Lane conta uma história de vida encantadora e que nos leva a crer de fato que há pessoas que nascem predestinadas. “Ao ver um pouco da minha trajetória, enquanto contadora de histórias, posso afirmar que, muito mais que uma opção profissional, ela é um sentido para a minha vida”.

“A minha trajetória de contadora de histórias começou, quando eu era uma menininha, por volta dos seis anos de idade.  Igual a várias crianças neste país, eu enfrentei a dor da separação dos meus pais e, para ajudar na sobrevivência, minha mãe teve que trabalhar longe de mim. Por isso, aos seis anos de idade, fui morar de favor em uma casa onde viviam mais quatro crianças. Por ser a mais velha, caía sobre meus ombros a responsabilidade de olhar as demais”.

“Eu tinha que ser o Pedrico da história “Os Três Porquinhos” (o porquinho ajuizado). Mas eu estava mais pra Palhaço ou Palito (aqueles porquinhos que só queriam brincar). Ainda bem que vivíamos em um tempo em que criança podia brincar na rua: o “Lobo Mau” estava na floresta. Assim sendo, eu e meus amiguinhos de infância podíamos recolher nas ruas, saquinhos de leite, jornais velhos e estrume, para serem trocados por maravilhosos picolés de k-Suco ou leite e pão para o lanche da tarde”.

“Nessas andanças, com a astúcia de Pedro Malazartes, encontrava partes de um grande tesouro espalhado pelo chão: eram objetos velhos, sujos, que passavam a ser protagonistas de criativas histórias que somente a minha imaginação e da minha pequena plateia conseguiam ver. E no quintal de terra batida, à sombra de um limoeiro, eu distraía a meninada contando histórias que eram recriações dos fragmentos da radionovela que, às vezes, escutava pelo radinho de pilha que ficava perto da máquina de costura da filha da  dona  da casa que eu morava.

“Ufa! Ainda bem que, ao contar histórias, o meu nariz não cresceu como o do Pinóquio. Lembro-me que a minha plateia, sempre muito atenta, enxergava junto comigo diamantes nos caquinhos de para-brisa quebrado; olhos mágicos do Cavalo Dourado, nos botões enferrujados; e até mesmo um cinturão de um rei gordo e poderoso, na antiga fivela”.

“Durante a adolescência, a contadora de histórias que habitava em mim dormiu feito “A Bela Adormecida”. E no ano de 1995 fui despertada para a arte de contar histórias profissionalmente, após participar de um curso de contação de histórias com a Gislayne Matos e Cecília Caram, na cidade de Ouro Preto. Ao chegar a Belo Horizonte, eu me inscrevi em um concurso de contação de histórias da Biblioteca Pública Infantil e Juvenil da cidade e fiquei com o primeiro lugar em contos da Tradição Oral. Imediatamente, foram surgindo convites para que eu me apresentasse em diversos espaços”.

“Paralelo a este ofício, tornei-me professora primária em uma região de grande vulnerabilidade social. E, desde então, uni a arte de ser professora com a de contadora de histórias, passando a desenvolver vários projetos de contação de histórias a partir da sala de aula”.

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Os projetos literários e sociais

O primeiro foi o Projeto “O Conto da Aranha”. Por meio de um conto acumulativo africano, Sandra Lane conseguiu despertar para o prazer de ler e escrever uma turma de alunos com grandes dificuldades cognitivas. Três anos depois, alguns desses ex-alunos a procuraram interessados em continuar ouvindo e contando histórias. Dessa demanda, nasceu o Projeto “Passaredo Contadores de Histórias”. Ao final de 13 anos de trabalho voluntário, centenas de pessoas (por um prazo curto ou longo) haviam integrado o projeto, que sempre teve como base a contação de história. No ano de 2000, O “Passaredo” recebeu da Prefeitura Municipal de Belo Horizonte o troféu “BH Em Defesa da Vida”. E participou de dois CDS Infantis.

“No meu cotidiano escolar, percebia que muitas crianças e jovens tinham a autoestima baixa por não se reconhecerem, enquanto negros (as), índios (as) etc. Fiz um mergulho na nossa cultura, na tentativa de valorizar personagens do Brasil com destaque para os povos africanos e indígenas. Desta pesquisa, configurou-se o projeto: “Histórias da Nossa Gente” que, além do livro, CD, trabalho acadêmico, deu origem a um espetáculo de contação de histórias em parceria com o músico Vilmar de Oliveira. O livro, que está em sua terceira edição, faz parte do Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE) do Ministério da Educação (MEC).

O Projeto “Primavera de Histórias” nasceu a partir do incentivo que dei aos meus alunos para que pesquisassem com seus parentes, vizinhos e amigos, as brincadeiras, as simpatias, as cantigas e as histórias da tradição popular. Posteriormente, o projeto deu origem aos CD/Livro “Primavera de Histórias” e “Primavera de Histórias 2, que possibilitou dar voz para contadores de histórias natos de mais de dez cidades mineiras.

Juntamente com o escultor Leandro Gabriel, a narradora também coordenou, durante sete anos, o Projeto Escultórias que buscava promover a inclusão social, artística e cultural de comunidades com baixa renda no universo da criação artística, através das esculturas e a arte de contar, ouvir, criar e recontar histórias. Este projeto itinerante publicou quatro livros e, no ano de  2009, foi finalista do IX Prêmio Nacional Arte e Escola Cidadã.

Paralelamente a estes projetos, os convites sempre foram aparecendo para atividades ligadas à contação de histórias: oficinas, seminários, workshops, palestras, aula-espetáculo e apresentações artísticas para públicos de diferentes faixas etárias e classes sociais sejam em hospitais, escolas, praças, shoppings, centros comunitários, teatros, televisões, rádios, universidades, ginásios, empresas, clubes, eventos religiosos e festas populares.

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 Próximas apresentações

Para o leitor que, neste momento, já está na aura mágica de Sandra Lane, o blog deixa a dica de dias e horários de suas próximas apresentações em Belo Horizonte:

8/3 – Apresentação de contação de histórias: Depende de Nós – Evento particular da Prefeitura de Belo Horizonte- Cine Santa Tereza – 8h30

14/3- Curso da Aletria “A Arte de Contar Histórias” – Início: 14 de março  -Término: 13 de junho -Horário: das 15 às 18h – Local: Instituto Cultural Aletria Fone 3296- 7903

22/3- Oficina de Contação de Histórias – Biblioteca Pública Infantil e Juvenil de BH – 18h às 21h – Gratuita  – Fone 3277-8656

25/3 – Apresentação “Baú de Histórias” – Biblioteca Pública Infantil e Juvenil de BH= 11h – Entrada gratuita – Fone 3277-8656

1/4- Oficina no Projeto Entrelinhas – Contagem – Particular

8/4 – Oficina “Sombras que contam Histórias” – Paulinas Livraria – 8h às 12h – Fone 3269-3700

“A arte de contar histórias está além dos palcos… Neste exato instante, só de se fazer presente para alguém que necessita se sentir alguém, não é preciso dizer nada. O momento já é uma história”. Sandra Lane

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