O trabalho do leitor crítico

Entre o escritor e a editora que recebe o original para publicação de um livro existe a figura do “leitor crítico” a quem, algumas vezes, cabe decidir se vale a pena ou não produzir e colocar a obra no mercado. Entre o mercado editorial e as bibliotecas também existe o trabalho deste profissional. Mas, afinal, que figura é esta e como atuam os leitores críticos?

Quem responde é Fabíola Farias, que é graduada em Letras, mestre e doutoranda em Ciência da Informação pela UFMG. É leitora-votante da Fundação Nacional do Livro Infantil e coordena a rede de bibliotecas públicas e os projetos para a promoção da leitura da Fundação Municipal de Cultura de Belo Horizonte.

Fabíola Farias e a análise de um texto literário

Fabíola Farias e a análise de um texto literário

Rosa Maria: O que é uma leitura crítica?

Fabíola Farias: Considero crítica uma leitura que consegue relacionar o texto lido com o mundo vivido. Mesmo em propostas mais experimentais, muitas vezes não-lineares, a busca permanente é pela ampliação de repertórios – linguístico, estético – que permitam aos leitores pensar sobre sua história, as relações e discursos que organizam e determinam suas vidas e projetos, individuais e coletivos.

Em resumo, críticas são aquelas leituras que nos permitem um afastamento do cotidiano para voltarmos a ele de maneira mais madura e questionadora. No caso das crianças muito pequenas, o desafio está na compreensão da escrita como um lugar de poder, que registra, produz e pode subverter conhecimentos e narrativas: uma palavra que serve para mandar pode também servir para perguntar…  A melodia, o ritmo e a brincadeira com as palavras em um poema, por exemplo, carregam um grande potencial de subversão. 

RM: Na literatura infantil, o que esta leitura persegue?

FF: Não faço distinção entre a literatura “adulta” e a “para crianças”.

RM: O que o texto para crianças precisa ter para ser aprovado por um leitor crítico?

FF: Como um texto “para adultos” precisa ser inteligente e inventivo, respeitando e convocando o leitor para a experiência que propõe. Sem regras.

RM: Onde atua o leitor crítico?

FF: Como atuação profissional, a leitura crítica se destina, principalmente, ao atendimento de demandas do mercado editorial. Há também profissionais que se dedicam à leitura de originais de escritores. No campo da pesquisa e da mediação da leitura, onde atuo, a leitura crítica é uma atividade de reflexão sobre o livro como um todo, com sua narrativa, texto e ilustrações, realizada em um projeto gráfico, com materiais e formatos que façam parte de um projeto, que chegue “inteiro” para seus leitores.

RM: Explique mais sobre sua atuação como leitora crítica.

FF:  Tenho duas frentes de trabalho nessa área, que se encontram e se ajudam mutuamente: a primeira como leitora-votante da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ), seção brasileira do International Board on Books for Young People (IBBY), onde participo da avaliação da produção editorial brasileira “para crianças e jovens” a cada ano: os editores nos enviam seus livros, que lemos e analisamos de acordo com as categorias do Prêmio FNLIJ. Esse trabalho tem como resultado o selo Altamente Recomendável da FNLIJ, os livros premiados em suas categorias e os livros indicados para o Catálogo de Bologna. O trabalho que faço junto à FNLIJ, não remunerado, reverbera diretamente na minha atuação junto às bibliotecas públicas municipais de Belo Horizonte, tanto na escolha dos livros que compramos para os nossos acervos, feita coletivamente por um grupo interdisciplinar, quanto no atendimento diário aos leitores. As leituras feitas em função da FNLIJ me oferecem um panorama muito interessante da produção editorial brasileira. 

RM: Qual a diferença entre ser um leitor crítico e um revisor de texto?

FF: Acho que o leitor crítico se dedica ao texto como um texto como um todo, à sua narrativa, sua inventividade e, em alguns casos específicos, à sua fundamentação teórica. O revisor, entendo eu, se dedica a questões linguísticas.

RM: Onde funciona o seu escritório? Envie seus contatos.

FF: Quem quiser conversar sobre livros, participar de atividades de reflexão sobre o tema, pode procurar a Biblioteca Pública Infantil e Juvenil de Belo Horizonte, que fica no Centro de Referência da Juventude, na Praça da Estação, em Belo Horizonte; 3277-8658. bpij.fmc@pbh.gov.br

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