O “ofício” de uma ilustradora

A ilustradora mineira Marilda Castanha completa 30 anos de atuação na literatura. Ela foi a homenageada no Salão do Livro Infantil e Juvenil de Minas 2017 e, na abertura do evento, semana passada, falou lindamente sobre o seu trabalho, ou melhor, o seu belo, reconhecido e premiado  “ofício”.

Marilda Castanha Foto: Divulgação

Marilda Castanha – Foto: Divulgação

… “Receber esta homenagem no Salão do Livro Infantil e Juvenil de Minas Gerais, já é por si só motivo de orgulho. Mas para mim tem um significado próprio e muito pessoal, pois neste ano completo 30 anos de ofício! Poderia ter usado a palavra “carreira”, mas prefiro ofício. Carreira me passa a ideia de competição. Ofício não. Com a palavra ofício me reconheço. Ela me remete ao fazer, onde não preciso competir com ninguém (muito menos, claro, com meu marido, o ilustrador Nelson Cruz).

A palavra ofício abarca o que tenho feito nestes 30 anos: sento à minha mesa, e mesmo que eu esteja cheia de dúvidas e questionamentos, é pelo ofício diário do ato de ilustrar que busco e encontro respostas. Realizar o meu ofício é ao mesmo tempo reverenciar quem me incentivou (família, mestres e ilustradores), como também retribuir – ao incentivar ilustradores iniciantes e talentosos – tudo aquilo que recebi.

Com este ofício criei uma família paralela, são ilustradores autores que considero irmãos, grandes e verdadeiros amigos.  Ofício dá trabalho, mas traz um contentamento “sem fim” quando somos valorizados, premiados ou quando um novo projeto é aprovado por uma editora. Contentamento este que continua quando o livro, já publicado, chega às mãos dos leitores.

Este caminho que o livro percorre, de um rascunho inicial até as mãos do leitor, está sendo lembrado e representado no Salão do Livro Infantil e Juvenil pela imagem criada pelo designer Romero Ronconi: um pássaro de origami. O ilustrador, autor e grande amigo Marcelo Xavier em seu belo livro “Asa de papel” também aponta que livro pode ser:  grande companheiro,  remédio para momentos difíceis ou ainda  passaporte para viagens e aventuras.  Nós, o povo do livro, com as “asas de papel” que construímos, acreditamos que a leitura, e principalmente a literatura, não precisam, e nem devem, estar vinculadas e restritas apenas ao universo escolar.

Como prova disto cito projetos de leitura, que são realizados em todo o país por pessoas movidas, na maioria das vezes, apenas por um sonho, e que abrigam leitores em sítios, hospitais, presídios, praças públicas, pontos de ônibus.  Além de centenas de bibliotecas comunitárias que reinventam espaços e resistem bravamente em garagens, padarias, borracharias, açougues, oficinas mecânicas…  Todos eles sabem da importância de levar a crianças e adultos as “asas de papel” que criamos e são, sem exceção, um grande estímulo ao nosso trabalho…

marildaConsidero também que a homenagem que recebo se estende a todos os ilustradores, pois afirma que a Ilustração de um livro, muitas vezes, e principalmente nos livros ilustrados, é concebida como uma criação narrativa e autoral.   Não foi por acaso que Rosana Mont’Alverne, ao me pedir a criação de uma ilustração (a que está na entrada do Parque recebendo todos vocês e também na programação do evento) disse o que todo ilustrador quer ouvir: – Você tem total liberdade!   Nesta ilustração (veja imagem ao lado), que criei as marcas do meu trabalho (texturas e cores fortes) estão presentes.  Acontece que aprendi também, nestes 30 anos, que habilidade técnica não vale nada (ou quase nada) se não estiver a serviço de uma ideia, de um conceito ou de uma declaração.

Por isto é que considero que o personagem criado é minha declaração do que pode ser, pelo menos para mim, um leitor: alguém interessado ou mesmo apaixonado por leitura. Olhos por todo o corpo e várias mãos para segurar diferentes livros. É também livre para fazer suas próprias escolhas. Tem uma carinha simpática, pois não há ao seu lado ninguém para cerceá-lo, dirigi-lo e muito menos proibir-lhe de ler este ou aquele livro, por este ou aquele motivo. Com estes livros ele fará o que todo bom leitor faz: LER! Um observador atento pode até me questionar: mas ele tem pernas curtas, Marilda! Sim, quatro pernas (ou patas) curtas, mas o que importa? Nas mãos ele possui asas.

Marilda-Castanha

E para terminar, quero citar uma frase de Murilo Rubião: “Eu sinto a literatura não como uma missão, mas como uma maldição, porque não conseguiria fazer outra coisa e nem deixar de escrever.”

Parafraseando Murilo Rubião, acho que eu sofro da maldição… De desenhar!

Quem me conhece sabe que ando sempre com um pequeno bloco e uma caneta ou lápis na bolsa. Desenhar é minha maldição. Mas uma maldição abençoada! Pois me deu “régua e compasso” para o meu ofício. E é por tudo isto que hoje me alegro, comemoro e agradeço imensamente a vocês a homenagem recebida e desejo que o Salão do Livro traga, a todos nós, (ilustradores, escritores, editores, livreiros, narradores) e principalmente leitores, que somos o povo do livro, as melhores “réguas e compassos” para cada um de nós.  Simplesmente para que nossas pernas curtas (nossos limites) não nos impeçam de criarmos asas.  Sejam elas feitas de papel, ou não! Muito obrigada”.

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