Como incentivar uma criança a ler?

Christine Castilho Fontelles *

 

Do útero da mãe para o útero da palavra!

É bom lembrar que saber ler não é uma opção na nossa espécie. Ler é uma condição para fazer parte da vida em sociedade.

Saber ler não é instinto. Curiosidade é, em qualquer espécie animal. Movidos pela curiosidade podemos ser levados a ler. E escrever para narrar nossas descobertas.

E para o que não há receita, a “receita” é: ler para crianças desde sempre, por afeto e por direito.

Isto porque, no caso da nossa espécie, mundos inteirinhos são narrados ou inventados pela palavra, sendo que desde o dia em que há uns 6 mil anos atrás os sumérios organizaram tudinho na chamada escrita cuneiforme, nos tornamos a única espécie viva na Terra a seguir pensando, imaginando e escrevendo, e lendo, e pensando, e escrevendo num ciclo sem fim. De histórias de ninar à teoria das espécies passando por romances, nanotecnologia e bibliografias históricas, seja para tratar de revoluções, criar e partilhar utopias nós escrevemos e, para saber o que está escrito, lemos.

Nascidos para ler

A construção da linguagem se inicia no útero materno, como comprovam vários estudos de neurociência. A leitura de literatura é aliada da infância e da trajetória do comportamento leitor, escritor, do ser pensante, crítico, criativo, generoso, humano.

O poeta disse: “saímos do útero materno para ingressar no útero da palavra”. Somos primeiro leitores de ouvir e pouco a pouco nos tornamos leitores de ler.

Logo, os pais devem começar a ler literatura para as crianças desde o dia em que suspeitam que estão “grávidos”. Ou seja: em todo pré-natal a literatura deveria ser recomendada como alimento nutricional da nossa humanidade comum.

A infância deve ser povoada de palavras melódicas e significativas, em grau e quantidade muito superiores às palavras funcionárias, do estilo senta, levanta, coma, durma, quieta!

Inserida na cultura escrita antes de entrar na escola com experiências positivas, lúdicas, interativas, com ofertas de leituras diversificadas para fantasiar, inventar e se expressar será seu “passaporte” no processo de inserção na cultura escrita: seu passaporte para qualquer lugar do mundo.

Então, “toda” é a resposta para a pergunta “qual a importância da leitura literária na formação da criança”.

Um bom caminho seria considerarmos o exemplo do Chile, onde a convicção a cerca da importância e da potência da leitura de literatura integra a política pública nacional de apoio integral à infância.

O programa Chile Crece Contigo preconiza e oferta de livros de literatura às crianças atendidas pela rede pública de saúde.

Como incentivar uma criança a ler? Lendo com e para elas, falando de leituras e criando rotinas prazerosas para esses momentos. Ter um ambiente familiar que incentive leituras será essencial para a formação de um leitor. Com o tempo, aprenderá a recorrer às leituras para dar conta das mais diversas demandas: aprofundar-se sobre um tema, deslocar-se do real, habitar um livro por prazer serão um costume natural.

Os pais que não são alfabetizados ou plenamente alfabetizados também podem incentivar o comportamento leitor dos filhos. Podem folhear juntos um livro ilustrado, podem levar os filhos às bibliotecas e às livrarias… Podem folhear os livros junto com seus filhos e se estes já souberem ler podem pedir que leiam em voz alta para eles…todas estas e outras formas de interação com leituras são fundamentais e enormemente valiosas para a formação leitora, e escritora, das crianças.

E para o que não há receita, a “receita” é: ler para crianças desde sempre, por afeto e por direito.

Fonte: Rede Peteca

* Christine Castilho Fontelles é cientista social formada pela PUC/SP com MBA em marketing pela FIA/FEA/USP. É conselheira do Movimento por um Brasil Literário e da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ), além de fundadora da Centhral do Brasil, consultoria de projetos de educação para a leitura e escrita. Coordena também a campanha Eu Quero Minha Biblioteca.

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