“O peru de Natal”

Quem não é folião e prefere curtir os dias de folga com uma boa leitura, deixo aqui uma sugestão: contos de Mário de Andrade no formato Histórias em Quadrinhos desenhados por Francisco Vilachã. Não estranhe, mas vou lhe oferecer “O peru de Natal” em pleno Carnaval. O livro faz parte da Coleção HQ da Editora do Brasil e traz vários contos do escritor modernista.

 

“O peru de Natal”

“Será o Benedito”!

“Vestida de preto”

“Caim, Caim e o resto”

Esses são os contos escritos por Mário de Andrade e reunidos no livro com o título “O peru de Natal”. Todos foram transformados em Histórias em Quadrinhos por Francisco Vilachã, que detalha o seu processo de criação: primeiro, eu começo lendo o conto e escolho o que é mais relevante para a adaptação. Normalmente, a parte descritiva é eliminada de cara. Nos diálogos e legendas, procuro ser o mais fiel possível ao texto original. Depois de decupada as cenas em closes, plano geral e médio, trabalho a arte final com caneta e digitalizo os originais em alta definição. As cores são todas aplicadas de forma digital.

Pela explicação do quadrinista, o leitor já percebe que, quando um conto é adaptado dessa forma, se torna necessária duas leituras: o texto em si e mais a expressão dos personagens e os cenários, as cores empregadas e outros detalhes que são acrescentados nos quadrinhos para destacar situações da história.

Mário de Andrade sempre é citado como um autor perspicaz para falar de certos comportamentos do povo brasileiro. Como age o brasileiro no Natal, na ceia, na distribuição de presentes? E se esse brasileiro, então, vai viver um Natal com sua família, logo após o falecimento de seu pai? Acredite, Mário de Andrade fez desse tema uma história genial.

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O Natal há muito tempo ficou longe de se prender às comemorações do nascimento de Jesus Cristo, a confraternização e o amor entre as pessoas. Junte-se a isso, o fato do patriarca da família também não ser uma pessoa tão animada, como era de se esperar. Com sua morte, seria possível mudar o sentimento dos familiares naquele Natal? De que forma?

O nosso primeiro Natal de família, depois da morte de meu pai acontecida cinco meses antes, foi de conseqüências decisivas para a felicidade familiar. Nós sempre fôramos familiarmente felizes, nesse sentido muito abstrato da felicidade: gente honesta, sem crimes, lar sem brigas internas nem graves dificuldades econômicas. Mas, devido principalmente à natureza cinzenta de meu pai, ser desprovido de qualquer lirismo, de uma exemplaridade incapaz, acolchoado no medíocre, sempre nos faltara aquele aproveitamento da vida, aquele gosto pelas felicidades materiais, um vinho bom, uma estação de águas, aquisição de geladeira, coisas assim. Meu pai fora de um bom errado, quase dramático, o puro-sangue dos desmancha-prazeres”.

O filho estava disposto a fazer algo para acabar com a hipocrisia familiar no momento de se assentar à mesa para a ceia de Natal. Queria mais amor, mais entusiasmo, mais sinceridade de todos: mãe, tia solteirona e irmãos. Por isso, foi logo, avisando que ia fazer mais uma de suas loucuras.

“Era costume sempre, na família, a ceia de Natal. Ceia reles, já se imagina: ceia tipo meu pai, castanhas, figos, passas, depois da Missa do Galo. Empanturrados de amêndoas e nozes (quanto discutimos os três manos por causa dos quebra-nozes…), empanturrados de castanhas e monotonias, a gente se abraçava e ia pra cama. Foi lembrando isso que arrebentei com uma das minhas loucuras”:

— Bom, no Natal, quero comer peru.”

Mesmo diante de uma família perplexa pela loucura do rapaz de preparar uma ceia tão festiva em dias de luto, todos acabaram participando.

Comprou-se o peru, fez-se o peru, etc. E depois de uma Missa do Galo bem mal rezada, se deu o nosso mais maravilhoso Natal. Fora engraçado: assim que me lembrara de que finalmente ia fazer mamãe comer peru, não fizera outra coisa aqueles dias que pensar nela, sentir ternura por ela, amar minha velhinha adorada. E meus manos também, estavam no mesmo ritmo violento de amor, todos dominados pela felicidade nova que o peru vinha imprimindo na família. De modo que, ainda disfarçando as coisas, deixei muito sossegado que mamãe cortasse todo o peito do peru. Um momento aliás, ela parou, feito fatias um dos lados do peito da ave, não resistindo àquelas leis de economia que sempre a tinham entorpecido numa quase pobreza sem razão.”

Em seu conto, Mário de Andrade fez questão de falar dos detalhes de como cada um saboreou o peru, especialmente a matriarca, que foram tão ricamente percebidos e desenhados por Vilachã.

O leitor não tem apenas um peru para saborear. As outras histórias dessa obra têm a mesma riqueza literária de Mário de Andrade e a beleza editorial proporcionada pelos quadrinhos.

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