A arte de contar histórias

Foto: Portal do MEC

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A data de 20 de março é dedicada a comemorar o Dia Internacional do Contador de Histórias. A cada ano, a atividade vem ganhando mais espaço na literatura, na educação, na cultura e nas artes e, em 2018, pode ficar mais forte ainda ao se tornar uma profissão regulamentada, o que atualmente está sendo debatido na Câmara dos Deputados, segundo a Agência de Notícias.

Durante uma sessão em homenagem aos contadores, semana passada, na Câmara, a deputada Erika Kokay (PT-DF) destacou que o elemento lúdico de se contar uma história estimula o reconhecimento da beleza e da riqueza cultural do País. “Nós queremos introduzir a contação de histórias em todas as políticas públicas. Primeiro, pela importância dela como um saber de um Brasil muitas vezes esquecido, de um Brasil profundo. Segundo, porque é um exercício de recontar nossas próprias vidas e histórias”, justifica.

Nas comemorações do Dia Internacional do Contador de Histórias, o escritor, ilustrador, professor e narrador Celso Sisto foi premiado em Brasília pelo Grupo Gwaya, da Universidade de Goiás, pela sua trajetória profissional - Foto: FB

Nas comemorações do Dia Internacional do Contador de Histórias, o escritor, ilustrador, professor e narrador Celso Sisto foi premiado em Brasília pelo Grupo Gwaya, da Universidade de Goiás, pela sua trajetória profissional – Foto: FB

A necessidade da adoção de políticas públicas específicas para contadores de histórias, através das secretarias de cultura, também foi destacada pela contadora Edvânia Braz, de Goiânia. “O contador de histórias trabalha com incentivo à leitura, com a interpretação dos textos e a reformulação desse texto naquela perspectiva que a criança ou o adulto recebeu. É uma reconstrução do texto literário a partir da viagem que você faz, a percepção dos personagens e a proposta do autor”.

O escritor, ilustrador e professor de literatura Celso Sisto, convidado do evento, destacou a importância da oralidade como forma de transmissão e valorização da cultura e da afeição, além de ajudar na formação de leitores. “Os contadores de histórias fazem esse trabalho de abrir algumas portas como mediadores de leitura para que as crianças, os adultos, os idosos, as pessoas, enfim, que têm a possibilidade de se encantarem pela arte da palavra, possam depois, por elas mesmas, descobrirem outros caminhos a partir do estímulo inicial do contador de histórias”.

Em Brasília e por todo o Brasil, hoje, serão realizados vários eventos para comemorar o Dia Internacional do Contador de Histórias. As malinhas mágicas, de onde os contadores retiram objetos encantados para ilustrar suas narrações e envolver a plateia, vão viajar de norte a sul e de leste a oeste, para levarem arte e literatura para adultos e crianças.

Em Belo Horizonte, as comemorações começaram cedo. No último fim de semana, foi realizada uma maratona de 12 horas ininterruptas de histórias no 1° Encontrão de Contadores de BH, evento apoiado pelo McDonald´s. No Sesc Palladium, participaram 86 profissionais que apresentaram dezenas de histórias infantis para uma plateia tão animada quanto os narradores.

A data

Em BH, os contadores de histórias Pierre André e Beatriz Myrrha promoveram uma maratona de 12 horas ininterruptas de histórias - Foto: FB

Em BH, os contadores de histórias Pierre André e Beatriz Myrrha promoveram uma maratona de 12 horas ininterruptas de histórias – Foto: FB

29315230_1657386037630664_5231220022784819200_nAs raízes dessa data são de 1991, na Suécia, e a data chamava-se “Dia de Todos os Contadores de Histórias”. O evento prosseguiu em 1992, mas após isso foi perdendo força. Em 1997, contadores de histórias em Perth, Austrália Ocidental, coordenaram uma celebração durante uma semana, comemorando 20 de março como o Dia Internacional de Narradores Orais. Ao mesmo tempo, no México e outros países da América do Sul, 20 de março foi celebrado como o Dia Nacional de Narradores.

Em 2001, a rede escandinava de contadores de histórias deu um novo impulso ao 20 de março e, a partir do ano seguinte, o evento espalhou-se da Suécia para a Noruega, Dinamarca, Finlândia e Estónia. Em 2003, a ideia chegou ao Canadá e outros países. Assim, o evento tornou-se conhecido internacionalmente como o Dia Mundial do Contador de Histórias. A França iniciou em 2004 e no ano seguinte já eram 25 países em 5 continentes.

Em 2007 aconteceu um festival em Newfoundland, Canadá. Em 2008, a Holanda participou com um grande evento chamado Vertellers no de Aanval’ e três mil crianças ficaram surpresas com a aparição repentina de contadores de histórias em sala de aula. Em 2009, houve eventos na Europa, Ásia, África, América do Norte, América do Sul e Austrália.

Não é de hoje que a prática de contar histórias existe. Muito pelo contrário, podemos dizer que a evolução da humanidade está diretamente ligada a arte de contar histórias. Cada um de nós carrega um contador, pois estamos sempre dispostos a narrar casos, aventuras, histórias.

Leitura recomendada

esseO livro “Textos e pretextos sobre a arte de contar histórias”, de Celso Sisto, lançado pela Aletria Editora, é recomendado para quem deseja conhecer mais sobre a profissão. Para quem gosta de contar histórias ou quer se aperfeiçoar nessa arte, para aqueles que desejam se tornar contadores de histórias ou para os educadores que querem ampliar seu instrumental pedagógico em sala de aula.

Desde “A arte de ler e contar histórias”, de Malba Tahan, não se via um manual tão bem escrito e repleto de referências bibliográficas, roteiros de oficinas e dicas literárias como este livro do premiado autor Celso Sisto. Uma obra definitiva para educadores, pedagogos, bibliotecários, estudantes, artistas e promotores de leitura. Essa semana, o livro está em promoção no site da editora com 50% de desconto, ou seja, custa só R$ 23,00. Clique para comprar: https://www.aletria.com.br/apoio-ao-educador/Textos-e-pretextos-sobre-a-arte-de-contar-historias

 

Credo do Contador de Histórias

“Creio no contador, como memória viva do amor, e creio em seu filho e no filho de seu filho, e no filho de seu filho, porque eles são a estirpe da voz, os criadores da terra e do céu das vozes: voz das vozes. Creio no contador, concebido nos espelhos da água, nascido humilde, tantas vezes negado, tantas vezes crucificado, porém, nunca morto, nunca sepultado, porque sempre ressuscitou dos vivos congregando-os a ser: xamã, fabulista, contador de histórias…

Creio na magia que na entrada das cavernas acendeu o primeiro fogo que reuniu como estrelas: o assombro, o tremor, a fé. Creio no contador, que desde os tempos tribais a todos antecedeu para alcançar-nos por que é. Creio em suas mentiras fabulosas que escondem fabulosas certezas, no prodígio de sua invenção, que vaticina realidades insuspeitas, e também creio na fantasia das verdades e nas verdades da fantasia, por isso creio nas sete léguas das botas, na serpente que antes foi inofensiva galinha e no gato único no mundo, aquele gato que ao miar lançava moedas de ouro pela boca.

Creio nos contos de minha mãe, como minha mãe acreditou nos contos de minha avó, como minha avó acreditou nos contos de minha bisavó e recordo a voz que me contava para afastar a enfermidade e o medo, a voz que recordava os conselhos entesourados pela mãe para passá-los ao filho:— Não te desvies do teu caminho; Nunca faças de noite o que possas te envergonhar pela manhã.

Creio no direito da criança escutar contos. E mais: creio no direito das crianças vivas dentro dos adultos de voltar a escutar os contos que povoaram sua infância. E mais: creio nos direitos dos adultos, desde sempre e para sempre de escutar contos, outros novos contos.

Creio no gesto que conta, porque em sua mão desnuda, despojadamente desnuda, está o coelho. Creio no tambor que redobra, porque o que haveria sido do mundo se não tivesse sido inventado o tambor, se a poesia não reinventasse o mundo dentro de nós, se o conto, ao improvisar o mundo, não o reordenasse, se o teatro não desvelasse a cerimônia secreta das máscaras e por isso…
Por que creio, narro oralmente.

Creio que contar é defender a pureza, defender a sabedoria da ingenuidade, defender a força da indagação. Creio que contar é compartilhar a confiança, compartilhar a simplicidade como transparência da profundidade, compartilhar a linguagem comum da beleza. Creio que contar é amor.”  (Garzón Céspedes)

Contadoras de Histórias que se apresentam na área infantil da Biblioteca Pública de Minas Gerais

Grupo de Contadoras de Histórias que se apresenta na área infantil da Biblioteca Pública de Minas Gerais – Foto FB

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