“A melhor literatura infantil que se pode ter”

Você sabe como atua um consultor ou consultora em literatura infantil? Hoje, você vai entender sobre essa atividade profissional, através de Heloísa Davino, e ter a certeza que os livros infantis produzidos no Brasil são, de fato, de alta qualidade literária. Na entrevista que concedeu ao blog, de Ouro Preto, onde reside e trabalha, a consultora analisa a atividade e a literatura com sua experiência de 25 anos de trabalho, pesquisas e observações.

Heloísa Davino: “Acredito que temos todos os motivos para celebrar a nossa literatura infantil”

Heloísa Davino: “Acredito que temos todos os motivos para celebrar a nossa literatura infantil”

Rosa Maria: Como é atuar como consultora de literatura infantil?

Heloísa Davino: Maravilhoso! O encontro com educadores é sempre uma riqueza. Soma-se a isso a melhor literatura infantil que se pode ter e temos, pronto! É uma experiência extraordinária. Apresentar, trabalhar e ampliar este repertório de leitura de mundo e da palavra escrita, de temas, estilos, formas, produção de sentidos, das possibilidades de trabalhar – tudo tão múltiplo, diverso é mesmo inspirador. Não estou dizendo que seja fácil e sim, rico.

 

RM: Como seu trabalho pode ajudar as editoras?

HD: Considero que o principal apoio que posso dar é aproximar os educadores das editoras, dos seus produtos (conhecer para poder escolher, escolher por opção e não por falta de opção) e criar uma aproximação, um vínculo de comunicação e parceria. Normalmente é o que acontece, quando apresento e trabalho com os livros e diferentes editoras: defino referências bibliográficas, uso alguma informação contida em uma ferramenta digital(blog ou página do Facebook de editora), analiso os catálogos, faço resenha de livro e a defesa dele em rede social, realizo feira de livros ou encontro com autor, lançamento de livro ou sou convidada para realizar algum trabalho no espaço da editora ou em algum evento do calendário dela.

 

RM: E ao leitor?

HD: Quando realizo esses trabalhos acima, estou apoiando os leitores.

 

RM: Qual é o cenário da literatura infantil no Brasil? E em Minas?

HD: Esta é uma pergunta que contém muitos aspectos que podem ser observados. Não quero parecer simplória, mas vejo e quero sempre ver com muito bons olhos e acredito que temos todos os motivos para celebrar a nossa literatura infantil. Veja a riqueza de produção em quantidade e qualidade; o Brasil tem sido homenageado e é presença constante com a produção literária e escritores convidados nos grandes eventos literários internacionais; estão pipocando eventos literários (bienais, salões, seminários, colóquios, contação de histórias etc.) pelo país afora anualmente e crescendo… É o que sei e vejo em Minas e em vários outros estados. Com o advento da internet, essa rede certamente crescerá e chegará a todo canto do país.

 

 RM: Qual é o ponto fraco que pode ser corrigido através de uma consultoria?

HD: De que conceito estamos falando? Fraco em relação a que ou a quem? Eu penso e foco minha atenção e energia não na cultura da falta, mas na potência, nas possibilidades e experiências. Trabalhar com esse pensamento muda a relação com o trabalho, as pessoas, objeto de trabalho, com tudo. Essa é uma perspectiva positiva que, certamente, tem maior chance de gerar avanços. Essa construção de pensamento é um dos trabalhos mais poderosos que a consultoria pode realizar.

 

RM: O que você concorda e o que não concorda perante as práticas atuais de condução da literatura infantil?

HD: O positivo é ver o movimento pela busca do conhecimento do objeto de trabalho (mais estudos, mais pesquisas, mais trocas, mais criação, ampliação de repertório etc.). Fundamental! Por outro lado, ainda temos, em pleno 2018, velhas repetições (mesmos títulos, mesmos autores, mesmos temas etc.) e fórmulas prontas, que não criam ressonâncias e avanços, completamente desnecessárias. Esse é um aspecto que merece ser trabalhado.

 

RM: Quais são suas principais preocupações com o conteúdo que chega às mãos das crianças?

HD: Fico pensando por onde passam as escolhas, os critérios, as percepções, o conhecimento…

 

RM: Como os professores devem ser auxiliados?

HD: A começar por ouvi-los. Certamente eles têm muito a dizer, a solicitar, a sugerir. É preciso fomentar essa relação dialógica. Interagir para transformar. Esse pode ser um bom começo.

Há um elemento importantíssimo que não foi abordado e que gostaria de colocar: a ilustração. Não raro, em meus cursos, observo que, para uma grande maioria de educadores, a ilustração está presente meramente para “embelezar” o livro. O que não é bem assim. A ilustração vem como “outro texto” feito de imagens a ser lido, outra possibilidade de ampliar nossas ideias, conhecimentos, leitura de mundo e tem a força para nos instigar os sentidos, os desejos, nosso prazer em ler, nosso senso estético. Aponta para outras perspectivas aliando artes plásticas ou fotografia ou arte digital etc, às palavras. O trabalho do ilustrador é tão importante quanto do escritor. Ambos nos arrebatam, cutucam o imaginário e contribuem com o desenvolvimento intelectual do leitor. Eu sou uma apaixonada pelo trabalho dos ilustradores brasileiros e faço questão de colocar a ilustração como um item a ser trabalhado nos meus cursos.

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Heloísa Davino começou a atuar como consultora na Biblioteca Infantil e Juvenil da Prefeitura de Belo Horizonte e, em seguida, foi professora de literatura infantil na rede particular de ensino. Um ano depois, vieram convites para trabalhos em editoras, palestras e oficinas em bienais e salões do livro, em grandes projetos de leitura como PROLER, Cantinho de Leitura (Minas e Goiás), Paixão de Ler etc, ou mesmo, a participação em seminários de educação como os AMAE Educando, Festival de Inverno Ouro Preto/Mariana e Seminário de Literatura do Vale do Aço.

Atualmente, Heloísa se dedica à consultoria em literatura infantil (cursos, oficinas, atendimentos individuais) com foco na formação de educadores que trabalham diretamente com a infância – os da educação infantil e ensino fundamental 1, bibliotecários, contadores de histórias, estudantes de Pedagogia e Letras. Ela está preparando a retomada na íntegra do Projeto Sempre Viva Leitura, iniciado em 2014 com os Piqueniques Literários e Varais de Poesias, e lançamento de um ou dois livros.

Mas houve um momento muito especial na carreira de Heloísa Davino e ela explica: “Preciso dizer que a literatura infantil e juvenil – aí me refiro à Pós graduação em Literatura Infantil e Juvenil da PUC/MG, de 1990 a 1992 , a primeira turma do Brasil – como um divisor de águas na minha vida. Mudou absolutamente  tudo. Saí do mecanicismo e ganhei o espaço da criação, da emoção, do imponderável, do mistério, o encontro comigo mesma. Tenho certeza que me tornei uma pessoa, uma profissional, muito melhor graças a essa literatura inspiradora e profundamente transformadora”, conclui a consultora.

4 pensamentos sobre ““A melhor literatura infantil que se pode ter”

  1. Gostei muito dessa entrevista com Heloísa Davino. Tive o enorme prazer de com ela conviver e partilhar encontros literários. Muito aprendi e meu interesse por literatura tornou-se especial diante das inúmeras observações por ela descritas. Parabéns pelo trabalho e atenção que dedicas ao universo literário!

  2. Heloisa Davino possui o poder da paixão e encantamento pela leitura, fazendo que mergulhemos numa delícia sem fim. Depois disso é o querer e querer sempre mais.

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