“Pedro Coelho”: livro infantil estreia no cinema

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“Pedro Coelho” ou, no original, “Peter Rabbit” é o personagem de um famoso livro infantil escrito e ilustrado lindamente pela inglesa Beatrix Potter. É uma divertida história sobre coelhinhos, que vivem se metendo em confusões; camundongas velhotas cheias de truques e mais parecem a avó ou bisavó que todo mundo teve um dia; gatos sorrateiros, que não merecem muita confiança e um fazendeiro rabugento chamado Seu Gregório, que, ancinho na mão, vive correndo atrás dos coelhos, gritando ‘Pára aí, seu ladrão’.

Também há a Dona Gregória que, de vez em quando, perde a paciência, chama o marido de velho maluco e logo, logo, um repolho sai voando pela janela da cozinha, além de passarinhos amigos, que não podem ver um coelho com medo sem vir correndo mostrar o caminho de volta à paz lá do bosque _ paz essa que parecia perdida_ e dos espantalhos, que não assustam ninguém.

Agora, o personagem sai do livro para o cinema. A comédia “Pedro Coelho” estreou no Brasil (incluindo Belo Horizonte) nesse final de semana A eterna disputa entre o intrépido Pedro e o Sr. McGregor (Domhnall Gleason) pelo tesouro em vegetais, que está enterrado em seu jardim proibido, fica ainda mais intensa por que os dois passam a brigar também pela atenção da vizinha bondosa e amante dos animais (Rose Byrne).

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O filme

Vamos ler o que o cineasta brasileiro Daniel Bydlowski fala sobre seu filme numa matéria do jornal Diário de Pernambuco:

“Pedro Coelho” pode ser um daqueles filmes infantis que poucos prestam atenção, seja por que é similar a muitas outras obras produzidas nos últimos anos, ou por não ter feito muito sucesso na bilheteria, como o caso de Paddington, dirigido com bastante sucesso por Paul King que também mistura live action e animação por meio de seres humanos que interagem com animais falantes. Porém, o longa mostra mudanças no que diz respeito a obras dirigidas às crianças nos últimos tempos e um dos modos mais fáceis de perceber essas alterações é entendendo clichês de produções infantis.

“Pedro Coelho” é baseado no livro britânico “Peter Rabbit”, escrito e ilustrado por Beatrix Potter, publicado em 1902. Assim como o Pernalonga da Looney Tunes, a obra mostra um coelho levado, sendo precursor deste tipo de animal arteiro que causa confusão. Enquanto o Pernalonga desobedece a todos, fazendo o que quer, Pedro é um pouco mais inocente e, neste caso, não obedece a sua mãe. Esta característica demonstra uma obra infantil que preza por mostrar a dinâmica da família em primeiro lugar.

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Na história, como o pai de Pedro foi colocado em uma torta de carne de coelho, depois de visitar o jardim do senhor McGregor, sua mãe pede que todos os seus filhos evitem o lugar. Porém, o levado animal não obedece. O senhor McGregor o caça e Pedro tem dificuldade de escapar. Quando finalmente consegue voltar para casa depois de muita correria, o coelhinho fica doente. Sua mãe, então, dá chá para que Pedro melhore, enquanto suas irmãs, que tinham obedecido, comem uma comida deliciosa.

Tanto o tipo de arte, quanto a trama, que tem uma clara moral (quem obedece aos pais e se comporta bem é presenteado no final), fizeram do livro um sucesso para as crianças, especialmente como história para dormir. O filme, pelo contrário, traz um estilo diferente e mostra como muitos produtores atuais reinterpretam contos infantis, muitas vezes mudando o que é esperado pelo gênero.

Os primeiros 10 minutos de “Pedro Coelho” lembram a história do livro. Porém, logo que o senhor McGregor consegue pegar o coelhinho, ele tem um ataque cardíaco e morre. Pedro, a princípio confuso, logo festeja e finge que ele mesmo causou o trágico acontecimento, em uma suposta luta contra o idoso. Isto mostra um coelho não tão inocente (talvez nada inocente, e que se comporta mais como adolescente do que como criança.

Mesmo que McGregor seja uma pessoa ranzinza, que não gosta dos animais que visitam seu jardim, o comportamento de Pedro faz com que seja mais difícil de se identificar com o personagem. Quando ele relembra seu pai em uma triste cena, fica então clara a falta de empatia do coelhinho para com os outros.
Para superar a falta de identificação com o personagem, o longa traz referências a músicas e danças populares, algo que virou clichê em filmes infantis.

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Personagens dançam ao ritmo de músicas contemporâneas, enquanto fazem uma incrível bagunça, com o único intuito de fazer a plateia rir de maneira rápida e fácil. E isto se torna muitas vezes eficaz: é realmente engraçado ver animais dançando como humanos. Mas logo depois disso, fica a pergunta: o que sobra em um filme, onde o personagem principal não é tão fácil de se identificar?

Se a moral do livro é a recompensa que vem com a obediência aos pais, a produção para cinema destaca mais a aceitação de Pedro em formar uma nova família com o neto de McGregor. O foco desta reinterpretação da obra antiga, então, deixa de ser a família, para se tornar a acolhimento de amigos e estranhos que, a princípio, pareciam antagonizar o personagem. Embora esta moral possa ainda ser interessante para o público infantil, é mais complexa e difícil de entender entre os mais jovens.

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