Dia Nacional do Livro Infantil

F20018 de abril é a data maior da literatura infantil no Brasil.

É uma homenagem ao nascimento de Monteiro Lobato e também à sua obra. Este ano, completa-se 70 anos da morte do autor, que faleceu aos 66 anos de idade, no dia 4 de julho de 1948. Para comemorarmos o Dia Nacional do Livro Infantil, este ano, o blog optou pela reprodução de uma análise muito importante da Fundação Nacional do Livro Infantil (FNLIJ) sobre o legado do pai da literatura brasileira, “Lobato sempre”! Vamos, hoje, conhecer um pouco mais sobre o autor, sua obra e o livro infantil, por que, a partir de 2019, os livros de Lobato entram em domínio público e poderão ser publicados livremente.

Segundo Laura Sandroni, uma das fundadoras da FNLIJ e autora do livro De Lobato a Bojunga: as reinações renovadas (Nova Fronteira), a obra de Monteiro Lobato foi o grande marco da Literatura Infantil e Juvenil brasileira e é a partir dela que o gênero assume em nosso país as características estéticas inovadoras que permitiriam a sua projeção nos dias de hoje no cenário nacional e mundial.

Se antecipando à data, a Fundação organizou a mesa Lobato 70 anos! Reuniu Camila Werner (editora do selo Globinho e das obras de Monteiro Lobato na Editora Globo), Luciana Sandroni (escritora) e Sônia Travassos (mestre em Educação e escritora). Cada participante do encontro abordou a obra do autor de um ponto de vista.

Camila apresentou um painel das diversas edições dos livros do escritor, através dos anos, detalhando formatos e projetos editoriais. Luciana falou sobre a adaptação do universo de Lobato para televisão em 2001, da qual participou como roteirista. Sônia apresentou uma pesquisa realizada por ela sobre como se promove a leitura do autor na escola.

A mesa apresentou um interessante retrato da obra de Lobato, permeado pelas possíveis mudanças pelas quais ela pode passar a partir do ano que vem. O encontro foi um sucesso, com grande participação do público e também de quem assistiu ao vivo pela página do Salão FNLIJ no Facebook. O vídeo está disponível no canal da FNLIJ no YouTube.

emilia

Edições de Lobato

Camila Werner ressaltou a importância de Lobato como editor e empresário, que inovou na parte de distribuição dos livros, vendendo exemplares em locais inéditos, como mercearias, e apresentou as diversas edições da obra do autor, começando pelas publicadas por ele mesmo. Os primeiros exemplares eram de capa dura, com diferentes ilustradores.

Como editor, ele sempre renovava as edições, chamando ilustradores ativos no mercado, cartunistas ou profissionais da publicidade. Lobato tinha a visão do produto livro, destacou Camila.

Dona-benta-narizinho-e-emiliaMesmo se desligando como sócio da sua última editora, o escritor teve seus livros editados pela Companhia Editora Nacional até 1946, quando passaram a ser publicados pela editora Brasiliense. Na década de 70, a Brasiliense mudou o formato das obras, que passaram a ficar maiores, lembrando um livro didático. A partir de 2007, os direitos foram adquiridos pela editora Globo, que dividiu os títulos em três categorias: Imaginário, Reconto e Paradidáticos.

No Imaginário, estão as obras do Sitio do Pica Pau Amarelo, que começa com Reinações de Narizinho, somando oito títulos. No Recontos, estão os personagens do Lobato participando de histórias de tradição literária mundial e do folclore, entre eles O Minotauro. Os Paradidáticos abordam temas escolares, como Emília no país da gramática.

A editora Globo manteve o formato de apostila, semelhante ao que era publicado na Brasiliense, e a obra era ilustrada com imagens ligadas ao programa de TV e aos produtos licenciados. A partir de 2016, a editora retornou ao formato original do autor, voltando para visão que o Lobato tinha dos próprios livros. Foi criado um projeto gráfico novo para se distanciar do programa da televisão e chamamos um ilustrador para fazer as imagens do Imaginário, que é a que tem maior destaque, o Guazelli, porque ele tem uma atuação semelhante ao dos ilustradores escolhidos pelo Lobato, explicou Camila.

O selo adulto Biblioteca Azul da editora, para clássicos e obras de alta literatura, recebeu alguns títulos do autor para atender aos colecionadores.  Além da mudança nos selos infantis, a Biblioteca Azul relançou algumas obras em capa dura, com ilustrações dos artistas que Lobato escolheu em sua época, para o leitor que leu a obra quando criança e tem saudade daquele livro da infância, disse Camila.

Lobato na televisão

Sítio-do-Picapau-AmareloA escritora Luciana Sandroni contou sobre sua participação na terceira adaptação do Sitio do Pica-Pau Amarelo para TV, quando atuou como roteirista no programa em 2001. Luciana lembrou da primeira adaptação produzida em 1952 pela escritora e tradutora Tatiana Belinky e apresentada pelo seu marido Júlio Gouvêa na TV Tupi. Júlio abria e encerrava cada episódio com o livro da história que seria apresentada, trazendo para TV a relação de afeto entre quem lê e a criança. Depois veio a adaptação da Globo em 1977 e, em 2001, a produção da Globo queria uma adaptação fiel à obra do autor, mas ambientada nos anos 2000.

Pulei de alegria, fiel é comigo mesmo. Percebemos que uma casa fora da cidade é meio parada no tempo e esse sítio seria muito parecido com o sítio do livro.

Segundo a escritora, o programa causou impacto, porque na época os programas infantis eram de auditório, no estúdio e o verde das locações do sítio mudou esse formato. A adaptação se manteve fiel à obra de Lobato, mesmo com as histórias se passando no momento atual. A Dona Benta era uma figura muito moderna para época e muito antenada. Ela assinava jornais, recebia livros da capital, estava sempre lendo, se informando, lembra Luciana.

untitledNa adaptação havia a questão da Emília, como a personagem irreverente que tem aquele papel de falar o que não se fala, de colocar o dedo na ferida. Os roteiristas resolveram tirar algumas frases dela, porque nos anos 2000 eles acharam que a Emília não falaria assim com a tia Anastácia, por exemplo. Outra mudança foi no “Caçadas de Pedrinho”, em que o personagem mata a onça no livro. Na adaptação, caçadores estavam no Capoeirão dos Tucanos caçando onça e a turma do sítio não os deixa agir, disse Luciana.

Outro trabalho da escritora foi o livro O Sítio no descobrimento, lançado no ano 2000 pela Globo, contando as aventuras dos personagens de Lobato descobrindo o Brasil junto com o Cabral nos 500 anos do descobrimento. Foi uma segunda experiência com a obra dele. Eu já tinha escrito “Minhas memórias de Lobato” (Companhia das Letrinhas). Depois que eu reli a obra dele, acho que me identifiquei muito com essa questão de trabalhar o real através do imaginário. Quando fiz “O Sítio no descobrimento” trabalhei com história real e com os personagens do Sítio, explicou Luciana.

Lobato na escola

Para finalizar a mesa, Sônia Travassos trouxe o ponto de vista de quem trabalha academicamente com a obra de Lobato, como pesquisadora e como professora na sala de aula. Sônia também é professora dos cursos da FNLIJ de LIJ para os professores da rede municipal de ensino e sua aula é sobre Lobato. Sônia destacou o pioneirismo da obra do autor, que valorizou a inteligência das crianças, e lançou as indagações: Como lemos hoje Monteiro Lobato na escola? É possível ler a obra dele do jeito que ela está escrita?

Sônia trouxe a fala de uma professora do Colégio Pedro II que trabalhava a obra com as crianças, lendo em capítulos Reinações de Narizinho. Dentro de nossa proposta de conhecer autores brasileiros, Lobato é uma referência, é um texto brasileiro, tem nossa marca, é uma identidade. Acho que não tem como não trazer Lobato. Muitos dizem que é um texto de quase 100 anos e perguntam: as crianças ainda o leem? Sim, de outra maneira, mas leem. Eu acho um texto primoroso, a gente vai lendo fragmentos e contando do nosso jeito outros pedaços. As crianças vão até o livro, buscam, disse a professora.

Segundo Sônia, a leitura do Lobato, hoje, na escola, é muito atravessada pela experiência que as crianças já têm da televisão. No Pedro II, onde assistiu aulas das crianças lendo as obras, pôde observar o que acontece: A professora distribuiu vários livros do Lobato e me aproximei de um menino e perguntei se era bom ler sozinho. Ele me respondeu que sim e perguntei se ele lembrava do vídeo que tinha assistido na semana anterior. Ele também disse que sim e que estava lendo uma parte que não aparecia no vídeo. Sônia acredita que os livros de Lobato podem provocar esse diálogo das crianças com a obra e com o outro, além da identificação delas com os personagens.

Dia-do-Livro-Infantil-MM-1024x768

Domínio público

Sônia também questionou o que se pode esperar da obra do autor, quando entrar em domínio público. Novas edições de texto integrais do autor, projetos gráficos diferenciados, novos ilustradores. Mas também novas edições com textos adaptados – os textos das obras serão reduzidos?

Eu acredito que vai ter gente que vai diminuir os textos, porque vai achar que a criança de hoje não vai ler o texto longo. Eu não concordo, mas acho que vai acontecer. A linguagem será facilitada? Com certeza e também não concordo, porque a linguagem é provocadora dos sentidos. Passagens que envolvam algum tipo de tensão, preconceito, serão retiradas, tentando tornar a obra politicamente correta? Essas seriam demandas da escola?

Novas narrativas com a turma do sítio, em outros suportes? Já acontecem e vão continuar acontecendo. Poderão estimular a leitura da obra original? Essa é a grande pergunta. São muitas as indagações, vamos continuar conversando, finalizou Sônia.

Para FNLIJ, Monteiro Lobato criou uma obra completa para crianças, abordando três aspectos fundamentais: a ficção; as histórias clássicas da literatura, revisitadas por meio de seus personagens, e o incentivo ao estudo ao lidar com as matérias escolares nos seus títulos de maneira didática. Isso é inédito no mundo.

Em títulos como Dom Quixote das Crianças, Lobato dá uma aula de como ler uma obra clássica para os pequenos, despertando o interesse pelo personagem de Cervantes e ao mesmo tempo em que convida para ler o livro original do autor.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *