Ana Raquel, a “iluscritora”

Fiz a entrevista que publico hoje com Ana Raquel por email e só a conheço pelo seu trabalho e pelas trocas de informação via internet, mas, mesmo longe, arrisco a afirmar que, além do talento, ela esbanja alegria, bom humor, irreverência e muuuita (como ela gosta de escrever) criatividade. Leiam o título acima: copiei dela, que inventou esse termo novo para se apresentar como ilustradora e escritora. Gostaram de ‘iluscritora’? Eu amei o neologismo. Então, vamos conhecer Ana Raquel e seu belo trabalho, que repercute tão bem em todo o Brasil.

Ana Raquel sobre os tempos de trabalho digital: "A essa altura da vida, aprender coisas diferentes é um bom desafio e ajuda a não ficar caduca... eheh..."

Ana Raquel sobre os tempos de trabalho digital: “A essa altura da vida, aprender coisas diferentes é um bom desafio e ajuda a não ficar caduca… eheh…”

Rosa Maria: Há quanto tempo, você atua como ilustradora? Por que se sentiu atraída pela literatura?

Ana Raquel: Comecei a ilustrar literatura infantil em 1980. De lá pra cá, fui ilustrando, ilustrando… Até que, um dia, palavras me assaltaram saídas de não sei onde e tive que escrevê-las. Sem parar de ilustrar outros autores, pois amo entrar na viagem de um texto desconhecido e ir desvendando sua alma via linguagem das imagens.

Agora sou ‘ iluscritora’.

Mudei de Belo Horizonte pra Bahia e com isso achar tempo pra minha “carreira solo”.  Iluscrevi ou escrilustrei alguns, neste sossego tropical. Publiquei quatro e tenho alguns no ‘forno’ pra sair. O quinto fala sobre racismo num tom bem humorado.

Por ordem cronológica:

“Imágicas” 2005 (sem texto), “Cajaré” 2008, “Ovo” 2009, “Pé de tudo e mais um pouco” 2009, “É diferente, mas é igual; é igual, mas é diferente”, 2015, sobre intolerância e racismo.

Tenho três inéditos, prontos para imprimir, mais dois com roteiro para animação: “Vôo Livro”, sem texto, é um livro em branco que voa por vários cenários de histórias e vai recolhendo personagens até pousar na estante. Modelado em biscuit, será animado em breve.

“Que bicho que é?” também deve ser animado, quando eu conseguir tempo.

“As criaturas do mangue”, que fotografei, pintei e bordei num pano com linha, depois mistureie juntei um texto poético. Fiz quando morei na beira do mangue em Santo André, aqui do outro lado do rio, há um ano.

RM: O que significa para você ser ilustradora de livros infantis?

AR: É o que sei e gosto muuuuito de fazer. Eu tinha uns 10 anos, quando vi, numa enciclopédia, a reprodução do famoso quarto de Van Gogh e eu disse pra mim que queria fazer isso um dia: contar histórias desenhando. Para mim, aquela cena do quarto com a janela e a cadeira, contava muitas coisas, me levava longe.

Sinto uma privilegiada por, com perrengue ou sem perrengue, ter vivido disso até hoje. Poderia ter feito um concurso pro Banco do Brasil, há 40 anos, como meu pai sonhava, pra desenhar nos fins de semana… Mas consegui sair pela veia artística e nunca abrir mão dela, apesar do perrengue que é viver de direito autoral, sendo ilustradora e programadora visual.

RM: Quais os principais desafios dessa atividade, atualmente?

AR: …E agora mais essa: livros virtuais, interativos, onde o leitor pode fazer acontecer.

É a realidade sem volta.

O desafio é exatamente este: eu, ‘envelhescente’, ou jovem idosa (se preferem), embarcar no trem bala das mudanças tecnológicas e continuar fazendo leitores, e a tratar de literatura, em qualquer mídia que seja. E assim ajudar abrir um portal para um mundo animado e tecnologicamente mágico, sofisticando os meios de leitura, com a pretensão de fazer livros interativos sempre ligados ao impresso, complementando-o e sempre voltando a criança para o trabalho manual, através de sugestões de brincadeiras com papel. Para que não se perca o contato com o artesanal e com o livro de papel.

RM: Você trabalha na plataforma digital também?

AR: Desde 1992, abandonei a prancheta e trabalho apenas virtualmente, através de mesa gráfica, caneta ultra sensível e programas como Painter e Photoshop. Agora, estou virando animadora, desde o ano passado. Saí da minha zona de conforto e fui aprender animação com o Marco Alemar, de Salvador, via Skype. E foi tudo de bom. A essa altura da vida, aprender coisas diferentes é um bom desafio e ajuda a não ficar caduca… eheh…

No “Imágicas”, editei imagens em aquarela, lápis ou colagens no papel, que pincei de livros que tinha feito desde 1980, para comemorar 25 anos de ilustradora, misturei com imagens criadas digitalmente. Fiz um livro que sugere uma história em cada página, sem texto e onde cada um pode ler o que quiser. Deu numa tal mistura gráfica, que desafio o leitor leigo a descobrir quando desenhei no computador e quando foi no papel.

"Voo", ilustração de Ana Raquel

“Voo Livro”, ilustração de Ana Raquel, para uma animação que está para ser lançada

RM: Quais as diferenças entre ilustrar um livro em papel e para a mídia eletrônica?

AR: Para mim, hoje, nenhuma, a não ser o tempo que a gente gasta pra fazer no papel, onde não tem Control Z pra deletar, nem se pode fundir várias técnicas como desenho, pintura, fotografia, aquarela e outros tipos de material, o que faz ficar impossível ilustrar um livro por mês, para conseguir pagar a vida. Eu só conseguiria trabalhar de novo no papel, e tenho vontade, sinto saudade dos pincéis, se fosse sem data pra entregar… Como não me aposentei nem me aposentarei, não será o caso por enquanto.

RM: Quais de seus trabalhos você mais gosta e destaca para nós?

AR: Os que citei acima e a clássica “Bonequinha Preta”, texto Alaíde Lisboa de Oliveira, que foi meu livro encantado na infância e em 1981 reilustrei. Quase morri de susto, quando fui convidada para tal.

O “Poeminhas Pescados numa fala de João”, (esgotado), do querido Manoel de Barros, que batalhei uns dois anos até conseguir convencer a Record que conseguiria ilustrar Manoel. Ele já tinha topado, depois que eu escrevi pedindo a honra de… Ele me ligou pessoalmente, quase caí da cadeira de susto e alegria!!!

“Histórias de lavar a alma”, da Graziela Hetzel, que foi finalista do Prêmio Jabuti de Ilustração, em 2003, se não me engano. “Se as coisas fossem mães”, da Sylvia Orthof, “O que cabe no bolso”, da Roseana Murray, enfim, são mais de 150 livros ilustrados nesses últimos 36 anos… “Bicho que te quero livre”, do Elias José, “Canção da tarde no campo”, Cecília Meireles…

RM: Que avaliação você faz da literatura infantil e juvenil (LIJ) em Minas e no Brasil?

AR: Venho do tempo em que livro infantil era apenas livrinho de criança e ilustração era pra explicar o texto e tampar buraco na diagramação. Nos anos 80, quando comecei a ilustrar, tive a sorte de começar junto com o famoso boom da literatura infantil no Brasil. Foi quando o mercado percebeu o buraco que havia na produção brasileira. De lá até 3 anos atrás, acompanhei de perto o movimento da LIJ no Brasil e em Minas. Houve uma época, nos anos 90, se não me engano, em que 60% dos ilustradores selecionados para o catálogo de Literatura infantil brasileira, da FNILIJ, de Bologna, era de ilustradores mineiros. Tem muita gente produzindo, desde o século passado, e muita coisa boa.

RM: O que você acredita que a criança mais gosta num livro infantil?

AR: Boa pergunta! Não sei, juro! Em literatura, eu sempre ilustro com meu departamento infantil, com a minha criança, sem pensar no que o leitor vai gostar ou não, até porque cada um é um e sente diferente…  Se a gente fica pensando em agradar as crianças ou fica no ‘será que elas vão gostar’, corremos um risco enorme de produzir um livro pouco espontâneo ou bem didático.

Talvez, a criança goste mesmo é da surpresa que cada página encerra. Quando estou ilustrando, atualmente, não planejo mais o roteiro do livro todo pra depois finalizar. Leio, divido em páginas pra diagramar, cato as entrelinhas, penso onde quero chegar, que técnica usar, mas cada página é uma surpresa até pra mim. A anterior é que vai me dar a deixa pra continuar. Quando mudo de página é que vou pensar onde vou chegar. Assim é muito mais divertido do que planejar tudinho e depois ter só que colorir, sem surpresa nenhuma, eheh… Imagino que para o pequeno leitor é tipo assim!

RM: Como deve ser a parceria ideal entre o escritor e o ilustrador?

AR: Não cheguei a conhecer pessoalmente a maioria dos autores de livros que ilustrei nesse tempo todo. Mas isso não impede a parceria. Um fator determinante para dar certo é um bom editor, que saiba encontrar o ilustrador ideal para cada texto e fazer a ponte, fazer crescer a parceria. Gosto de conversar com os autores e sempre que isso é possível, rola.

O mais legal é quando o autor do texto está em sintonia com a gente que ilustra, sem interferir, respeitando nossas asas coloridas. E, por nossa vez, ilustrar respeitando e valorizando o texto, não fazendo o óbvio, por exemplo. Há ilustrações que levantam um texto mais frágil e ilustrações que derrubam um bom texto. Um perigo ilustrar, desavisadamente!

Mas eu gosto de viver perigosamente, eheh…

E quando a autoria é de escritor,(a) (eita língua machista esta nossa…) amigo (a), aí é melhor ainda!!!

 

2 pensamentos sobre “Ana Raquel, a “iluscritora”

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