Vovô Índio, nosso bom silvícola

 M.R.Terci *

Pouca gente sabe, mas na década de 1930, o bom velhinho foi banido do Brasil.

Sim, meus bons, Papai Noel foi execrado e sumariamente expulso do território nacional. História difícil de acreditar, não é mesmo? Afinal, esse heroico idoso de alvas barbas se esforçava tanto. No Natal de todo santo ano, partia do Polo Norte, em seu trenó percorrendo o mundo todo numa noite e distribuindo presentes à todas as crianças que se comportaram bem.

Não bastava, porém, todo esse esforço hercúleo para abrandar a tormenta do movimento integralista que de todos os lados rebentava furiosa.

A chamada Ação Integralista Brasileira, corrente política ultranacionalista que, para muitos, flertava com o fascismo, ganhou partidários e voz entre os folcloristas, poetas e artistas nacionais. Contudo, ampliando suas preocupações para fora do campo político, os intelectuais da época tinham especial preocupação em banir todas as influências estrangeiras que ameaçavam a valorização e a preservação de elementos históricos culturais brasileiros.

Nesse aspecto, o Papai Noel, tipicamente europeu, era pouco apropriado à realidade brasileira. Estrangeirismos à parte, o personagem foi julgado antinacionalista; afinal de contas, aquele sujeito gordo, branquelo, com grossa vestimenta e cercado de renas, pinheiros e neve nada tinha a ver com nossa realidade.

Após 1931, suas características estrangeiras foram ainda mais reforçadas na campanha publicitária da Coca-Cola, que na tentativa de promover o consumo do refrigerante no inverno, contratou um publicitário para recriar o personagem. Basicamente o Noel foi inspirado na versão do cartunista alemão Thomas Nast, versão essa que conhecemos até os dias de hoje. Mas o aspecto genial da campanha foi a utilização das cores da marca na roupa do personagem. Meus bons, vocês não tinham notado?

Fato é que colocaram o velhote para fora.

Mas buraco no pano de fundo precisa ser tapado, caso contrário, se acaba a magia, fina-se o espetáculo e toda cenografia não valeu nada. A lacuna precisaria ser preenchida. Talvez reconhecendo isso, os integralistas criaram aquele que deveria ser o substituto perfeito. Seu nome era Vovô Índio, cuja função era a mesma do Papai Noel, entreter as crianças, contando histórias e distribuindo brinquedos desde que a procedência destas e daqueles fosse genuinamente brasileira.

De modo a reforçar o apelo nacional, criaram uma lenda para as origens do Vovô Índio. Filho legítimo de nossa sacramentada democracia racial, o emblemático personagem era filho de um escravo africano com uma índia, no entanto, foi criado por uma família branca e graças a benevolência de seus irmãos ficou livre da condição de escravo.

Assim, os partidários do integralismo viram na figura de um silvícola a possibilidade de substituir o protagonista invasor. Já tínhamos o protagonista, havia a sua lenda, faltava a reputação. A honra do encargo deveria ser sustentada por mil feitos de bravura e coragem, e por atos de abnegação e patriotismo verdadeiramente heroicos.

Mas o presidente do país queria muito mais. Getúlio Vargas achou por bem torná-lo símbolo nacional.

Em dezembro daquele ano, o presidente promoveu uma espécie de espetáculo de estreia do novo herói natalino tropical. Mandou abrir os portões do estádio de São Januário, campo do Vasco da Gama, para receber todo o povo. As arquibancadas ficaram lotadas, na maior parte por imenso número de crianças. Palco armado, plateia no lugar, abre a cortina. Entra o nosso herói. A figura idosa de cocar, tanga, tacape entra carregando um imenso saco de presentes. As crianças ficaram extremamente assustadas, olhos arregalados, gritaria e choro.

De súbito, alguém ali no meio – talvez um gnomo infiltrado em meio à turba inimiga – puxou um coro: “Queremos Papai Noel de volta! Queremos Papai Noel de volta! ”  Murmúrios no gramado, confusão entre os organizadores, o coro cresceu e cresceu e para tristeza dos integralistas, o fracasso monumental sacramentou a morte do bom silvícola.

E comumente, desde então, Papai Noel chega em grande estilo, ora pousando a bordo de um helicóptero no meio de – pasmem, meus bons – um campo de futebol, ora saltando de paraquedas de uma avião, tal soldado de infantaria invasora que invade o coração de todos e conquista o sorriso das crianças.

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M. R. Terci é escritor, roteirista e poeta.  Antes de se dedicar exclusivamente a escrita, foi advogado com especialização em Direito Militar e mestrado em Direito Internacional, Ciência Política, Economia e Relações Internacionais. É o criador da série O Bairro da Cripta, lançada anteriormente pela LP-Books e que reforçou seu nome como um dos principais autores brasileiros de horror da atualidade. Com base em fatos históricos, Terci substitui os castelos medievais pelos casarões coloniais, as aldeias de camponeses pelas cidadezinhas do interior, os condes pelos coronéis e as superstições por elementos de nosso folclore e crendices populares, numa verdadeira transposição do gótico para a realidade brasileira. Seus livros não são apenas para os fãs do gênero horror. Seu penejar é para quem aprecia uma narrativa envolvente, centrada na experiência subjetiva dos personagens mediante as possibilidades que o contexto sobrenatural de suas histórias permite.

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