“Cabra-cega”

Suspense e aventura na cidade de Vassouras. Mistura de thriller à brasileira com romance de formação, “Cabra-cega” conta a história de um garoto que se depara com segredos ao redor de sua própria família.

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Antes de começar a falar deste lançamento da Zit Editora, eu gostaria de lembrar o que é cabra-cega. Quem já brincou de cabra-cega? Como muitas brincadeiras de rua ou de terreiro de casa foram deixadas de lado, então, eu explico que cabra-cega é um jogo recreativo, em que um dos participantes, de olhos vendados, procura adivinhar e agarrar os outros. Aquele que for agarrado passará a ficar com os olhos vendados. No mundo moderno é um jogo infantil, mas na Idade Média foi um passatempo palaciano.

Ao ler o livro, senti que o nome remete à condição do personagem principal da trama que, mesmo sem saber, ele é conduzido a descobrir algo, a se agarrar com um fato surpreendente.

E que personagem é esse? Ele é Ed, um garoto muito inteligente e curioso, mas menos valente do que gostaria. Ele está de férias na casa dos avós, na cidade carioca de Vassouras, “um lugar onde o tempo se esquecia de passar. Quando eu chegava, encontrava tudo como antes, como se eu não tivesse ido embora”.

Onde costuma gastar as tardes jogando pelada ou participando dos campeonatos de cuspe a distância. Ir para os lados da estrada de terra é proibido. Assim como é proibido indagar sobre quem é Coxo, o velho de pés tortos, cego e com cicatrizes profundas que fazem dele uma mistura de Coringa com Duas Caras.

Naquele verão, porém, a curiosidade de Ed está mais aguçada do que o normal. E uma sequência de acasos faz com que fique ainda mais incontrolável o desejo de desvendar os segredos que parecem rondar a cidade. Quem é Coxo, afinal? É verdade que cometeu um crime no passado? Quem é a mulher lindíssima que ajuda Ed a se levantar de um tombo e que mora no casarão amarelo misterioso”?

Os medos do garoto são muitos e ele não consegue ficar sozinho, daí ele ir pro quarto dos avós e dormir no colchão ao pé da cama da avó. Esse medo começa depois de ele assistir um vídeo sobre o guepardo, o “animal mais rápido do mundo, que pode chegar a uma velocidade de 120 km/h” _ destaca a autora _ e uma sequência de imagens dele perseguindo um grupo de gazelas.

O medo ainda se mantém por outro motivo especial: o menino conheceu o Coxo.

“Antes do sol pegar no sono, os moleques paravam o jogo e todos nós íamos pro início de uma estrada de terra que ficava ao lado do campo de futebol. Lá, a gente esperava pelo Coxo, um homem meio velho e de pés tortos. O Coxo era cego. Cicatrizes profundas desenhavam o seu rosto. Ele era uma mistura de Coringa com Duas Caras. Todo dia, o Coxo aparecia na estrada de terra andando na direção do centro da cidade.

Diziam que ele tinha cometido alguns crimes quando mais jovem, coisas que garoto novo não devia saber. Todos os moleques tinham medo do Coxo.

Quando ele passava, a molecada fazia silêncio. A gente olhava o arrastar da perna dele. Os pés tortos rabiscavam o barro da estrada. Quando o Coxo parava, todos os moleques brincavam de estátua.

Silêncio”.

Ed evitou confrontar com o Coxo por algum tempo, preferindo outras aventuras. Até que, um dia…

“Alguém me agarrou pelo pescoço.

E a mão na minha boca abafou os meus gritos.

Fui jogado no chão e, por cima de mim, senti um peso pesado.

E aí eu vi aquele que eu não queria ver. Eu olhava de perto os olhos mortos que, sem ver, enxergavam. Gritei muitos gritos abafados pela sua mão…

O Coxo não só grunhia, ele falava. Sua voz era mais assustadora que seu rosto. Era cavernosa! Eu me debati. Queria me soltar. Minha vontade não atendida reagia com gritos contidos pela mão do Coxo…

Senti minha calça molhar, eram alguns dos meus gritos saindo por baixo. Outros saíram pelos olhos. E o Coxo riu uma risada debochada do meu pânico…

Mas o pior estava se aproximando”.

Logo as investigações do garoto vão fazê-lo desconfiar que muito de todo aquele mistério aponta, surpreendentemente, para sua própria família. Há algo no passado de seu avô, que a tristeza de sua avó não consegue de todo esconder. Há muito a descobrir e parte dessas descobertas podem apontar para fatos dolorosos e trágicos do passado.

Vou contar só um pouquinho da trama para você:

“E a porta abriu.

Um ar ainda mais fedido veio me receber. E eu vi uma escada. Estava escuro lá para baixo. Procurei um interruptor. Achei.

Acendi a luz. Da escada.

E desci.

Nossa! O cheiro lá embaixo era quase insuportável. Suor, cocô, mijo. Tudo misturado.

Outro interruptor. E acendi. A luz. Um porão.

E eu vi… um homem preso numa jaula.

Ele quando me viu, ficou inquieto. Fazia sons. Mas não falava.

A sua boca sem dentes.

E

A sua língua cortada!

E ele me olhava sem me entender.

E os seus sons

Eu na entendia”.

Qual o segredo atrás desse homem enjaulado? Por quê?

Com uma trama que deixa o fôlego do leitor em suspenso da primeira até a última linha, “Cabra-cega” é um delicioso thriller à brasileira. E é também um romance de formação. Romance breve, voltado ao público infantojuvenil, que resgata o melhor da tradição ficcional brasileira em retratar as peripécias de jovens experimentando a transformação do amadurecimento. Envolto em reviravoltas e em revelações, Ed acaba se deparando com o fato de que a vida não é exatamente um embate entre o bem e o mal. E que as pessoas e relações nem sempre cumprem o roteiro que haviam planejado.

A autora Cacau Vilardo nasceu no Rio de Janeiro, formou-se em letras, formação do ator e direito. Além dos livros “Era uma vez”… e “Vôvó”, é também autora dos contos “Mulher de 50” e “A alcoviteira”, que ganhou o 3º lugar no Prêmio Paulo Britto de Prosa e Poesia. Colaborou com o roteiro do curta-metragem “A má notícia” selecionado para o 16º Festival de Filmes de Tiradentes. É membro do Vancouver Writers Fest, ministrante de workshops de storytelling e palestrante em feiras de livros e escolas.

O livro “Cabra-cega” tem 144 páginas e custa R$ 32,30. À venda nas livrarias ou na loja virtual  www.fokaki.com.br

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