Na casa do livro habita a palavra

26230221_1777122492298621_7345037740990890289_nEsta semana, eu conheci um lindo texto, através da neuropsicopedagoga, amiga virtual Eliane Maria Fernandes Campos, que publico abaixo para os leitores do blog. Esse texto é de autoria da poeta e escritora de Santa Catarina, Nic Cardeal, (FOTO) que descreve as sensações e responsabilidades de se frequentar uma livraria. Quem já pensou nisso? Pois lendo as reflexões de Nic Cardeal, entendi muitas das experiências por mim vividas nas livrarias físicas. Livraria é um local mágico, de uma atmosfera que nos faz flutuar em meio às propostas e fantasias que parecem se soltarem de dentro dos livros e nos envolver.

 

“Frequentar uma livraria exige respeito. Carinho e cuidado. Muita paixão. Também é preciso indignação. Ternura. Coragem. Gratidão.

É preciso fazer-se nu perante o mundo. Despir a roupa da alma. Para depois preenchê-la. Com amor – às palavras. “Tem que ter paixão por palavras. E viajar por estados de dicionários. Mundos de dicionários” (*).

Na casa do livro habita a palavra. Por isso exige silêncios. Uma livraria é como um berçário. Livros adormecem (e meditam) em livrarias. Acordam nas prateleiras. Aguardando novos lares. Livros são como filhos. De diversos pais – e lugares.

Frequentar uma livraria pede disciplina. A um só tempo, boas doses de anarquia. Encantamentos. E brincadeiras. Porque “um livro é um brinquedo feito com letras. Ler é brincar” (**)…

É bom estar sóbrio em uma livraria. Bêbado de tanta vida sendo sorvida. “Tem que seguir a trilha dos mestres antigos. Aqueles caminhos cheios de mistérios por onde andaram Andersen, Lewis Carroll e os Irmãos Grimm. Qualquer passeio tem que durar Mil e Uma Noites” (***).

Não há como entrar em uma livraria e sair ileso. Sem ser contagiado pela paixão por palavras. No arado da linha a palavra trabalha. Carrega pedras. Faz esculturas. Abre sulcos profundos no fundo da terra. Descobre fontes de água. Pode ser doce, salobra, salgada. De chuva, de bica, de poço, de poça.

Pode estar longe, guardando saudades, na seca árida da falta. A palavra dorme, acorda. Sonha presenças na curva da estrada. Traz horizontes pra bem perto da gente. A palavra – poção mágica.

Anjo, bruxa, alegrias imensas ou miúdas. Dores intensas, moídas. Personagens passeiam nas prateleiras de uma livraria. Sentimentos ligeiros. Emoções escondidas entre gavetas. Olhares profundos. Gargalhadas inusitadas. Brincadeiras de crianças.

Gnomos travessos, fadas estudiosas, lamparinas preguiçosas. Tudo é possível, passível, impossível, imprevisível, imprescindível em uma livraria – a guardadora das palavras…

Sair de uma livraria exige cuidado. Jamais sairemos iguais. Sairemos maiores, mais vastos, outros – até a próxima virada de página do livro – da vida!”

(* e ***) Stella Maris Rezende, in: ‘Esses Livros Dentro da Gente’, Rio de Janeiro: Casa da Palavra: 2007).
(**) Rubem Alves, na internet.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *