Senhoras e senhores pulem num pé só

Lauro Schvarcz *

Cantigas, contos e parlendas infantis sempre me fascinaram: de riquíssimo conteúdo, podem e devem ser lidos em mais de um nível, para além da superfície da literalidade; ostentam belas formas, com rimas, parágrafos curtos e densos, musicalidade. São horizontes sempre abertos a diferentes interpretações, das mais fugazes às mais patológicas. São (ou eram) o contato primevo das crianças com as mazelas da vida, com o enfrentamento hipotético das adversidades, com o reconhecimento das diferentes possibilidades de caráter e de conduta dos seres humanos.

Desde tenra idade, a literatura infantil nos revela o complexo fenômeno da vida visto de diversos ângulos. O motivo pelo qual ela nos chega tão modificada de seus originais permanece, para mim, incerto, e desconheço a justificativa intelectualóide contemporânea para a omissão de trechos “frios e desumanos”.

Outrora abandonados pelos pais, hoje se diz que João e Maria se perderam no bosque. A vovozinha de Chapeuzinho Vermelho, despedaçada a dentadas pelo lobo, foi reencontrada viva e inteira na barriga do animal. Ou pior: o Ministério da Educação e da Cultura vem distribuindo o tosco livreto de Chico Buarque em que a Chapeuzinho agora Amarelo não mais precisa ter medo do Lobo, que acaba virando um Bolo. Rapunzel havia sido dada à feiticeira por seu próprio pai por um punhado de rabanetes e o príncipe termina a história cego ao cair da torre: hoje, a bruxa rouba Rapunzel e o príncipe é um idiota dublado por outro idiota…

O fantástico mundo de chocolate do cinema americano tem lançado mão desses clássicos modificados, em que meninos e meninas surgem como soldados especialistas em artes marciais e detentores de poderes especiais. E, nesse saco de gato, a literatura infantil vai se confundindo com filmes de super-heróis e de automóveis-robôs que chegam às salas de cinema e que têm, por público-alvo (acreditem!), adultos!

Desse modo histriônico, as antigas histórias infantis vêm perdendo sua forma e tendo seu conteúdo interpretativo reduzido, achatado à superfície lisa do texto literal e submetido à imagem desencantadora dos efeitos computacionais. Ícones infantis e lixo cultural adulto estão se confundindo numa trama diabólica, em que parlendas são substituídas por letras de funk, princesas lutam por independência financeira e príncipes fazem parte do núcleo cômico da história. Quais arquétipos estamos tentando, com toda gana e ranger de dentes, destruir? Não seria mais honesto deixar isso às claras? Seria o beijo que acorda Aurora de seu sono de cem anos um beijo icônico, objeto de leitura alegórica, ou um mero caso de assédio e questão de consentimento sexual?

Abóboras se acomodando e vaca indo pro brejo, muito me surpreende que ainda seja lícito às crianças recitar cantigas e parlendas com letras assustadoras, descriminatórias e violentas, como no claro caso de machismo heteronormativo em “Um homem bateu em minha porta e eu abri” ou na incitação ao crime em “Lá em cima do piano tinha um copo de veneno, quem tomou morreu, o azar foi seu”…

 

* Lauro Schvarcz é médico Internista e Pneumologista do Hospital Universitário de Santa Maria (RGS), pai e ‘homeschooler’

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