“O perigo atual vem da censura”

A afirmação é de Alexandre de Castro Gomes, autor e presidente da Associação de Escritores e Ilustradores de Literatura Infantil e Juvenil (AEILIJ), em entrevista ao blog. Ainda segundo ele, até os desafios de ordem econômica, que já balançaram fortemente o mercado editorial, tendem a passar. O fantasma da censura, no entanto, continua a rondar editoras, escritores, ilustradores e outros.

É muito bom ter à disposição livros de qualidade promovendo o interesse de crianças pela leitura, mas é preciso saber que por trás de um belo e bom livro existe uma engrenagem de profissionais e instituições para lutar e garantir a melhor literatura infantil e juvenil. Alexandre de Castro Gomes ou simplesmente Alex Gomes é um deles seja como escritor ou presidente da associação de escritores e ilustradores.

Leia a entrevista, conheça mais de perto essa importante associação e pode fazer um “Control C Control V”, depois “Copiar”, da relação de alguns dos mais de 30 livros de autoria de Alex Gomes cita na entrevista para ter como sugestão de leitura altamente recomendada para as crianças.

 

Alex Gomes: “Periga perdermos várias conquistas dos últimos anos por causa de uma perseguição ideológica medieval” - Fotos: Divulgação

Alex Gomes: “Periga perdermos várias conquistas dos últimos anos por causa de uma perseguição ideológica medieval” – Fotos: Divulgação

 

Rosa Maria: Fale sobre o papel da AEILIJ, a Associação de Escritores e Ilustradores de Literatura Infantil e Juvenil, e a que público está destinada.

Alex Gomes: A AEILIJ é a mais importante entidade de representação de autores de literatura infantil e juvenil do país. Temos coordenações regionais em vários estados e, em junho de 2019, completaremos 20 anos de atividades. Entre elas:

  • Produzimos antologias literárias e anuários com os trabalhos dos associados;
  • Criamos um prêmio de alcance nacional;
  • Realizamos trabalhos solidários em escolas públicas e em bibliotecas;
  • Todos os anos mantemos um estande no Salão FNLIJ do Livro para Crianças e Jovens;
  • Montamos mesas de debates sobre literatura em eventos literários;
  • Fomos, diversas vezes, à Brasília para defender os interesses dos autores de literatura infantil e juvenil;
  • Formamos parcerias com outras entidades ligadas ao livro;
  • Passamos dicas a novos autores;
  • Redigimos documentos em defesa de programas de leitura;
  • Montamos exposições de ilustradores;
  • Produzimos seminários;
  • Criamos campanhas em defesa da LIJ;
  • Apoiamos eventos com a presença de autores de LIJ;
  • No ano passado conversamos com a FNLIJ e com a CBL para valorizar a LIJ no Prêmio Jabuti;
  • Mantemos site/blog/página e grupo no Facebook/canal no Youtube/lista de discussões em e-mails.

São três os objetivos primordiais da AEILIJ:

1) Defender os interesses dos associados e da categoria.

2) Gerar e participar de campanhas e ações pelo incentivo à leitura, e, com isso, ampliar o alcance e a divulgação do livro de literatura infantil e juvenil.

3) Acolhimento de novos autores, mantendo canais de comunicação para trocas de ideias.

RM: Por que a criação dessa instituição?

AG: Quando a AEILIJ foi criada em 1999, não havia, no Brasil, redes sociais virtuais como o Facebook ou os grupos de Whatsapp. Para se ter uma ideia, o popular Orkut nasceu somente em 2004. Sendo assim, os autores só se comunicavam quando se encontravam em eventos. Alguns trocavam e-mails, mas nem todos participavam das conversas. Muitos colegas que residiam em cidades de pequeno e médio porte não conseguiam acompanhar as notícias do mercado. Um grupo de escritores e ilustradores de literatura infantil e juvenil, a partir de conversas informais, constatou que, apesar de sermos uma das forças mais importantes do mercado editorial, não tínhamos uma Associação que servisse como nossa porta-voz, um espaço onde pudéssemos dialogar e debater. Vieram as reuniões preliminares em quatro estados, trocaram e-mails com autores que estavam mais “isolados” e elegeram o Rogério Andrade Barbosa como seu primeiro presidente. Logo surgiu o primeiro boletim impresso e os primeiros e-mails de grupo.

RM: Quais são os principais projetos da AEILIJ para este ano?

AG: Esse é um ano de eleições para a diretoria. Minha gestão se encerra no dia 30 de junho e não sei o que a nova diretoria irá criar para a gente. Mas posso garantir que ainda teremos o anúncio dos vencedores do Prêmio AEILIJ, a criação de uma nova Expo Cores e Formas e a assembleia de passagem de bastão. Provavelmente outra edição do Discussões AEILIJ também, além do apoio institucional, com exibição da exposição de ilustrações, ao evento Conversa Literária Edição Especial do próximo dia 18 de abril, na Biblioteca Parque do Rio de Janeiro.

RM: Quais são as condições exigidas para filiação?

AG: Isso pode ser encontrado em nosso site (www.aeilij.org.br), mas posso adiantar que é preciso ter um livro publicado em editora comercial (não vale antologia), além do pagamento de uma anuidade que se mantém em 25% do salário mínimo do ano anterior à entrada na associação. Entendemos como editora comercial aquela que tem selo próprio, publica o livro com ISBN e cuida da edição, divulgação e venda dos livros. A condição serve tanto para escritores quanto para ilustradores.

 

“Não existe regulamentação, uma vez que a profissão não é reconhecida, mas uma lei que reconhece o trabalho do ilustrador como uma atividade intelectual”

“Não existe regulamentação, uma vez que a profissão não é reconhecida, mas uma lei que reconhece o trabalho do ilustrador como uma atividade intelectual”

 

RM: Gostaria que comentasse a respeito dos principais desafios atuais para o ilustrador de LIJ.

AG: Bem, não sou ilustrador, mas sou casado com uma e aproveitei para perguntar.
Segundo a Cris Alhadeff, alguns desafios são: valorizar a narrativa visual; lutar contra a censura; sempre estudar novas técnicas e aperfeiçoar as que já tem; apresentar a ilustração como um trabalho intelectual e não como serviço; negociar contratos e remuneração justos, afinal não é um hobby; explicar a toda hora que, em literatura infantil, todo livro tem dois autores: o escritor e o ilustrador.

RM: Existe alguma regulamentação para essa atividade? Qual órgão é responsável?

AG: Não existe regulamentação, uma vez que a profissão não é reconhecida. Nem o MEI a considera. O que existe é uma lei que reconhece o trabalho do ilustrador como uma atividade intelectual. E por incrível que pareça, a lei dos direitos autorais (9610/98) ainda precisa ser defendida e explicada pelos próprios ilustradores.

RM: Fale sobre seu trabalho.

AG: Eu só escrevo. Ainda. Mas pretendo ilustrar em breve. Aguardem novidades!

Lancei meu primeiro livro em 2008 e de lá pra cá já são 30 obras, algumas publicadas na Espanha, na China e na América Latina. Tive livros selecionados para programas de compras de governos e ganhei alguns prêmios.

Organizei alguns livros de autoria coletiva, entre eles a obra “Filhos de Peixe”, com contos e ilustrações de dez filhos e netos de autores de literatura infantil e juvenil.

Participei, como convidado palestrante, das maiores feiras de livros do país (FLIP, Jornada Literária de Passo Fundo, FLIPORTO, Feira do Livro de Porto Alegre, Bienal do Livro de São Paulo, Salão FNLIJ, FLUPP, LER, Feira do Livro de Caxias do Sul e outros), viajo o Brasil com as oficinas literárias “Quero Ser Autor”, dou palestras em escolas e em eventos literários e administro

site (www.alexandredecastrogomes.com),

blog (http://alexandredecastrogomes.blogspot.com),

Instagram (www.instagram.com/alexandre_de_castro_gomes) e

página no Facebook (www.facebook.com/alexandredecastrogomes).

Sou o atual presidente da AEILIJ,Associação de Escritores e Ilustradores de Literatura Infantil e Juvenil, eleito e reeleito para os períodos 2015-2017 e 2017-2019. Através da Associação, entre outras coisas, idealizei e fui curador do Prêmio AEILIJ, fui o editor dos cinco primeiros Anuários AEILIJ, idealizei e organizei a Blitz Literária, atividade que levou 30 autores de LIJ para escolas públicas municipais do Rio, e organizei por volta de 10 mesas de discussões sobre temas relacionados ao mercado literário.

 

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RM: Poderia citar alguns de seus livros?

AG: “O livro que lê gente” foi ilustrado pela Cris Alhadeff e publicado pela Editora Cortez. Ele conta a história de um livro que é colocado na prateleira mais alta de uma biblioteca, longe do alcance das crianças, e de lá ele inverte os papéis e aprende a ler os frequentadores do local. Essa obra ganhou o Selo de Distinção Cátedra 10, da Cátedra da UNESCO/PUC-Rio, como um dos 10 melhores livros de 2016, e foi vendida para editoras da Espanha e da China.

“Quem matou o Saci?”, ilustrado pela Cris Alhadeff e publicado pela Escarlate, narra a investigação em torno do assassinato do Saci Perereira, tendo como suspeitos outros seres do folclore brasileiro. O livro foi selecionado para o PNLD Literário 2018 e também recebeu um selo da Cátedra da UNESCO/PUC-Rio, desta vez em 2017.

“A bola ou a menina?” ou “La pelota o la niña?”, ilustrado pelo Sergio Magno e publicado pela Melhoramentos, reserva uma surpresa para o leitor. A história pode ser lida de trás para frente ou vice-versa. Cada sequência de leitura reserva um final diferente. O livro foi uma das quatro obras nacionais recomendadas pelo Catálogo do Prêmio Fundación Cuatrogatos 2017.

A trilogia “Condomínio dos Monstros”, “O porteiro do Condomínio dos Monstros” e “Tem visita no Condomínio dos Monstros”, os três ilustrados pela Cris Alhadeff e publicados pela RHJ/Baobá, fazem muito sucesso entre as crianças e nas escolas, especialmente por volta do Dia das Bruxas. Imaginem um prédio aonde moram a Bruxa, o Drácula, o Frankenstein, o Fantasma, o Lobisomem, o Saci, a Mula sem Cabeça, o Bicho-Papão, o Esqueleto e a Múmia. Só podia dar confusão, não é? Pois é. O primeiro foi selecionado para o PNBE 2012, o PNAIC 2013 e pela Secretaria Municipal de Educação da Prefeitura de São Paulo para compor o Kit literário 2010 do Programa Minha Biblioteca. O terceiro foi selecionado para o PNLD Literário 2018.

“Folclore de Chuteiras”, ilustrado pelo Visca e publicado pela Peirópolis, apresenta a narração de uma partida de futebol entre o time nacional do folclore contra um combinado de monstros do resto do mundo. Os gols e lances “monstruosos” são espetacularmente descritos pelo locutor Carlos Cosme.

“Os 12 trabalhos de Severino”, ilustrado pela Camila Fudissaku e publicado pelo SESI-SP, é uma adaptação dos 12 trabalhos de Hércules. Ao invés dos monstros da mitologia grega, Severino precisa lidar com monstros do folclore nacional. A obra ganhou o terceiro lugar na categoria juvenil dos Prêmios Literários da Biblioteca Nacional (Prêmio Glória Pondé).

“O menino que coleciona guarda-chuvas”, ilustrado pela Bruna Assis Brasil e publicado pela Globo Livros, conta a história de Chico, um menino com uma imaginação incrível que tem o guarda-chuva como o seu brinquedo favorito. Contado em versos, o livro foi um dos oito títulos selecionados para o programa “Minha Primeira Biblioteca” (2014) da Prefeitura do Rio de Janeiro.

“O julgamento do Chocolate”, ilustrado pela Conceição Bicalho e publicado pela RHJ, foi o meu primeiro livro publicado. Nele, o Chocolate é o réu em um tribunal, acusado pela frutas verduras e legumes de fazer mal às crianças. Entre outras seleções, o livro foi comprado pela FDE, através do Programa Ler e Escrever 2008, do Governo do Estado de SP. Essa obra foi transformada em peça de teatro por diversas escolas no país inteiro, fazendo com que eu a reescrevesse em forma de teatro, sob o título “Em cena: O julgamento do Chocolate”.

“Motim das Letras”, ilustrado pelo Luiz Maia e publicado pela Globinho, conta a história do navio pirata Alfabeto Romano, e de seu capitão “C”, traído por “K”, o líder de um motim em alto mar. O livro foi selecionado para o PNLD Literário 2018.

“Eu sou uma lagartixa!, ilustrado por Cris Alhadeff e publicado pela Editora do Brasil, apresenta um mistério para crianças pequenas. Por que a lagartixa não consegue subir pela parede?

RM: Como você analista o cenário da LIJ, Literatura Infantil e Juvenil?

AG: O cenário só não é o pior dos últimos 10 anos, talvez mais, porque o PNLD Literário 2018 dará algum fôlego para as editoras que tiveram livros selecionados. Agora, quando esse dinheiro será pago, é outra história.

O mercado de livros está na pior desde que as compras de governo foram interrompidas em 2014. De lá pra cá, editoras faliram, muita gente foi mandada embora, livrarias fecharam, feiras literárias foram canceladas, alguns autores desistiram de escrever e de ilustrar, a produção despencou e o mercado só não foi pro beleléu por causa de modismos como os livros de colorir e os livros de youtubers. Mas até essas modas passam.

O perigo atual vem da censura. Recentemente um clube de leitura colocou em seu edital que não aceitaria livros com bruxas, fadas e duendes para não ofender a religião de determinadas famílias. Uma colega autora já me disse que lhe pediram um livro de saci sem cachimbo. Aliás, muitas editoras estão evitando publicar livros que contem histórias sobre seres mágicos, por alguns considerados demoníacos. Nem sacis, nem fantasmas, nem unicórnios, nem obras que tragam crenças africanas, nem seres do folclore. E pensam que é só religião? No ano passado, um grupo de pais reclamou de um livro adotado no Colégio Santo Agostinho, no Rio de Janeiro. “Meninos sem pátria”, de Luiz Puntel, conta a história de uma família de exilados da ditadura militar. O tema incomodou algumas famílias que exigiram que ele fosse retirado da relação de livros a serem lidos. A escola acatou o pedido, mas, por sorte, alunos do próprio colégio defenderam a obra em uma manifestação no meio da rua, e a instituição voltou atrás. Em dezembro do ano passado, pais de alunos de uma escola de Brasília pediram a retirada do livro “A semente do Nicolau: Um conto de Natal” das leituras recomendadas, porque o autor é um professor e político filiado ao PSOL.

Resumindo, periga perdermos várias conquistas dos últimos anos por causa de uma perseguição ideológica medieval.

Quem quiser entrar em contato pode me acessar através do meu site www.alexandredecastrogomes.com ou pelo Facebook em www.facebook.com/alexandredecastrogomes.

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