Leitura na era digital

Janaína Spolidorio *

 

Embora saibamos o quanto é importante ler e levantemos estandartes fortes estimulando os pais a incentivarem a leitura e também os professores a usarem mais em sala de aula, na verdade, ela permanece uma espécie de incógnita na educação tanto domiciliar quanto escolar.

A leitura fica ali, escondida no cérebro, e é difícil de avaliar. A leitura em voz alta não é a mesma leitura que temos em silêncio. O nível de entendimento é diferente, porque cada tipo de leitura (e não há apenas essas duas, há muito mais! )precisa de um treinamento diferente.

Não é porque uma pessoa esteja alfabetizada, que ela saiba ler. Ler envolve muito mais do que codificar. Precisa de memória de trabalho, atenção, conhecimentos prévios, vocabulário e uma lista tão extensa de requisitos, que daria vários capítulos de escrita.

A leitura é algo abstrato e pessoal. Só conseguimos avaliar o que podemos observar e ela fica ali, escondidinha. Poucos são os professores e pais que conseguem desvendá-la com sinais que a criança dá, porque ainda não temos instrumentos próprios para estimular a leitura ou mesmo para avaliá-la. Isso, porque pouco se estuda sobre ela na área da educação.

No ano 2007, a pesquisadora Maryanne Wolf lançou seu livro sobre história e ciência por trás do cérebro que lê. Quando o fez, olhou ao seu redor e notou que algo faltou em sua edição. O mundo estava ficando cada vez mais digital, mas ela não tinha considerado o impacto do digital na leitura e uma nova jornada começou para ela.

Atualmente, M. Wolf é uma das poucas especialistas no assunto de leitura que merecem a leitura. E não é porque o seja, que a leitura de seus livros é fácil! Ela entra fundo no assunto, inclusive do ponto de vista neurológico. Sua nova jornada para pesquisar sobre a leitura na era digital levou quase uma década e finalmente, em 2018, ela lançou seu livro sobre o assunto, que agora recebe traduções em vários idiomas, inclusive para o português.

O livro “O cérebro no mundo digital” (original “Reader, come home”: The Reading Brain in a Digital World) traz assuntos muitíssimo pertinentes como o que acontecerá com a geração nascida imersa em um mundo digital, o quanto a criança pode ser exposta aos aparelhos e o impacto do tempo que ela fica, o que muda na educação e muito mais. Destaque para o capítulo seis, que fala sobre o uso de aparelhos desde quando somos bebês até os cinco anos de idade e o que muda no cérebro por causa desta exposição ao eletrônico.

É uma obra de dois Cs: completa e complexa. Traz estudos que ela fez e considerações e exemplos pessoais bem interessantes e vale muito a leitura de quem se interessa pelo assunto.

Só para entender melhor, cada leitor é próprio e único. Quando uma pessoa lê, ela desenvolve circuitos novos de leitura em seu cérebro, que mexem com elementos como a multitarefa, a rapidez na leitura e o lidar com as distrações. Os aparelhos interferem no modo como a leitura era processada até antes de seus estímulos e, em um adulto, o efeito é diferente das crianças.

No período de infância, até os cinco ou seis anos, a criança sempre viveu em dois mundos: um real e um imaginário. Atualmente, ela lida com um terceiro mundo, que é o digital.

Segundo estudos, o uso de aparelhos em excesso pode interferir em um ou dois mundos da criança. O mais preocupante, do ponto de vista leitor, é que o uso exagerado de telas tenha o poder de inibir o desejo natural das crianças de explorar o mundo ao seu redor.

O mais preocupante em tudo isso, é que cria nelas um tipo diferente de aborrecimento que elas não tinham antes da era digital. Este novo aborrecimento, ainda em fase de pesquisas, por ser tão recente, inibe algo importante e que faz parte de nossa humanidade: a criatividade.

Criança que não brinca explorando mundos imaginários tem sua capacidade de criar comprometida. Nos aparelhos tudo já está pronto. Dá ideias às crianças sim, mas de modo superficial e o digital não é real: nem sempre aplicável à realidade.

A capacidade de criar impacta em várias áreas, mas no caso da leitura, ajuda com a profundidade. Há níveis dentro da leitura que são adquiridos ao longo da vida. Parte deles se dá devido ao poder que temos no cérebro de imaginar. O imaginar permite ir além do que se lê e criar estratégias leitoras como a inferência, por exemplo.

Segundo Maryanne Wolf, ainda há a necessidade de usar os livros impressos com os pequenos, porque eles causam experiências táteis importantes e que irão contribuir para eles como futuros leitores. Não é questão de tirar o aparelho dos pequenos, mas sim de saber dosar. Durante várias vezes no livro ela afirma que não é contra o uso das telas, mas é preciso saber as consequências e ter consciência do quanto pode prejudicar ou ajudar.

No Brasil temos dificuldades imensas já com a leitura impressa. Devemos nos voltar mais para a questão leitora, agregando também conhecimentos sobre a leitura na era digital, mas com moderação! A leitura digital engloba habilidades diferentes da analógica e, portanto, irá precisar de novas estratégias de intervenção das escolas. Esta é uma questão nossa, porque cada idioma tem suas necessidades e particularidades, inclusive, no quesito leitura.

Questões sobre como a leitura digital influencia na leitura analógica ou até na forma biológica de processar a leitura, sobre como estimular e avaliar a leitura nas escolas, sobre como balancear leituras de modo saudável para o cérebro leitor são importantes para desenvolver bons trabalhos em sala de aula. Também para um começo de questionamento das famílias sobre o quanto a criança fica exposta ao digital.

A leitura é uma espécie de ferramenta que desenvolvemos ao longo dos séculos entre os humanos. Embora pouco explorada, pode ter sua capacidade muito ampliada, inclusive, com o estímulo digital. O livro de Maryanne Wolf nos norteia para o assunto e traz, com certeza, questões que antes não eram consideradas.

Nos resta, agora, começar a virar o olhar mais para a leitura de nossas pequenas futuras grandes pessoas, em processo de aprendizagem em aula, e além de incentivar, pensar também na qualidade de estímulos que estão recebendo e o quanto estamos contribuindo para sua formação real.

Decodificar não é ler, passar os olhos não é entender. Antes pensávamos em letramento, que é a capacidade de ler interpretando socialmente os textos e imagens. Hoje, talvez, tenhamos um neologismo para esta capacidade, que é o biletramento, ou seja, a capacidade de ler analógica e digitalmente textos e imagens.

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*   Pedagoga.

O artigo foi baseado no livro “O cérebro no mundo digital” da pesquisadora Maryanne Wolf, Editora Contexto

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