Pesquisa: para que biblioteca nas escolas?

O Instituto Pró-Livro (IPL) lançou a pesquisa “Retratos da leitura – Bibliotecas escolares” na sede do Insper, em São Paulo, em 23 de abril, Dia Mundial do Livro. Levantamento contou com a participação de gestores, professores e bibliotecários de quase 500 escolas públicas do Brasil para analisar o impacto das bibliotecas nas aprendizagens dos alunos. Com o estudo, o IPL visa oferecer indicadores para avaliar o impacto de bibliotecas escolares e espaços de leitura na aprendizagem dos alunos, se garantidas determinadas condições de funcionamento. Leia abaixo os relatos sobre a pesquisa.

 

Primeira parte

A apresentação inicial foi feita por Zoara Failla, coordenadora do Instituto Pró-Livro (foto), que abordou em sua fala os principais dados da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil e do Censo, todos eles relativos a bibliotecas escolares.

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Para que biblioteca nas escolas? Sim! É uma pergunta provocativa. Mas, talvez, tenhamos que revisitar as perguntas e as respostas relacionadas a esse assunto. O receio é que alguém responda que precisamos de quadras de futebol, fanfarras/bandas e laboratórios de química, e não de bibliotecas. Nada contra os laboratórios de química, as quadras e as bandas ou fanfarras, mas e os livros? Onde ficam? Pior será ouvir como resposta: para que livros se temos a internet?

Sim! A alegação é provocativa, mas também serve para revisitarmos nosso discurso. Talvez seja tão óbvio para nós sua importância que descuidamos dos argumentos para sua defesa.Talvez, uma visita ao significado e às representações que temos sobre as bibliotecas possam renovar nossas teses ou trazer outras ainda mais contundentes.

Mas o presente nos chama: um programa de distribuição de livros para bibliotecas (PNBE) foi interrompido, em 2015, sob a alegação de que os livros ficam em caixas e que não são lidos… Isso significa que as obras literárias não chegaram até as silenciosas bibliotecas? Ou será que as bibliotecas não “chegaram” às escolas?

Números do Censo Escolar do MEC, de 2017, nos dizem que 61% das escolas públicas do ensino básico (88,3 mil instituições), não têm bibliotecas ou salas de leitura instaladas. Será que isso explica por que os livros ficam nas caixas? Provavelmente, sim! Mas não deixa claro se eles teriam sido lidos se estivessem fora delas. Essa questão envolve outras condições que necessitam ser avaliadas.

A pesquisa Retratos da Leitura – Biblioteca escolar, lançada pelo Instituo Pró-Livro, no dia mundial do livro (23 de abril), não pretende responder a essa última questão, por enquanto. Mas teve como motivação descobrir se, quando instaladas, bibliotecas ou salas de leitura, são importantes para a aprendizagem ou a performance dos alunos. Tudo isso, claro, se garantidas determinadas condições de uso e de funcionamento desses espaços.

Vou responder à primeira questão: para que bibliotecas nas escolas? E, ainda, para que livros?

E responder com muita precisão ao correlacionar dados da pesquisa com indicadores de avaliação do SAEB (Sistema de Avaliação da Educação Básica) e do IDEB (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica).

A pesquisa foi encomendada pelo Instituto Pró-Livro, que está interessado em responder a essas questões  e motivado, também, pela meta do Plano Nacional de Educação 2014-2024 (PNE), que estabelece a universalização das bibliotecas, em todas as escolas de ensino básico, até 2024 e pela Lei nº 12.244, de 2010, que prevê a universalização das bibliotecas escolares, até 2020.

O levantamento foi aplicado em quase 500 escolas, em 17 estados brasileiros, e respondida pelo dirigente, um professor de português e o responsável pela biblioteca ou sala de leitura da escola.

Com um questionário de mais de 60 questões, a OPE Sociais foi a campo para fazer as entrevistas nas escolas, no segundo semestre de 2018. O objetivo era conhecer, segundo a avaliação ou a percepção dos entrevistados, como as bibliotecas e salas de leitura estão instaladas e funcionando em escolas públicas do ensino básico com alunos do 5o ano do ensino fundamental 1.

A amostra foi definida por pesquisadores do Insper, que selecionaram escolas com bibliotecas ou salas de leitura onde os alunos conseguiram as melhores notas em português na Prova Brasil (2015).

Sim, foram escolhidas as melhores e com bibliotecas/salas de leitura, pois queríamos saber se essa condição poderia explicar o melhor resultado nas provas em português. Foi uma análise complexa, entregue aos pesquisadores do Insper, que conseguiram fazer essa correlação.

Eles também identificaram a situação socioeconômica dos alunos dessas escolas para verificar se a situação de vulnerabilidade das escolas criam alguma variação no impacto dos atributos da biblioteca nos resultados das avaliações. (Zoara Failla , Coordenadora da pesquisa Retratos da Leitura e do Instituto Pró-Livro).

Segunda parte

Sergio Firpo, (foto), que comandou a equipe do Insper envolvida na análise dos dados levantados pela pesquisa de campo realizada pela OPE Sociais, interpretou alguns dados preliminares do novo estudo: a Retratos da Leitura em Bibliotecas Escolares. Ele destaca as principais descobertas e conclusões do estudo.

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Encontramos uma relação positiva entre existência de bibliotecas escolares (ou salas de leitura) e o desempenho escolar em português e matemática no 5o ano do ensino fundamental. Essa relação é mais forte quanto mais vulnerável é condição socioeconômica da criança. Essa evidência, obtida por meio de dados secundários, nos levou a buscar entender quais aspectos da biblioteca estariam mais fortemente correlacionados com desempenho escolar. Investigamos, por meio de uma pesquisa nas escolas, como as condições de funcionamento, de espaço físico, de atendimento, do acervo, de integração com currículo e do uso de tecnologias se relacionam com desempenho escolar.

Se compararmos a pior com a melhor escola com relação ao funcionamento da biblioteca, o desempenho em português aumenta 5 pontos na escala SAEB, o que equivale a meio ano de aprendizado entre o 5º e 9º anos.

A escola com melhor avaliação do espaço físico da biblioteca tem um IDEB 0,2 maior que a escola com pior espaço físico. Para efeito de magnitude, observa-se que o Brasil inteiro cresceu 0,3 ponto no IDEB entre 2015 e 2017. A mesma magnitude de correlação tem o indicador de uso da biblioteca, sendo que para as escolas mais vulneráveis, a correlação chega a 0,5 ponto no IDEB.

O resultado sugere que a presença de um responsável qualificado que cuide da biblioteca e participe de atividades pedagógicas é relevante no aprendizado. A magnitude do efeito em desempenho em português é de 4 pontos (SAEB), ou um terço de um ano de aprendizado entre o 5º e 9º anos. A relação é ainda mais forte nas escolas mais vulneráveis: 16 pontos (SAEB).

A presença de um professor que se envolva em atividades de pesquisa e leitura, e incentive os alunos a frequentarem a biblioteca aumenta o desempenho em português em até 7 pontos na escala SAEB, o que representa 63% de um ano de aprendizado. Também existe uma correlação alta e positiva do indicador com o IDEB, equivalente a duas vezes o que o Brasil cresceu em termos de IDEB de 2015 a 2017.

O indicador de acervo tem correlação positiva com desempenho (apesar de alguns casos estatisticamente não significantes) nas três medidas testadas.

  •     Em português: 6 pontos
  •     Em matemática: 10 pontos
  •     No IDEB: 0,4 pontos

O indicador de recursos eletrônicos (incluindo computador; tablet e internet) tem correlação positiva e significante de 9 pontos (SAEB) em português, 10 pontos em Matemática e 0,4 ponto no IDEB.

O indicador de coesão entre as avaliações dos atores (diretor, responsável pela biblioteca, e professor) sugere que estes concordam em grande parte em suas avaliações sobre as bibliotecas. Quando diretor e professor avaliam a atuação do professor em relação à biblioteca essa correlação, embora positiva, não é expressiva.

Quais pontos merecem destaque?

Encontramos relações positivas entre diferentes indicadores da qualidade das bibliotecas escolares com desempenho dos alunos em português e em matemática. Em todos os indicadores de qualidade temos forte e positiva associação com o IDEB. Vale a pena ressaltar que para escolas mais vulneráveis essas associações são ainda mais fortes.

Qual a importância da pesquisa no atual cenário da educação nacional?

A pesquisa sobre bibliotecas escolares, tanto no Brasil quanto internacionalmente, ainda tem poucos resultados consistentes. Neste estudo, contribuímos com mais elementos para esta literatura. Em termos de políticas públicas, não se pode estabelecer um efeito causal, porém, as correlações positivas recorrentes podem fornecer alguma intuição de que a presença de bibliotecas, por mecanismos que merecem ser mais bem estudados, pode estar ajudando aos alunos com desempenho e aprovação.

Neste estudo, a associação dos indicadores da biblioteca com desempenho escolar foi geralmente de maior magnitude nas escolas mais vulneráveis do que nas escolas menos vulneráveis. É difícil estabelecer o motivo, no entanto, esse efeito pode significar que nestas escolas um pequeno investimento em bibliotecas e livros podem significar um maior retorno em desempenho. (Sergio Firpo comandou a equipe que realizou a pesquisa Retratos da Leitura – Bibliotecas Escolares).

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