A absurda censura a Lygia Bojunga Nunes e sua Bolsa Amarela

Leo Cunha *

Daqui a alguns dias, em 26 de agosto, é o aniversário de Lygia Bojunga, e, antecipando a comemoração, queria agradecer a ela o presente dado a gerações de crianças que aprendem e aprenderam a gostar de ler ouvindo ou lendo suas obras.

Presente a gerações de adolescentes que encontraram e encontram, em sua obra, emoções, questionamentos e reflexões que talvez não esperassem encontrar em um livro lido, muitas vezes, na escola.

A inúmeros autores, como eu, que se deram conta de que era possível (e estimulante, e irresistível) escrever com tanta liberdade, ousadia, inteligência e coração, criar histórias e personagens tão criativos, autênticos, envolventes, mesmo estando no campo da sempre discriminada literatura infantil.

Sou possivelmente da primeira geração de leitores de Lygia: da primeira obra, Colegas, passando por Angélica, A Casa da Madrinha, Corda Bamba, O Sofá Estampado, meus colegas e eu fomos devorando, entusiasmados, cada livro que a autora publicava, e aguardando o próximo com ansiedade.

Suas personagens nos faziam, ao mesmo tempo, dar gargalhadas e refletir muito! O encontro improvável dos três animais amigos, a cegonha Angélica, que queria desnascer, para não falar mentira, ou Alexandre, saindo pelo mundo procurando a Madrinha, por exemplo.

Certamente, os valores que surgiam das tramas engenhosas e muito divertidas e das soluções pacificadoras são importantes e universais: a amizade, a procura da verdade, a compaixão, a superação das dores – grandes ou pequenas.

Sobretudo, e em praticamente todas as obras, há, decorrente da narrativa (e sem lições de moral), a valorização da autenticidade, da busca pela identidade individual.

Talvez isso apareça especialmente em A Bolsa Amarela, cuja protagonista/narradora é Raquel, a menina que procura esconder, na bolsa dada pela tia, seus maiores desejos, que têm a mania de engordar, quando a vida dela lhe nega compreensão. Os maiores desejos – ser menino, ser gente grande e ser escritora – muitas vezes, de tão gordos, ameaçam sair da bolsa – e é um trabalhão contê-los.

Talvez, também, essa história fosse a maior unanimidade da minha turma: todos , meninas e meninos, se solidarizavam com Raquel, nas suas dificuldades familiares. Na família, frequentemente, levavam a melhor os mais velhos e o irmão… Meu filho André, que leu o livro mais de 30 anos depois de mim, também se encantou pela Raquel.

Por falar em André, o grande amigo de Raquel se chama exatamente André (não vou identificá-lo: vai que alguém ainda não leu o livro…) Contar esses pormenores da narrativa nem de longe apresenta a beleza da história e a busca de Raquel para encontrar seu caminho.

Imaginar – como um vereador do interior de SP acabou de fazer – que essa história insufla a rebeldia ou a luta dos gêneros é errar por muito: é ter parado nas primeiras páginas da história (que pena!), ou ter feito uma leitura tão rasteira, tão simplista, que só resta convidar o vereador: releia, meu caro! Para o seu próprio bem e o das crianças de sua cidade!

Tive a sorte de, na escola e na família, poder conviver com a arte e com obras literárias – como as da Lygia – que nos convidavam a entender o mundo pela imaginação, pela fantasia (ainda que nem notássemos isso, na época) e mostrar a vida das personagens como um longo caminho a ser percorrido, com muito riso, com muitas emoções, mas também com perdas, e que esse caminho era cheio de atalhos, que as personagens podiam escolher, e que, com sensibilidade e generosidade, o melhor caminho se apresenta para cada um.

Cada leitor vai se identificar mais com uma personagem ou com outra, mas, no fundo, a gente se solidariza com todas. Enxergar a tal “ideologia de gênero” na obra da Lygia é forçar a barra demais, é (isso sim) ideologizar o livro, é negar o que ele tem de plural, de sutil, de artístico, enfim! Só faltou gritar um patético “Nossa bolsa jamais será amarela!”

Em anos mais recentes, Lygia continuou escrevendo, e até dirigindo-se a leitores maiores, sem nunca perder a qualidade da narrativa, a rica construção das personagens, o gosto pela melhor oralidade.

Por isso mesmo, a autora tem a obra espalhada pelo mundo, nas mais diversas línguas (inclusive catalão, norueguês, finlandês, sueco, alemão…), publicadas nos países que mais valorizam a literatura para crianças e jovens e mais cuidam da leitura como bem para todos.

Por isso também, aqui e no exterior, ganhou os prêmios mais importantes da literatura para crianças e jovens, como o Jabuti, o (extinto) INL , o FNLIJ, o Hans Christian Andersen e o Astrid Lindgren. Aqui e lá fora, suas histórias são “radiofonizadas”, viram filme e teatro. Felizmente!

E, enviando um abraço carinhoso à Lygia, pelos seus 87 anos, fico esperando que a lucidez e a leitura mais sadia de educadores e especialistas em arte e literatura deixem sempre em circulação todas as suas obras, sem nenhum tipo de censura, para que novas gerações tenham o direito e a alegria de ler as que escolherem – possivelmente, todas!


PS: Para quem não viu ainda, está aí o link pra reportagem com o caso, no qual o vereador chama A Bolsa Amarela de “lixo ideológico” https://www.gazetainfo.com.br/…/livro-distribuido-na-rede-m…

*  Jornalista, professor e escritor

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