“A rima causa um impacto mágico”

De 3 a 8 de setembro, Belo Horizonte viveu o seu Salão do Livro Infantil e Juvenil, realizado na Casa Raja Shopping. O tema da programação foi “Tem criança tem Poesia” idealizado pela curadora do evento Leida Reis. Sua paixão pela literatura foi atiçada pelos poemas de Drummond. Jornalista, escritora, dona da Páginas Editora e criadora do Clis, Clube do Livro Infantil Solidário, Leida lançou uma programação diversificada, mas com muitos pretextos para destacar a poesia e, assim, despertar as crianças visitantes do Salão tal como um dia os versos também a sensibilizou. E para sempre.

“Não penso só na forma tradicional de poesia. Se a apresentação da escrita para as crianças não é poética, não funciona bem” – Fotos: Divulgação

Rosa Maria: “Tem criança tem Poesia” é o tema do Salão de 2019. Por quê?

Leida Reis: Minha primeira experiência com a literatura foi lendo e tentando imitar Carlos Drummond de Andrade. Então, a poesia foi minha porta de entrada na literatura. Foi nos versos que encontrei a ressignificação das palavras, a essência da criação literária. Tanto é que coloquei nos meus filhos, Gabriel e Clarice, o segundo nome de Poesia. E, para mim, a criança é a própria poesia, a fala dela, a leitura que faz do mundo, quando começa a se expressar, é extremamente poética.

RM: Como você analisa a relação da criança com a poesia?

LR: É interessante perceber como iniciantes na leitura, as crianças recém-alfabetizadas gostam de textos em forma de poemas especialmente da rima. A rima causa um impacto mágico, um encantamento na criança. A maioria acaba perdendo esse gosto com o tempo, mas os pequenos se apaixonam pela escrita poética e muitos autores aproveitam isso com textos magistrais.

RM: Poderia citar os principais poetas voltados para as crianças? Quais estão presentes na programação?

LR: No Salão do Livro Infantil e Juvenil estará, especialmente, a lembrança boa, a herança e, claro, a homenagem a Antônio Libério Neves, um dos grandes poetas que Minas produziu. E teremos outros poetas, como Marcelo Xavier, Léo Cunha, o Lalau, a Alessandra Roscoe. O Edimilson Pereira com “Poemas para ler com as mãos” é um dos destaques da programação. Eu entendo que o texto infantil, em quase totalidade, é recheado de poesia. Não penso só na forma tradicional de poesia. Se a apresentação da escrita para as crianças não é poética, não funciona bem.

RM: Qual a forma que encontrou para tratar de poesia na programação do Salão?

LR: Teremos um mural de poesia logo na entrada do shopping, onde crianças poderão pregar papéis contendo poemas avulsos. A educadora Heloísa Davino vem com poemas de autores diversos também enfeitar o Salão e apresentar a oficina “Educar com poesia, esse mundo é possível?”. De Sabará vem o grupo Arautos da Poesia e o contador de histórias Lua Gondi assume o poeta performático criado especialmente para o evento: Ganimedes, o Poeta do Salão. A poesia será tema de diversas mesas e estará nas contações de histórias e nos shows.

RM: Como os demais gêneros literários são tratados na programação?

LR: Não há distinção entre poesia e prosa no Salão. Por entender que a prosa para crianças e jovens traz elementos poéticos fortes, toda a programação permeia entre as duas formas.

RM: O que você destaca nesta programação: do lado da poesia e do lado dos demais gêneros?

LR: Algumas mesas tratam de temas urgentes, como “Não conta pra ninguém: abordagens literárias sobre abuso sexual infantil”, com o escritor Tino Freitas lançando “Leila”, pela Editora Lê, e conversando com a autora de “Não me toca, seu boboca”, Andrea Viviana Taubman (Aletria Editora).  A dupla Lalau (autor) e Laurabeatriz (ilustradora) completam 25 anos de parceria e veem nos falar sobre as formas de alcançar a atenção da criança com o desenho e a escrita. Destaco, ainda, a mesa com o escritor de Juiz de Fora, Edimilson Pereira, a escritora Ângela Leite e a livreira Etiene Martins, que vão mostrar que a literatura não tem cor ou tem todas as cores. Léo Cunha vem falar de humor e de poesia, Alessandra Roscoe, vai “brincar de ler” com a meninada; Stella Maris, Laura Conrado, Paula Pimenta são outros destaques.

RM: Tem um dia ou horário em que a poesia vai se tornar mais efervescente?

LR: Não há um dia ou horário específico, ela será lembrada o tempo todo. E podem surgir, no decorrer do salão, outras atividades poéticas. O Salão é um movimento e esse movimento é pela poesia em suas diversas expressões.

RM: Poderia destacar livros ou lançamentos que o Salão vai mostrar para o público como recomendados para quem deseja leitura de poesia?

LR: As editoras estão participando da feira e também da programação oficial com diversos lançamentos. Não vou destacar para não ser injusta com uma ou outra, mas a programação está recheada de novidades que chegam ao mercado com o Salão do Livro Infantil e Juvenil de Minas.

RM: Fale um pouco sobre o seu trabalho na literatura e como curadora do Salão.

LR: Minha paixão pela literatura vem da infância, do contato com a poesia de Drummond, com as crônicas de Clarice Lispector e Rubem Braga, nos livros didáticos. Não havia livros em casa. Profissionalmente, escolhi o jornalismo e nele atuei por 27 anos, para, então, criar a Páginas Editora. Logo depois, criei também o Clube do Livro Infantil Solidário, cuja ação de setembro será realizada dentro do Salão. Mas publico desde 1991 e tenho dois romances (A invenção do crime – ed. Record e Quando os bandidos ouvem Villa-lobos – ed. Manduruvá), dois livros de contos (The cães amarelos – independente – e O livro cada um – ed. Manduruvá), além do infantil “As árvores invisíveis” – Páginas Editora, além do lançamento em coautoria com Gabriel Poesia “Os super-heróis da bola” também pela Páginas.

Fui curadora do primeiro Festival Literário Internacional de BH (Fli-BH), juntamente com Beatriz Hernaz e Afonso Borges, em 2015, e com grande alegria montei a programação do Salão do Livro Infantil, com atrações bem variadas para os públicos infantil e juvenil. Nada mais prazeroso que imaginar as crianças aproveitando os momentos lúdicos de cada atração.

As homenagens são muitas nesta edição do Salão do Livro Infantil e Juvenil de Minas. Além do principal nome que vamos destacar, o do poeta Libério Neves, nossas salas serão homenagens a escritores mineiros e nacionais. O espaço maior do quarto andar do Casa Raja Shopping foi batizado de Biblioteca Libério Neves. As salas, onde acontecerão as atividades(bate-papo, contação de história, oficina e shows) receberam os nomes de Marcelo Xavier, Ângela Leite, Ataíde Lisboa, Henriqueta Lisboa, Angela Lago, Monteiro Lobato, Cecília Meireles e Ruth Rocha. Fica o convite: venham reforçar essa homenagem a esses nomes tão importantes da literatura brasileira. Espero que gostem!

“Venham reforçar essa homenagem a esses nomes tão importantes da literatura brasileira. Espero que gostem!”

1 Comment

  1. Como do papiro
    Do barro
    Do casco árduo de uma caverna
    Se chegou até aqui?
    Com certeza a criação a que chamamos linguagem, literatura, escrita, poesia tem o mais elevado grau de ascendência na escala da compreensão / expressão humana.
    É basicamente a partir dessa perspectiva que Leida Reis descortina,literalmente, o grande palco das emoções humanas. Na forma da preparação deste trabalho a mil mãos. O Salão do Livro.
    Saúdo o espírito poético presente!
    Saúdo a porta de acesso aos pensadores e criadores que nos legaram e legam seu labor o mais luminoso. O LIVRO.
    Honra em participar dessa jornada.

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